A época do bom senso já passou

Gustavo Magnani, no Literatortura

Época pisou na bola. E ela estourou. Bem perto do meu ouvido. E eu? Fiquei bem irritado.

Não é ser pseudo-intelectual, pseudo-crítico, pseudo-ôcaralho. É a vergonha que sinto por ver uma das maiores revistas nacionais com uma capa dessas. E vou expor meus argumentos. Não faria vocês perderem tempo apenas lendo um hater.

“traduz o valor da cultura popular para todas as classes” disse Época.

Aqui vai a música:

Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego

Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar

(O resto é repetição.)

1)    Vocês podem ver. É nítido. Não vejo representação de cultura popular nenhuma. Fala-se de uma balada, de um cara idiota que repete “assim você me mata”. Típica cantada canastrona, mas sem graça, porque não está dentro de um filme pastelão.

2)    A cultura popular brasileira é riquíssima. Os grandes mestres detém dificuldade em sintetizá-la em apenas uma música, em um livro, em uma poesia. Expliquem-me como um cantor de sertanejo universitário conseguiria em 10 versos? Lembrando que alguns desses versos são apenas palavras repetidas.

3)    Rimas óbvias; Dançar/falar.

4)    Supor que essa música traduza todos os valores da cultura nacional é ridicularizar o país em que vivemos. Temos defeitos? MUITOS. E isso é óbvio em qualquer lugar. Mas não podemos negar que o Brasil detém uma cultura vasta, imensa, gigantesca. Mal explorada. Concordo. Mal estudada. Concordo. Mal repassada. Concordo. Mal apoiada. Concordo. Mas dizer que uma canção que trata de uma “balada” (palavra que eu acho ridículo e (de novo) canastrona), traduz os valores da cultura popular, é vergonhoso.

5)    A incoerência. Quem lê Época sabe que há matérias culturais excelentes. Leio, semanalmente, essa parte da revista. Por isso, não admito que eles tenham escolhido Michel Teló para ser capa da revista e muito menos; “traduzir os valores…”(enfim, vocês já sabem).

6) Como visualizar a cultura popular brasileira em todos os seus aspectos, desde o samba ao futebol, se estamos em uma balada preocupados apenas em pegar a menina mais linda?

Sinceramente, não sei o que passou na cabeça de vocês editores.

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Lembretes à Época1: Não, Michel Teló não vai me pegar.

Lembretes à Época2: Não somos idiotas.

Lembretes à Época3: Os bons jornalistas devem estar com vergonha da sua revista. Porque eu estou.

Lembretes à Época4: Não tentem se justificar. Do jeito que foi exposto, não há justificativa. Há erro. A única coisa seria pedir desculpas ao Brasil. Mas eu sei que isso não acontecerá.

Lembretes à Época5: Se eu pensasse mais no post, teria ainda mais argumentos. No entanto, prefiro ir de “supetão”.

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13 thoughts on “A época do bom senso já passou

  • 4 de janeiro de 2012 em 12:05
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    a revista época está certa em dizer que isso é a cultura brasileira, vcs idolatram esse sertanejo universitário, compram seus cds, se vestem como eles, não se preocupam com direitos e deveres de cidadão, os políticos corruptos fazem o que querem e dizem que isso é normal no Brasil, talvez o funk carioca represente melhor a cultura do país, vcs jornalistas (infelizmente) não acrescentam nada à cultura do Brasil, apenas reproduzem notícias das agências. Não estou aqui defendendo o sertanejo universitário, apenas argumentando que as mesmas pessoas que o idolatram ficam revoltadas qnd suas imagens são associadas a esse tipo de cultura. [email protected] ou não essa á a sua cultura tmbm.

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    • 4 de janeiro de 2012 em 23:02
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      Me desculpa caro Roberto Rodrigues, mas minha cultura isso não é. Essa é a imagem que criaram dos brasileiros e querendo ou não esta capa da revista época (que é uma das revistas mais conceituadas do Brasil, pelo menos era até essa capa) só reforça essa imagem, ao invés de apresentar algo decente e de concordância com a cultura, sei que há o funk, o futebol, mas o Brasil não é só isso, errado é você em generalizar brasileiro deste jeito, grande maioria da população não gosta deste tipo de música sem valores a agregar a sociedade, vazia de melodia e letra, o que o autor do post quis suscitar foi exatamente isso que você fez, a generalização do brasileiro, isso não é TODA uma cultura apenas uma parte dela.

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  • 4 de janeiro de 2012 em 12:12
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    Lamentável que uma revista do porte de Época se permita uma capa como essa quando há tantas outras revistas que se dedicam a esse tipo de reportagem. Época, por ser uma revista semanal de renome, deveria se atentar a tantos e variados assuntos de mais importância para leitores que não estejam interessados em quem vai pegar quem.

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  • 4 de janeiro de 2012 em 12:17
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    Peçam-me desculpas! sou brasileira, e isso aí não faz parte dos meus valores culturais!

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  • 4 de janeiro de 2012 em 14:59
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    E ainda por cima,, lá em cima tem a entrevista com o Umberto Eco. Tão pequena que quase não se vê.

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  • 5 de janeiro de 2012 em 5:25
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    Essa música é prima da “égua pocotó”.

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  • 5 de janeiro de 2012 em 13:16
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    Prezados,

    Esse “sucesso” do tal artista se deve não ao seu “talento” ou à “genialidade” da música, mas simplesmente do jogador Cristiano Ronaldo, após ser apresentado à “música” e à “coreografia”, comemorar um gol fazendo a tal dança. A partir deste “evento” é que a imprensa internacional, interessado na dancinha do Cristiano Ronaldo, veio a descobrir o tal Michel Teló (que NÃO vai me pegar).

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  • 5 de janeiro de 2012 em 15:25
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    Pois é! Queira ou não, isso é cultura. Mesmo sendo horrível a música, o jornalista revoltado aí erra quando diz : – Não vejo representação de cultura popular nenhuma.” – Afinal, cultura popular não é só o que se tem de bom gosto. Cultura é o nosso costume, tudo o que fazemos, cremos, somos. Quando Época fala em cultura popular refere-se ao costume de ouvir músicas desse tipo. Chama isso de cultura porque isso faz parte da música do Brasil, especialmente do POPULAR, o “povão”.

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  • 6 de janeiro de 2012 em 11:49
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    Quer queiramos ou não, a cultura está sendo construida o tempo o tempo todo, e não pode ser somente a que eu gosto. Não há mais duvida que Teló é um novo icone, quiça mundial, está com a ideia cert no tempo certo. Tudo muda constantemente, e o homem precia do novo, que pode ou não me agradar. O Teló de um modo geral me agrada. No princípio eu não gostava dos Mamonas, que posteriormente amei.

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  • 7 de janeiro de 2012 em 17:44
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    Eu também não gosto desse tipo de música e muito menos com essa capa, mas há anos que a mídia nos vem bombardeando com essas coisa, haja visto aquele “rebolation” e coisas do gênero. Vivemos em um país no qual nos dizemos insatisfeitos com certas coisas, principalmente a política e “nosso” ato de protesto é eleger o Tiririca, sorte dele que as pessoas pensem assim, já é mais um a não fazer nada pelo Brasil, muito menos por nossa cultura. Enquanto a Europa, Ásia, o mundo de uma forma geral, sai as ruas e briga por seus direitos e contra tudo aquilo que não tem a ver com sua cultura nós nos limitamos a fazer críticas na internet, o que não seria ruim se fosse seguido de atitudes concretas, se apoiássemos mais movimentos como aquele contra a corrupção, em Brasília. Já passou da hora de deixarmos “tudo isso acontecendo e nós aqui sentados dando milho aos pombos”.

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  • 9 de janeiro de 2012 em 10:39
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    LASTIMÁVEL.

    (Paulo nunca precisou participar da roda dos escarnecedores para promulgar o Evangelho de Cristo.) Cadê o “Sedes diferenciados”?

    Hoje, realmente, o “santo” e o profano estão cada vez mais indistinguíveis.

    Caiu do meu conceito, em Luo. Ana Paula, decepcionou.

    LAMENTÁVEL.

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