Pais à beira de um ataque de nervos

Autores de best-sellers revelam em suas obras impaciência com a paternidade e são considerados o retrato de uma geração

Publicado por Claudia Jordão na Istoé

 

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Na contramão das centenas de publicações sobre pais e filhos que abarrotam as livrarias, “Vai dormir, p*ora”, do americano Adam Mansbach, tem chamado a atenção – e evaporado das prateleiras – ao esbanjar sinceridade, apostar no politicamente incorreto e revelar, sem papas na língua (assim como no título, palavrões salpicam no livro), as dificuldades do autor de exercer a paternidade como uma tarefa simples do cotidiano. No livro, ele escreve versos dirigidos à filha de 2 anos inspirados nas agruras que enfrenta para fazê-la adormecer antes de poder retornar às suas atividades. As rimas, no entanto, surpreendem pela acidez, o que é considerado genial por uns e apelativo por outros. Em um trecho, lê-se: “As águias que planam no céu repousam/ As criaturas que rastejam, engatinham e correm também/ Eu sei que você não está com sede. Isso é besteira. Pare de mentir/ Deite-se, porra/ Durma, minha querida”.

A obra surgiu naturalmente. Quando conseguia fazer a filha dormir, Mansbach postava no Facebook um desabafo sobre seu drama. Os posts eram comentados com entusiasmo por outros pais e deram origem ao livro que se tornou best-seller sete meses antes de ser lançado. Graças a um trecho divulgado pela internet, alcançou o primeiro lugar da lista dos mais vendidos do site Amazon ainda na pré-venda. Desde seu lançamento, em 14 de junho, vendeu 400 mil cópias e foi traduzido para 15 línguas em 30 países (no Brasil, será lançado no fim deste mês). Também deve virar filme pela Fox. “É um livro infantil feito para adultos”, diz Mansbach. Ser pai nem sempre é um mar de rosas, mas as pessoas se negam a admitir porque há muito preciosismo com o tema.”

Assim como outro best-seller sobre criação de filhos que girou o mundo recentemente, “Grito de Guerra da Mãe Tigre”, da americana de origem chinesa Amy Chua, o livro de Mansbach vem sendo apontado por estudiosos como um retrato da geração atual de pais. Amy, uma advogada de sucesso, esmiuçou em sua obra o método chinês de educar e demonstrou irritação e agressividade sempre que se sentia frustrada no papel de mãe. “Os pais querem a felicidade dos filhos, mas não estão seguros sobre quais caminhos seguir na hora de educar nem sobre qual seria o tempo suficiente para se dedicar a eles”, diz a terapeuta americana Lori Gottlieb. “Estão perdidos e impacientes.” A psicóloga Angela Uchoa Branco, da Universidade de Brasília, diz que um grande equívoco praticado pelos pais atuais é a busca desenfreada pela perfeição. “Ela não existe e não garante a felicidade”, diz.

O sucesso de vendas do livro de Mansbach é explicado pela identificação de outros pais com o autor. Enquanto alguns o rejeitam – um grupo de australianos quer impedir sua venda no país –, outros se sentem aliviados ao poder rir de suas dificuldades. “O autor nos faz ver de uma forma crua e cômica os sentimentos presentes nas relações com os nossos filhos”, resume a psicóloga Patrícia Simões, da Universidade Federal de Pernambuco.

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