Estudantes brasileiros são os que têm menos livros em casa, aponta pesquisa

Texto de Mariana Mandelli publicado originalmente no Estado de S. Paulo

Educação. Levantamento baseado nos dados do Pisa mostra que 39% dos estudantes do País possuem no máximo dez obras literárias e apenas 1,9% é dono de mais de 200 volumes; baixa escolaridade dos pais e situação socioeconômica ruim são motivos

Hábito. Michelle la Marck, de 14 anos, foge dos resumos e busca sempre a íntegra das obras; ela recebeu na escola um certificado de quem alugou mais livros / Foto: Tiago Queiroz / AE

Imagine uma sala com prateleiras e estantes repletas de livros de todos os tipos: romances, poesias, crônicas, contos, ensaios, dicionários e enciclopédias. No centro, uma mesa de estudos, onde um aluno faz sua lição de casa. Nos lares brasileiros, essa cena ainda é rara: somos o país onde as crianças têm menos livros em casa. É o que mostra um levantamento inédito do Movimento Todos Pela Educação, com base no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) de 2010, que analisou 65 países. Cerca de 39% dos estudantes brasileiros declararam possuir, no máximo, dez obras literárias.

A pesquisa mostra ainda que jovens que convivem com livros em casa apresentaram um desempenho melhor nas provas do programa.

O índice brasileiro é pior que o de estudantes de outros países latino-americanos, como Argentina, México e Colômbia. Entre os que afirmam ter mais de 200 livros, estamos em penúltimo lugar (1,9%), perdendo apenas para a Tunísia (1,7%). Na frente estão, por exemplo, Coreia (22,2%), Islândia (20,32%) e Liechtenstein (20,48%).

A posição sofrível do Brasil no ranking, segundo especialistas em educação, revela um retrato social e cultural do País. “A quantidade de livros em casa está intimamente ligada ao nível socioeconômico da família e à escolaridade dos pais”, explica Priscila Cruz, diretora executiva do Todos Pela Educação.

O acesso ao livro, diz ela, também está ligado ao custo. “Obras literárias são artigo de luxo por aqui. Além disso, enquanto a alfabetização ainda for precária, não tem como a criança encarar o livro como uma ferramenta. Ela é o direito elementar à educação de qualquer indivíduo.”

Christine Fontelles, diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, organização não governamental que apoia projetos de educação, afirma que o Brasil precisa criar uma cultura de leitura. “Nós não nascemos leitores. Isso começa na família e só depois se estende para a escola. E esse hábito ainda é ausente no País”, explica. Segundo ela, as crianças devem ser preparadas desde a primeira infância. “O desafio de estimular a ler não pode ser entregue à escola.”

Educadores são praticamente unânimes em afirmar que crescer em uma família “letrada” é determinante para desenvolver o prazer pela escrita.

“O maior obstáculo é trabalhar o mediador de leitura, que pode ser o professor ou os pais, para que ele “venda” bem a ideia de ler para a criança”, afirma Marina Carvalho, coordenadora de projetos da Fundação Educar. “Só assim se cria o hábito.”

A última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que quem mais influencia o leitor no gosto pelos livros é a mãe, segundo 49% das pessoas. Em seguida, vem a professora, com 33%, e o pai, com 30%.

“A família se mostra como uma “escola de formação do leitor””, diz Zoara Failla, gerente de projetos da entidade. “Em sala de aula, muitas vezes não se desperta o interesse pelo livro como arte. Ele é apenas mais uma tarefa.” Segundo ela, a importância que os pais dão ao livro é determinante para a criança. “Porque esse é o ambiente de formação dos primeiros valores dela”, conclui.

Ilan Brenman, autor de livros infantis e pesquisador em educação, questiona essa relação em algumas famílias. “Alguns pais de classe média reclamam do preço do livro, mas compram consoles de videogame e celulares caríssimos para os filhos. Qual o valor então que eles dão para a educação?”

Costume. Na casa de Michelle la Marck, de 14 anos, que tem mais de 500 volumes em casa, o convívio com livros desde o berço fez com que a garota desenvolvesse o hábito pela leitura – sua mãe também gosta muito de ler. A influência foi tanta que, aos 9 anos, ela ganhou, no colégio Santa Maria, onde ainda é aluna, o certificado de quem mais alugou livros na biblioteca. “Foram mais de 300 para 200 dias letivos. E li a maioria”, lembra.

Ela lê até 25 livros por ano e diz nunca optar pelo resumo quando a escola pede alguma obra – como por exemplo A Metamorfose, de Franz Kafka, que está lendo agora. “Sempre que pesquiso na internet tenho um livro no colo para conferir as informações, tomando o cuidado de ver se está atualizado”, conta.

Sabrina de Oliveira, de 17 anos, lê até dois livros por mês – sem contar os propostos pelo colégio Santo Américo, onde estuda. “Gosto de ler mais de um ao mesmo tempo, e de gêneros diferentes, como um romance e uma peça de teatro, por exemplo”, diz ela, que leu diversas obras de William Shakespeare.

Tanto Michelle quanto Sabrina têm notas altas na escola, confirmando a tendência detectada na pesquisa.

PARA ENTENDER

Pisa permite comparar países

O principal objetivo do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) é apresentar indicadores educacionais que possam ser comparados entre países, mostrando, assim, a eficiência dos sistemas nacionais.

As avaliações são feitas a cada três anos, com provas de leitura, matemática e ciências. A cada edição, uma das áreas é enfatizada – na última foi leitura e o exame incluiu, pela primeira vez, textos online.

Fazem as provas alunos de 15 anos dos 34 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e de mais 31 convidados.

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4 thoughts on “Estudantes brasileiros são os que têm menos livros em casa, aponta pesquisa

  • 8 de março de 2011 em 23:42
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    Nada supreendente! (infelizmente)

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  • 8 de março de 2011 em 23:45
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    Para uma educação de qualidade no Brasil e em todo e qualquer país, necessariamente deve-se incentivar a leitura, seja por parte dos pais, seja por parte da escola. É preciso conscientizar aos responsáveis pela educação, que o hábito de leitura é importante para a melhoria no desempenho escolar. E que comprar um livro é mais importante do que comprar um jogo de vídeo game. Começa em casa o incentivo, depois a escola faz a parte dela, e não adianta procurar culpados, é preciso agir.

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  • 9 de março de 2011 em 15:00
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    É lamentável que num país de tantas qualidades como o nosso Brasil, a educação seja tão deficiente, pela “privação” e falta de incentivo ao hábito da leitura, hábito esse que é essencial para o desenvolvimento cultural e intelectual principalmente das crianças e jovens.

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