Quem gosta de clássicos?

Camila Kehl
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Os clássicos se tornam clássicos por uma série de razões. Mesmo pertencendo a uma época, eles são atemporais. O fato de se passar em determinado período ou pincelar sobre determinado acontecimento histórico não faz com que uma obra fique datada, estigmatizada e, dentro de alguns anos, ultrapassada – só contribui para agregar valor a um enredo. Referências a um ano, local ou marco que situem um acontecimento no tempo e no espaço convidam a estudar e a contemplar o passado da humanidade, e a conhecer o que até então possivelmente ignorávamos. A essência das novas descobertas descortinadas pela literatura trazem, sempre, um tom e um vínculo eternos com a arte.

Para que um clássico seja considerado clássico, é avaliado o estilo de narrativa de um escritor (o valor da forma, a cadência da prosa, a qualidade do texto), a consistência do enredo, a grandiosidade das ideias, a veracidade das personagens.

Os clássicos não viram clássicos, como eu pensava enquanto ainda estava no colégio e os professores tentavam fazer com que pré-adolescentes gostassem de ler com Vidas Secas, porque são chatos.

Não dá para esfregar Camões nos narizes de meninos e meninas que ainda não completaram 15 anos e esperar que estes sorriam encantados e passem a estudar mais a fundo a literatura portuguesa. A maioria, claro, não vai reagir de forma positiva.

Porque gostar de livros clássicos exige, em primeiro lugar, um tipo muito centrado de maturidade; uma vontade de aprender e de acumular o conhecimento ideal, ou que se convencionou chamar ideal, desprovida daquela pontada de anarquia e rebeldia que os mais jovens têm e que, evidentemente, contesta também, e principalmente, este campo. Em segundo lugar, para se entender e amar as obras imortais, há que se ter perseverança e paciência, e direcionar ambas a um patamar maior e que pode ser denominado como o do saber. Em terceiro lugar podemos afirmar, ainda que isso não seja uma regra, que o livro clássico não é simples de ser lido; ele geralmente pertence à outra época, sobre a qual é necessário algum tipo e algum acúmulo de entendimento.

Os clássicos nem sempre divertem e entretêm. Mas todos, em igual medida, são necessários para uma sólida formação cultural.

Discordo veementemente dos – para mim – hereges que apregoam que a leitura deve ser simplesmente um prazer e obedecer única e exclusivamente aos momentos de lazer. Ora, só nos parece fácil – e, portanto, divertido – algo que não exige muito de nossa capacidade intelectual. É evidente que algumas obras servem exclusivamente aos momentos de relaxamento, e por isso mesmo pouco têm a acrescentar e contribuir; simplesmente figuram como um elemento pertencente ao conjunto das cadeiras de praia, do mar, do sol e da água de coco. É o caso dos livros de autoajuda, e daqueles romances comprados em banca de jornal, e dos de temática fantástica, com vampiros, lobisomens, anjos e demônios, que se proliferam com uma rapidez assombrosa nas prateleiras das livrarias.

É a perseverança de seguir adiante com um livro complicadíssimo que nos faz crescer intelectualmente. É o desafio que instiga, que amplia horizontes, que move o interesse. O ato de abrir um dicionário ou um livro de história para entender uma obra de ficção é a confirmação de que esta cumpriu parte do seu propósito.

E aqueles que ainda não têm intimidade com o mundo da leitura, devem começar o reconhecimento de terreno pelos clássicos? De forma alguma. Mas, em nome do crescimento pessoal, e para duelarem consigo mesmos, um dia devem tentar. Batalha perdida, e covardia e inaptidão atestadas, é desistir na página 60.

fonte: Diário de Canoas

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2 thoughts on “Quem gosta de clássicos?

  • 2 de fevereiro de 2011 em 0:19
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    Os classicos devem ser degustados!! Esse negocio de só acompanhar a modinha nao é legal. Gente, O conde de monte cristo , O principe ( Maquiavel), Leviatã (Hobbes), Segundo tratado sobre o governo(Locke), 1984(George Orwell)…
    Vamos aos brasileiros : Noite na tarverna, Cinco minutos e viuvinha, Dom casmurro, Eu e outras poesias (Augusto dos Anjos )…entre outras mil obras!! ! Sao livros perfeitoss! Como nao gostar deles?? Fico boba com isso. Sao livros que possuem contexto historico, livros ricos em conteudo! Com uma linguagem rebuscada mas nao impossivel de ler. Eu gosto bastante, pois aprendo palavras novas e sem falar na originalidade e o quanto contribuiu para nossa sociedade atual!!
    Amoo lançamentos (vampiros, anjos, lobisomens, romances de banca etc. -Logico que tem muuitos que sao horriveis, mas a gnt so descobre dpois q ta lendo, aí abandonar livro, so em casos extremos) mas dou muito valor aos clássicos siimm!! E nao doi ter um pouco de cultura. Mas esconda de mim auto ajuda, nao suporto. Acho que so serve pra desanimar mais ainda, mostrar que sua vida ta uma droga mesmo e a tendencia é piorar. Sou daquelas que os classicos sempre tem espaço na minha estante.

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  • 2 de fevereiro de 2011 em 16:41
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    Desde pequeno eu me esforcei para ler os clássicos. Mas nunca gostei que tentassem me empurrar goela abaixo obras que não me atraíam, pessoalmente a mim, numa livraria, por pura e espontânea vontade. Como se eles eu precisasse lê-los, não simplesmente “quisesse”. A grande literatura, e os clássicos estão cheios disso, é aquela que nos dá vontade de entesourar o livro lido conosco para sempre, de guardar conosco o orgulho de ter persistido na jornada e não ter, como dito, desistido.

    Os clássicos são tesouros porque custam muito caro para ser assimilados, mas se mantêm sempre novos e se asseguram de mudar pelo menos alguma coisa em nós, antes que fechemos as suas páginas. São indispensáveis.

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