Brasileiro: povo que escreve mal

Escrito por Camila Kehl em Livros Abertos

Minhas leituras, que incluem jornais e revistas, me ensinaram que os melhores cronistas e escritores, aqueles que se destacam, são os que têm coragem de se expor. Além da escrita, que deve ser de qualidade, e da forma de abordar um assunto, que não pode ser trivial ou clichê, é fundamental oferecer o rosto a quem quiser bater; é essencial desnudar a alma e apresentar opiniões sinceras – doa a quem doer.

São esses pensadores honestos, transparentes e valentes os meus modelos. É neles que busco inspiração. Não tenho, pois, medo de dizer o que minha geração cala (vai ver pertenço à década de 60…). Se as pessoas realmente nascessem com algum propósito ou missão, estaria escrito que a mim cabe encher de lenha as fogueiras que já existem, mesmo as que ainda não ardem.

Trago, então, novas toras e um atiçador de chamas.

Deus do céu: como o povo brasileiro escreve mal.

Atenção: não incluo, nesta constatação, pequenos enganos quanto ao emprego da vírgula, ou a necessidade de recorrer vez ou outra ao Google para conferir a ortografia de uma palavra, ou escorregões eventuais nas concordâncias, ou acentos fora dos lugares, ou um ou outro deslize no que diz respeito à conjugação verbal. Isso todo mundo faz, claro, e qualquer um desses equívocos pode ser creditado ao cansaço, a uma dor de cabeça, à falta de concentração. Nada disso, portanto, desqualifica um intelecto. E dizem, ainda, que os que têm mais afinidade com as ciências exatas deixam a desejar no âmbito dos pronomes, dos artigos, dos substantivos. Quem não trabalha como redator, revisor ou escritor não precisa, enfim, ser impecável. Basta ter alguma noção.

O que quero dizer é que o povo brasileiro é, em geral, semianalfabeto, e brinca com as letras e as palavras de uma maneira descuidada que dói na alma dos apaixonados pela gramática. Massacram a lindíssima Língua Portuguesa e sequer demonstram algum sentimento de culpa.

No período em que trabalhei em agências de marketing digital, não era incomum que me designassem para mediar participações em concursos culturais – aqueles mesmos em que se deve escrever uma frase sobre qualquer coisa. Quando começava a ler as respostas enviadas pelos internautas, tinha vontade de congelar o tempo, sair do lugar, lançar mão de uma garrafa de uísque e chorar num cantinho.

Pontuação não existe; palavras difíceis são empregadas, sim, mas sem que se conheça seu real significado; “mais” vira sinônimo de “mas”; redundâncias são largamente utilizadas; letras maiúsculas e minúsculas não têm diferença alguma entre si; a ortografia leva uma cuspida atrás da outra, e pérolas como “conheser”, “conserteza”, “seje”, “menas” e “simplismente” são empregadas com certa frequência.

No caso dos concursos culturais, nem o desejo genuíno de ganhar um prêmio faz com que as pessoas escrevam melhor. E tudo porque elas realmente não têm o conhecimento necessário para tanto.

A pergunta é: por quê? O que motiva essa ignorância? De quem é a culpa pelo desuso do português e pela popularização desse dialeto?

Há dois casos, dois pesos e duas medidas.

Primeiro, há os filhos do Brasil que este não consegue enxergar: os donos de nada, os sem acesso, os sem chance. Fácil é criticar essa gente e sua fala e sua escrita – sortudos são os que aprendem a formar sílabas hesitantes –, mas não voltamos nossos cenhos franzidos e nossas expressões fechadas para eles e lhes estendemos as mãos que pendem de braços cruzados. Os pobres coitados nascem em meio à seca ou ao lixo e desde cedo cumprem o que lhes é imposto: trabalham para sustentar a família. Largam escolas e estudos e partem para a labuta, dia após dia, semana após semana. Em seus barracos miseráveis não há comida – por que haveria de ter livros? Mortos de cansaço (de tanto esforço e tanto sofrimento) e de barriga vazia, perdidos em meio à miséria e ao abandono, doentes de falta de informação, não há nada que sugira que sua sorte possa mudar. O Estado, claro, continua a fazer vista grossa, e seus representantes, como é de praxe, a desviar o dinheiro que poderia construir creches ou instituições de ensino que, por sua vez, garantiriam a ponte que, com o devido empenho, levaria essa gente sofrida a outro patamar.

O patamar da classe média emergente – essa que, sim, tem sua parcela de culpa no que diz respeito à ignorância abissal que nos engolfou e à hipnose coletiva que nos atingiu a todos, com os olhos pregados que estamos nas novelas e no BBB e na autopromoção descabida que impera no Orkut –, o patamar de quem tem algum estudo e que talvez tenha feito um curso técnico ou cursado uma faculdade, mas que está longe de atingir um nível satisfatório de cultura. Alcançamos um ponto, e me refiro principalmente a minha geração, a que começou a engatinhar na década de 90, no qual acumular conhecimento parece um hábito tão pretensioso quanto anacrônico.

Só se aprende a escrever (bem) lendo. Isso é um fato incontestável. Mas que criança vai deixar de lado uma boneca ou um carrinho e pegar um livro se os adultos não levarem a obra até suas mãozinhas? Os pais não ensinam aos filhos a importância de se frequentar livrarias ou bibliotecas públicas – eles mesmos a desconhecem. Claro. Quem é que vai ler quando pode navegar em blogs hilários? Quem é que vai queimar os neurônios com Saramago quando pode descobrir o que disse aquele cara famoso no Twitter? Quem é que vai prestar atenção ao que falava Zaratustra se pode escutar as palavras daquele participante do Big Brother? Quem é que vai abrir um clássico quando pode facilmente copiar um apócrifo na Internet e colar no perfil do Orkut? Quem é que vai malhar o cérebro em um tempo em que a bunda é tão valorizada?

Em última instância, ler exige esforço – e este pode ser descrito como algo que ninguém mais quer fazer. Com uma vida atribulada, tumultuada, estressante, quem é que quer chegar em casa e relaxar com Tolstói? Ninguém. Mais fácil ligar a televisão.

Ler bons livros nos parece, atualmente, perda de tempo. É como um grito mudo e coletivo que diz que, agora, temos diversões mais interessantes, movimentadas e agitadas. Há uma crença velada de que a literatura de qualidade ficou para trás, e é, sim, coisa de gente chata e pedante e todos os outros adjetivos que quem não lê consegue formular (são poucos, mas figuram nesta linha – mas também podem chegar a definir os ávidos leitores como deprimentes, aborrecidos, melancólicos, melodramáticos e solitários).

Estigmatizamo-nos e, assim, nos perdemos.

Pouco a pouco, os livros de gramática lindíssimos de Celso Pedro Luft vão acumulando mofo, bolor e pó nas prateleiras. Quem é que ainda quer estudar sintaxe?

Saramago dizia que ainda acabaríamos por retornar aos grunhidos. Eu concordo.

“Lutei contra a ignorância, mas fui vencido.”
Prof. Dr. Cláudio Moreno

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5 thoughts on “Brasileiro: povo que escreve mal

  • 8 de março de 2011 em 13:14
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    Meu Deus, esse texto é perfeito!
    Ainda há aqueles que até conhecem a gramática, mas insistem em estrangular as palavras com um vocábulário de internet esquisito, como “axim” , “voxê”, “sojinho”. Onde vamos parar?

    Parabéns Camila Kehl.
    Perfeita em suas palavras.

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  • 8 de março de 2011 em 13:25
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    Tudo dito. Eu estudei numa escola muito precária, num barraco. Parei aos 11 anos, voltei através de um supletivo aos 20. Completei minha faculdade aos 35. Mas aprendi lendo, estudando gramática e escrevendo em meu blog. Roubava os romances de minha irmã e me escondia para ler. Não tinha brinquedos, ler era o meu passatempo preferido. Mesmo assim, tenho dúvidas na hora de empregar a pontuação. Mas nunca escrevi as erradas palavras citadas acima. Meu filho terá a oportunidade que eu não tive, estudar. É ansioso para aprender a ler, tem 4 anos e lê alguma coisa, por gostar, não forço nada. Incentivo, tem muitos livrinhos. Todos que pede, eu dou. Tem hora marcada para aprender e também para ser criança, ou seja, brincar. Espero que ele entenda como carinho e oportunidade que lhe ofereço. Abraços.

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  • 8 de março de 2011 em 13:40
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    Eu não escrevo um portugues perfeito, principalmente por causa das “reformas gramáticas” que sempre ocorrem na lingua portuguesa, então eu esqueço alguns acentos, erro em algumas concordâncias, mas nada tão grave comparado ao que eu vejo nos “orkut e msn da vida”. Como a Veronicasouzza disse, o “axim”, “voxê” (ela ainda colocou acento circunflexo, o que na verdade não ocorre), “sojinho”, tambem tem o “esquecimento” das letras “R” e “U”, como “vo” (no lugar de vou), “faze” (no lugar de fazer) e muitos outros erros que se eu listar todos, o que era para ser um comentário acaba virando um livro.
    Eu mesmo ja mandei meus primos largar a internet e ler um livro, ou ler qualquer coisa de util na propria internet por que sempre quando eu leio o que eles escrevem, da vontade ou de chorar ou de bater a cabeça na parede.
    Tem um ditado que eu sempre falo com os outros pelo “msn”, “orkut” e outros sites de relacionamento que é o seguinte:
    “Não é obrigatorio escrever o portugues perfeito na internet, por que não sou editor ou escritor ou algo do tipo para saber todas as regras e reformas, mas escrever totalmente errado as coisas mais obvias é o fundo do poço”

    Parabéns Camila Kehl pelo ótimo texto que você escreveu.

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  • 8 de março de 2011 em 14:07
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    Esse texto começou bem. Fiquei empolgado com o primeiro parágrafo para depois cair, quem diria, no clichê de culpar a internet e os pais. Voltei à faculdade depois de 21 anos fora dos bancos de escola. Cheguei com a empolgação da novidade e me deparei com a má vontade da maiorira pelo conhecimento. Gente que tem preguiça de ler fazendo faculdade é o cúmulo da estupidez. Muitos colegas claramente em busca de um canudo para elevar um pouquinho seus proventos no serviço público. Por fim, o maior problema das nossas escolas não está na estrutura, nem nos salários dos professores, mas na falta de tesão pelo conhecimento.

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