Polêmico livro sobre educação rígida chega ao Brasil

Originalmente publicado na Livraria da Folha

Um dos livros mais polêmicos recentemente publicados no mercado editorial norte-americano, “Grito de Guerra da Mãe Tigre” chega às livrarias nacionais na próxima semana.

Americana filha de pais chineses, Amy Chua diz que não pretendeu escrever um manual de como criar os filhos, mas um livro de memórias no qual relata todo o trabalho que teve para criar as duas filhas, Sophia e Lulu.

Amy observou a grande diferença entre os modelos de criação orientais e ocidentais. Ela acabou optando por uma educação muito rígida, que encara a infância como um período de treinamento para a vida adulta.

As duas meninas tinham diariamente, inclusive finais de semana e horários dobrados, aulas de mandarim, exercícios para estimular o raciocínio e mais de uma hora diária de instrumentos musicais. Férias não eram períodos de descanso.

Seu esquema educacional surge como um contraponto à extrema indulgência, mas já é questionada como exagerada.

Leia trecho abaixo e saiba como uma mãe tigre deve agir:

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A mãe chinesa

Muita gente se pergunta como os pais chineses em geral criam filhos tão bem-sucedidos. Querem saber o que eles fazem para produzir tantos gênios em matemática e prodígios em música, como é a vida numa família chinesa, e se questionam se seriam capazes de fazer o mesmo. Bem, eu posso contar, porque eu fiz. Eis algumas coisas que minhas filhas, Sophia e Louisa, nunca tiveram permissão de fazer:

– dormir na casa de amiguinhas
– aceitar convites para brincar com amiguinhos
– participar de peças encenadas na escola
– reclamar por não participar de peças encenadas na escola
– ver televisão ou brincar com jogos no computador
– escolher suas atividades extracurriculares
– tirar qualquer nota abaixo de A
– não ser a primeira da classe em todas as matérias, exceto educação física e teatro
– tocar qualquer instrumento senão piano ou violino
– não tocar piano ou violino

Estou usando o termo “mãe chinesa” em sentido amplo. Conheci recentemente um ocidental super bem-sucedido de Dakota do Sul (você já o viu na televisão), e, após compararmos anotações, concluímos que o pai dele, um integrante da classe operária, definitivamente fora uma mãe chinesa.

Conheço alguns pais coreanos, indianos, jamaicanos, irlandeses e ganenses que também se enquadram nessa categoria. Por outro lado, conheço mães de ascendência chinesa, quase sempre nascidas no Ocidente, que não são mães chinesas, seja por opção ou não.

Também estou usando o termo “pais ocidentais” em sentido amplo. Há pais ocidentais de todos os tipos. Na verdade, digo que o estilo de criar os filhos varia muito mais entre os ocidentais do que entre os chineses. Alguns pais ocidentais são rígidos; outros, negligentes. Há pais do mesmo sexo, pais judeus ortodoxos, pais solteiros, pais ex-hippies, pais banqueiros de investimentos e pais militares. Esses pais “ocidentais” não necessariamente compartilham as mesmas ideias, portanto, quando uso o termo “pais ocidentais”, obviamente não me refiro a todos os pais ocidentais – assim como o termo “mãe chinesa” não se refere a todas as mães chinesas.

Contudo, mesmo quando os pais ocidentais se julgam rígidos, normalmente estão longe de ser mães chinesas. Por exemplo, meus amigos ocidentais que se consideram rígidos fazem os filhos tocar seus instrumentos meia hora por dia. Uma no máximo. Para uma mãe chinesa, a primeira hora é a parte fácil. É na segunda e na terceira que fica difícil.

Apesar de nossos escrúpulos em relação a estereótipos culturais, há toneladas de estudos por aí que mostram diferenças consideráveis e quantificáveis entre chineses e ocidentais no que se refere à criação dos filhos.

Numa pesquisa feita com 50 mães americanas ocidentais e 48 mães imigrantes chinesas, quase 70% das ocidentais diziam que “enfatizar o êxito acadêmico não faz bem à criança”, ou que “os pais precisam alimentar a ideia de que aprender é divertido”. Por outro lado, aproximadamente 0% das mães chinesas tinha a mesma visão. A maioria delas dizia achar que seus filhos poderiam ser “os melhores” alunos; que o “êxito acadêmico reflete o sucesso da educação recebida em casa”; e que, se as crianças não se destacavam na escola, é porque havia um “problema”, e os pais “não estavam fazendo o que deviam”. Outras pesquisas indicam que os pais chineses passam dez vezes mais tempo que os ocidentais por dia realizando atividades escolares com os filhos. Por outro lado, as crianças ocidentais são mais propensas a participar de equipes de esporte.

Isso leva ao meu argumento final. Pode-se pensar que os pais esportistas americanos sejam semelhantes às mães chinesas. Porém, isso está errado.

Ao contrário da mãe ocidental típica, que passa o dia carregando os filhos para cumprir uma agenda abarrotada de atividades esportivas, a mãe chinesa acredita que (1) os deveres escolares são sempre prioritários; (2) um A-menos é uma nota ruim; (3) seus filhos devem estar dois anos à frente dos colegas de turma em matemática; (4) os filhos jamais devem ser elogiados em público; (5) se seu filho algum dia discordar de um professor ou treinador, sempre tome o partido do professor ou do treinador; (6) as únicas atividades que seus filhos deveriam ter permissão para praticar são aquelas em que puderem ganhar uma medalha; e (7) essa medalha deve ser de ouro.

Leia + sobre este livro aqui.

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6 thoughts on “Polêmico livro sobre educação rígida chega ao Brasil

  • 22 de março de 2011 em 14:12
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    Concordo com uma educaçao mais rigida, ainda mais nos dias de hoje! tenho 3 filhos e hoje o de 20 e de 18 anos agradecem pela educação que tiveram, trabalham e estudam um esta no 2 ano de engenharia mecatronica e o outro no 1 ano de fisioterapia, a pequena só tem 5 aninhos mas esta indo no mesmo ritimo.

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  • 22 de março de 2011 em 16:25
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    Já eu, discordo: minha irmã e eu sempre tivemos opções e fizemos o que queríamos – dados seus limites. Nunca nos exigiram notas A em tudo, mas sempre fomos ótimas alunas mesmo assim. Eu, formada, cinco anos de experiência, larguei tudo porque não sabia quem eu era: se meus pais me forçassem e oprimissem, em vez de me dar a liberdade para pensar, eu seria apenas como eles ou eternamente infeliz por satisfazer coisas pífias como tocar violino sem querer, de fato, tocar violino.

    De que vale criar gênios se os próprios o são por medo e não pensam por si próprios? Grande coisa. Ter um filho rebelde mas criativo e livre, na minha opinião, é melhor do que esse robozinho que me enche de orgulho inútil. Pra que serve isso? Isso é ser bem sucedido? Uma pena que seja tão fácil assim agradar pais. Notas altas! Isso é simples. Ser ALGUÉM, ser alguém PENSANTE, isso sim é difícil. Mas não é isso que querem, afinal. Querem só notas altas, violino e um bom apertador de parafusos.

    Bullshit.

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  • 22 de março de 2011 em 18:01
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    Sou professora e estou longe de aceitar esse tipo de educação alienante. Concordo em gênero, número e grau com o comentário da Marta.

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  • 22 de março de 2011 em 22:16
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    As pessoas são diferentes nas suas individualidades e, mesmo em condições iguais, tomam diferentes rumos. Não existem garantias de que uma ou outra forma de educar seja bem sucedida. E também precisamos nos questionar aqui sobre o que é ser bem sucedido? Bem, eu sempre admirei as mães tipo “sargentos” que disciplinam, exigem e mantém seus filhos na linha (por assim dizer). Me parece que são pessoas com mais condições de atravessar as intempéries da vida, pessoas que superam seus limites e não se permitem ficar indolentes, entregues à preguiça e ao marasmo. Eu criei meus filhos de maneira mais livre, assim como eu fui criada, com respeito ao meu e seus ritmos e forma de ser. Noto com isso que faltou desenvolver uma certa “musculatura” de maior perseverança, de administrar frustrações e melhor convivência com rotinas enfadonhas. Se não há muita exigência em casa não significa que do lado de fora será dessa mesma forma, porque a vida nos exige muita disciplina pessoal que precisa ser forjada desde tenra idade. Mais tarde é mais difícil, e isso para tudo: para não protelar, para estudar, para escovar dentes, para arrumar a casa, para organizar suas coisas, para manter um ritmo de exercícios, para alimentar-se de forma correta e sadia, para não desenvolver maus costumes, para fazer o que tem que ser feito antes do que se quer fazer..Claro, sou uma pessoa criativa, que pensa por si e possui um senso critico da realidade e não sei como seria se não tivesse a liberdade de ser eu mesma. Talvez não conseguisse manter essa mesma sensibilidade se fosse podada e formatada para funcionar de determinado jeito e tendo de buscar incessantemente a excelência. Eu não conseguiria criar filhos de forma diferente, pois me agride até a idéia de colocar alguém numa forma e moldar como acho que será melhor. Ser sensível num mundo pronto para abusar não é divertido. Mas nada é garantido, a vida não tem garantias..só que é mais cruel para quem não foi acostumado com rudeza e não tem o grau de resiliência exigido. Acho que vivemos tempos muito selvagens e competitivos e para sobreviver a eles precisa-se sim ter um certo treinamento de guerra.
    Digo isso porque estive na China em 2007 e, realmente, me choquei muito com a forma rude das mães tratarem seus filhos. Eles tão pequenos e frágeis escrevendo aqueles caracteres difíceis e se esforçando e elas gritando com eles que não estava bom ainda. Deu pena, vontade de abraçar aquelas crianças e adotar, mas isso me fez pensar muito, pois o chinês sabe, muito mais que nós, o quanto precisa superar-se para “ser alguém” naquele universo de formigas para não serem pisoteados e triturados na multidão. Seu contexto é muito diferente e sua forma de ser mais rude é também cultural e sua forma de expressar amor não é a nossa.
    Nem muito lá, nem muito cá, há de se almejar um certo equilíbrio. Nossa liberdade ocidental não aponta à receita de sucesso como pessoas que estão se melhorando e ao seu universo. Não podemos fechar os olhos para nossos tão mal educados meninos e meninas sem limites, cheios de vontades e vaidades nos mercados, shoppings e ruas, agredindo professores, xingando, falando palavrões, andando com carros com sons nas alturas mesmo na madrugada e cheios de todos direitos em nome da liberdade.
    Equilíbrio, educação e uma certa dose de rigidez, sem perder a ternura, não dispensando o abraço e a aceitação seria bem-vindo.
    Ah, ainda, os chineses não costumam matar seus pais – a exemplo de muitos livres brasileiros-pelo contrário, eles são responsáveis por cuidar de seus pais na sua velhice e os tratam muito bem, o que deveria nos fazer pensar melhor e pensar…

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  • 24 de março de 2011 em 17:59
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    comentario curto e grosso:

    – não é a china que tem uma das maiores repressões do mundo, restrigindo qualquer coisa que faça pensar?

    – não é a china que obriga a todos a ser levado em cabresto para o bem comum?

    – não é a china que força a todos e se abrirem a boca, serão punidos?

    ah tá… obrigado hein… fico com minha eduação pobre porem reflexiva e com minha liberdade de opiniao…

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