Karen Armstrong força um pouco a barra ao comparar religiões

Texto escrito por Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo.

Autora faz ginástica para defender Deus bíblico da “morte” e prega espiritualidade transcultural em livro.

Deus morreu? Karen Armstrong acha que não. Em seu último livro publicado no Brasil, “Em Defesa de Deus”, faz uma enorme ginástica para defender Deus da morte. Quando dizem que Deus morreu, o fazem para falar da crise de fé no Deus bíblico e da perda de seu valor cultural na modernidade.

A ciência, o secularismo, o pluralismo religioso, todos se juntaram no ritual comum para celebrar sua morte.

Karen Armstrong é daquelas que pensa que Deus (e seus “similares” em outras religiões) continua sendo essencial para a vida.

Mas, para entender “seu Deus”, temos que passear pela filosofia e pela teologia de várias religiões. E é aqui que ela força um pouco a barra.

Qualquer especialista em história das religiões sabe que não podemos comparar crenças, línguas, rituais ou conceitos das diferentes religiões como se significassem as mesmas coisas, como ela diz de um modo um tanto “apologético” em sua obra.

Na realidade, o que ela faz é “pregar” sua versão de espiritualidade universal e transcultural.

Para ela, antes de tudo, devemos entender que o “transcendente” (nome filosófico para a dimensão deste Deus ou similares) não é algo passível de ser encontrado em laboratório, portanto, não é passível de ser “provado pela ciência”.

Aqui, ela é impecável como filósofa. Apenas gente mal informada continua achando que Deus pode ser encontrado em algum laboratório da USP.

DEUS E O MAL

Claro que os ateus cultos sabem disso. Mas a afirmação filosófica contra a existência de Deus se alimenta muito mais da presença do “mal” no mundo: violência, injustiça, crueldade, às vezes em nome do próprio Deus ou seus similares, enfim, o beabá que todo mundo conhece.

Este argumento é conhecido como “a prova contra a existência de Deus a partir do problema do mal”.

Karen Armstrong partilha da fé de que todas as religiões falam da mesma coisa: a vida religiosa é prática e não teórica, portanto, apenas praticando uma religião a transformação moral interior necessária se daria e esta nos levaria ao bem comum, uma espécie de “regra de ouro”.

A autora se vale de gente de peso de várias tradições como Confúcio, Maomé, Buda, Santo Agostinho, Pseudo-Dionísio, São Tomás, vários rabinos, entre outros, para dizer que, ao final, “Deus não tem nome ou tem vários nomes”, não pode ser “conhecido”, mas pode ser “vivido”, e é exatamente esta vivência que seria a “prova” de que Deus não morreu.

Generosidade, desapego e amor ao próximo seriam os frutos desta prática. Ingênua ela, não?

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2 thoughts on “Karen Armstrong força um pouco a barra ao comparar religiões

  • 18 de maio de 2011 em 15:48
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     Karen Armstrong fala do que conhece. Notável pesquisadora das religiões, conhece como poucos, de forma neutra e desapaixonada a realidade do desejo pela transcendência em todas as culturas. O pesquisador sério, o antropólogo informado, o filósofo consciente e o historiador maduro, reconhecem este dado. Mesmo nos povos isolados da civilização, como a chamamos, manifestam algum tipo de culto, de sacerdócio, tem seus símbolos e práticas, que falam do passado e apontam para o futuro com algo além do que podem ver. Onde há religião, há muitas características em comum, só percebidas pelos estudiosos do assunto. Acho que o autor do artigo foi infeliz em apenas manifestar uma opinião pessoal, sem o respaldo da pesquisa sobre o assunto dentre os especialistas nas mais diversas áreas. Karen é reconhecida e respeitada pelos que se dedicam a história e a filosofia das religiões, ou seja, os que entendem do assunto, e não dão “pitacos” sobre o tema. 

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  • 2 de junho de 2011 em 2:38
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    Eu só poderia reafirmar tudo que o Luciano Oliveira disse visto que foi tão preciso em seu comentário. Lamentável que o autor do texto tenha sido tão infeliz no comentário.

    Resposta

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