Todo mundo fala errado

Texto escrito por Paulo Moreira Leite, na Época.

O repórter Antonio Gois revela na Folha de hoje que todo mundo fala errado. A partir do 1500 horas de entrevistas com brasileiros de todas as classes sociais, descobre-se que apenas 5% das pessoas com boa escolarização falam português de acordo com as regras cultas, padrão que cái para 1% entre aqueles com formação deficiente.

Conclusão: no melhor dos casos, 95% dos brasileiros comete erros de fala.

Antes que você comece a maldizer a má formação de nossos professores, queria observar que essa pesquisa ajuda a colocar realismo no debate provocado pela publicação de um livro que defende que as pessoas falem, ainda que empreguem regras gramaticais imperfeitas.

Todo mundo sabe a polêmica criada em torno disso. Queria fazer algumas colocações.

A cultura é um terreno muito fertil para o aprendizado, para o enriquecimento intelectual das pessoas — e também para o preconceito.

Isso porque cultura não é um bem que você pode comprar no shoppping center e exibir por aí, como uma gravata ou uma raquete de tenis, mas envolve sua origem, que é uma coisa que ninguém pode mudar na vida.

Falar corretamente é uma demonstração de cultura e isso é um valor considerado importante em nossa sociedade.

Em geral, pessoas cultas já nascem em famílias cultas e tiveram pais que mantinham uma pequena biblioteca dentro de casa. Nós falamos a lingua que nossa mãe nos ensinou. Se ela não falava de acordo regras cultas, teremos muito mais dificuldade para nos corrigir, mais tarde.

Seu modo de falar não mostra apenas quem você. Mas também de onde você vem.

Todo brasileiro que já saiu do país viveu uma experiencia interessante com a lingua local. A maioria comete erros de concordancia e de pronuncia, embora sejam capazes de dizer aquilo que desejam. Quem já passou por essa situação sabe como é desagradável encontrar interlocutores com o costume de interromper um diálogo para corrigir erros a todo momento.

O que é isso? Pedantismo e demonstração mesquinha de poder. Lembrar que determinada pessoa não tem “cultura” é diminuí-la. O domínio da linguagem tem relação direta com isso.

Tanto que, no passado, quem não sabia ler nem escrever não podia votar.
Quem não pudera ter acesso a educação formal não era encaminhado para a escola mas punido com a perda de direitos políticos elementares.

Alguns erros de português doem nos meus ouvidos. Outros não, porque estou habituado a eles.

É claro que é melhor falar corretamente, até porque um bom domínio da linguagem auxilia na evolução do pensamento e do entendimento do mundo.

Mas milhões de pessoas não aprenderam a lingua no tempo certo. Não aceitar sua fala com falhas é uma forma de censura às vozes que, em geral, vem dos porões da sociedade. As pessoas falam como podem e não devem ser silenciadas. Mesmo porque, vamos combinar: a capacidade de dizer bobagens tem pouca relação com a cultura gramatical, não é mesmo?

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6 thoughts on “Todo mundo fala errado

  • 20 de maio de 2011 em 17:41
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     As experiências do Jornalista não deve ser das melhores.. bom, fazer as coisas por causa dos outros nunca nos leva a lugar nenhum.. eu gostaria muito de ler o livro, valeria muito a pena !

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  • 25 de maio de 2011 em 16:34
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    Perfeita colocação… convivi e convivo com pessoas de origens diversas, inclusive durante muito tempo convivi com estrangeiros e a gente sabe que nível educacional não está diretamente relacionado à inteligência ou capacidade de compreensão. Pelo contrário, algumas pessoas até surpreendem, pelo lado bom ou não…

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  • 25 de maio de 2011 em 16:44
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    Concordo em gênero, em número, em grau e em caso! 
    As pessoas insistem em anular as características da nossa sociedade – ainda mais num país tão heterogêneo – a língua é rica na sua diversidade e assim tem de se mostrar, se não sofresse mudanças, se não fossem essas diferenças ela não teria evoluído sequer do latim para se tornar o que é hoje. Então não existe isso de “se falar Errado”, não existem erros de fala, ou melhor, existem para aqueles que são radicais (e que nem mesmo sabem de tudo da Língua Portuguesa e falam ‘corretamente’ o tempo inteiro) e que são preconceituosos, linguisticamente falando. É óbvio, e importante lembrar ainda que, ao eficaz conhecimento da norma culta foi associado o conceito de Cultura, como comentado acima, o que significa que o indivíduo (contribuinte com a sociedade, paga impostos e sofre com mazelas sociais) é excluído dessa sociedade por uma elite cultural não considerar sua identidade, silenciando-o. Ou seja, a língua é instrumento de poder!
    A questão, insisto, é que a sociedade sofre dessa síndrome de que para tudo e para todos se deve haver um viés correto e um outro errado, quando numa sociedade pós-moderna em que devemos considerar as várias identidades, as dierenças e variações, o principal deva ser a interdisciplinaridade, a consideração de todo tipo de conhecimento e sua adequação às situações coerentes, e não o silenciamento das diferenças, nos mais vários âmbitos da sociedade.
    Basta ler os PCN e ter uma boa noção disso, mas como muita coisa que no Brasil, não sai do papel, é difícil que nós pesquisadores queiramos levar esse conhecimento para sala de aula e pois estamos sempre sendo arrebatados pelos argumentos infundados e preconceituosos de quem não quer aceitar as variedades da sua própria cultura, da sua sociedade, negando a Variação Linguística.
    Por fim, não é que se leve o “errado” para a sala de aula, mas se deve mostrar ao aluno todas as formas e – como dizem os PCN’s – fazê-lo tornar-se capaz de exercer sua cidadania a partir de seu conhecimento, de seu aprendizado e de sua capacidade de utilizar determinados conhecimentos nas cabíveis e coerentes situações da vida atual.

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  • 26 de maio de 2011 em 19:38
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    É aquela história: tem gente que fala bonito, mas ninguém entende nada, e tem gente que fala tudo errado,mas consegue comover uma multidão…

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  • 27 de maio de 2011 em 13:37
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    ok falar de forma inculta, máaaas se educados da forma correta já ocorrem tantas falhas, imagina agora , eu fiquei realmente indignada.

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  • 22 de fevereiro de 2016 em 10:51
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    gemte mim gosta de saber como fasso pra mim conpar o livro?

    axei muinto interezante seu testo mas nao axo que o brasilheiro fale errado

    n goxto de jungar as peçoas

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