Qual o marido mais ridículo da história da literatura?

Paulo Nogueira

São muitos os candidatos. Ao criar heroínas, os gênios parecem ter caprichado no contraste oferecido por homens patéticos.

Charles, o marido de Emma Bovary, é um idiota. Só ele não percebe o quanto seu amor e seus carinhos incomodam Emma. Quanto mais ele se esforça por ela, mais ela o detesta.

O marido inválido de Lady Chatterley é um imbecil. Na ânsia de segurar a mulher, o que não consegue, chega a propor a ela que tenha um filho com outro homem. Ele assumiria a criança como um filho seu.

Tão estúpido como ambos é o marido de Ana Karenina.

Nenhum desses maridos é páreo para os amantes que suas mulheres arranjam. Qualquer juiz reconheceria que ao traí-los elas estavam fazendo um movimento certo. Não dá para entender que em algum momento elas possam ter amado seus maridos. Há aí uma falha na trama dos grandes escritores. Os maridos são tão sem graça que você não imagina que possam ter despertado paixão algum dia.

Eu teria ponderado isso, se fosse editor, a Flaubert. A Tolstoi. Ou a DH Lawrence.
Também Ibsen, o grande dramaturgo norueguês, esculpiu um marido ridículo para destacar em A Casa das Bonecas Nora, uma das primeiras feministas da literatura.
Torvald é o marido de Nora.

Nora, bela, jovem, o ama – não sei como, haveria também que perguntar a Ibsen as razões – a ponto de arrumar dinheiro de forma não muito ortodoxa para custear um tratamento que salvaria sua vida. Mais tarde, Nora é chantageada. Torvald fica sabendo. Em vez de agradecer a ela o sacrifício, condena-a. Caso a história se tornasse pública, a carreira de Torvald num banco poderia ficar comprometida.

Ele pensa em duas pessoas na crise: primeiro nele e depois nele mesmo.

O chantagista se arrepende e o risco desaparece. Então Torvald tenta desdizer as coisas duras que dissera a Nora.

Só que já a perdera.

Ela percebe que tem que se livrar dele. E vai embora. Não rumo a outro homem, mas para a conquista da liberdade.

Torvald é tão obtuso quanto seus colegas criados por outros escritores.

O casamento, na literatura, é um horror, em boa parte por culpa de escritores brilhantes que inventaram maridos abomináveis.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

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6 thoughts on “Qual o marido mais ridículo da história da literatura?

  • 8 de fevereiro de 2011 em 21:01
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    Podemos ver isso também no clássico mais famoso da Literatura Brasileira, já que o Bentinho não foi o melhor dos maridos para Capitu!

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  • 8 de fevereiro de 2011 em 23:31
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    faço minha as palavras da companheira Cris, e não só Bentinho, afinal ele é o primeiro nome que surge quando pensamos em um marido ridículo, acrescentaria ainda Fabiano, de vidas secas, ou Eugênio de olhai os lirios do campo, ou ainda Vadinho de Dona Flor e seus dois maridos. a literatura brasileira esta cheia de exemplos de maridos ridículos, retratando uma sociedade igualmente ridícula em seus costumes. graças a Deus pela evolução.

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  • 9 de fevereiro de 2011 em 10:42
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    Sem esses maridos, as heroínas não teriam sido o que foram. Teriam sido esposas felizes e ponto. Gente feliz e ponto não dá liga pra ficção! É a noção de prisão, de casamento-cárcere que destaca a paixão, a coragem, a busca por sentirem-se livres dessas mulheres. Defendo esses maridos patéticos. NA FICÇÃO, leia-se. ^^

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  • 9 de fevereiro de 2011 em 13:09
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    O marido mais ridiculo da literatura é o corno manso do José de Nazaré.

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    • 9 de fevereiro de 2011 em 14:12
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      José foi um dos homens mais sérios e exemplares de todos os que a Bíblia relata. Dificilmente um homem em nossa época pode ser melhor marido do que ele foi. Perdão, mas chamá-lo de “corno manso” reflete ou uma aversão injustificada à Bíblia ou uma ignorância cabal.

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  • 10 de fevereiro de 2011 em 14:18
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    Sim, um detalhe: até que ponto esses autores brilhantes de fato “INVENTARAM maridos abomináveis”?

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