Quinze milhões de alunos estudam em escolas sem biblioteca no país

Demétrio Weber

O Centro de Ensino Fundamental em Sobradinho, região rural do Distrito Federal, onde não há bibliotecas, laboratórios científicos e o mobiliário está em mau estado de conservação. Foto: André Coelho / Agência O Globo

Na volta às aulas, milhões de alunos de todo o país vão estudar este ano em escolas onde não há laboratório de ciências, biblioteca, laboratório de informática ou quadra de esportes. O Censo Escolar do Ministério da Educação (MEC) mostra que, no ano passado, 27 milhões de estudantes de ensino fundamental e médio (70% do total) frequentavam estabelecimentos sem laboratório de ciências. A inexistência de bibliotecas era realidade para 15 milhões (39%), enquanto 9,5 milhões (24%) estavam matriculados em escolas sem laboratório de informática, e 14 milhões (35%), em unidades sem quadra esportiva.

Os dados foram divulgados pelo MEC em dezembro e consideram tanto a rede pública quanto a privada. No ensino médio, menos da metade das escolas tinha laboratório de ciências. Nas séries finais do ensino fundamental, a situação era mais grave: só 23% delas estavam equipadas. Nas séries iniciais do fundamental, apenas 7% dos estabelecimentos tinham laboratório de ciências.

“Os alunos possivelmente terão prejuízo na formação”

Falando em nome do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a secretária de Mato Grosso, Rosa Neide Sandes de Almeida, diz que as deficiências na infraestrutura prejudicam a aprendizagem. Ela culpa a falta de investimentos em governos anteriores, tanto em nível federal quanto estadual e municipal, mas ressalva que a situação começou a mudar na última década:

– Os alunos possivelmente terão um prejuízo significativo na sua formação. Isso com certeza tem consequências para o nível de escolaridade que a gente oferece à nossa população. O Brasil ainda está fazendo o dever de casa em aspectos primários da escola – diz Rosa Neide.

A falta de infraestrutura preocupa a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O coordenador do Grupo de Trabalho de Educação da SBPC, Isaac Roitman, considera a situação vergonhosa e defende o lançamento de um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) específico para recuperar escolas e formar professores. Até hoje, nenhum brasileiro foi agraciado com o prêmio Nobel.

– Deveria ser prioridade para quem pensa no futuro do Brasil – disse Roitman, por e-mail.

O consultor do movimento Todos pela Educação e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE), Mozart Neves Ramos, critica a falta de padrões mínimos para o funcionamento de escolas. Segundo ele, o poder público deveria estabelecer critérios e fazer a certificação das escolas.

Em maio, o CNE aprovou parecer definindo padrões de qualidade para a rede pública, o que exigiria aumentar investimentos em educação. O parecer só vale se for homologado pelo ministro Fernando Haddad, o que ainda não ocorreu. Segundo o MEC, o texto permanece em análise.

– A gente não pode oferecer escola de qualquer jeito. É preciso dizer quais são os insumos que se espera que uma escola tenha – diz Mozart.

Ele chama a atenção para outro ponto: não basta ter laboratórios e bibliotecas, é preciso que professores e alunos utilizem os recursos:

– O pior de tudo é que, mesmo nas escolas que têm laboratórios, eles são pouco usados – diz Mozart.

Em escola no DF, computadores sem uso

O Distrito Federal, unidade da Federação que lidera rankings de avaliação do MEC, não foge à realidade revelada pelo censo. O Centro de Ensino Fundamental Fercal, na cidade-satélite de Sobradinho, não tem biblioteca nem laboratório de informática. A escola recebeu 20 computadores do MEC no ano passado, mas dez máquinas permanecem nas caixas, e as demais não são usadas.

O vice-diretor Samuel Wvilde diz que a rede elétrica não suporta o funcionamento simultâneo dos computadores. Há um projeto de reconstrução da escola. Os livros de literatura ficam guardados junto com o material esportivo. O resto do acervo foi transferido para outra escola, onde está sem uso. O centro atende a 1,1 mil alunos de ensino médio e dos anos finais do fundamental.

A Escola Classe Engenho Velho, com 420 alunos, não tem biblioteca nem laboratório de informática. A vice-diretora Susan Fernandes conta que o MEC já ofereceu computadores três vezes, mas a doação foi recusada porque o prédio não tem sala disponível. Os livros de literatura ficam guardados em caixas, que são levadas pelos professores para as salas de aulas.

O MEC informa que investiu R$ 774 milhões na compra e distribuição de computadores capazes de beneficiar 30 milhões de alunos, entre 2004 e 2010.

Fonte: O Globo

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2 thoughts on “Quinze milhões de alunos estudam em escolas sem biblioteca no país

  • 31 de janeiro de 2011 em 11:23
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    Não adianta ter se não usar, a qualidade é tão ruim que não usa, o incentivo é pouco…

    Eu mudei bastante de escola, passei por umas 14 antes de terminar tudo. Só lembro de três bibliotecas, uma de quando eu era bem pequena e pegava aqueles livrinhos (que não atrai nada alunos mais velhos), outra que serviu pra estudo e a terceira era uma micro sala com um bando de livro e projetos de artes largados pelos alunos, ótima pra quem queria matar aula. E o único laboratório que eu vi foi transformado em sala de aula. E, olha só, grande parte foi escola particular. Todas no Rio, não no interior do interior de nãoseionde. Também vi os tais computadores, que na maioria das vezes eram lerdos, antigos e não funcionavam direito.

    “O Brasil ainda está fazendo o dever de casa em aspectos primários da escola.”
    Fazendo o dever de casa com tanto interesse quanto os alunos que cria…

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