Apesar de tudo, escreva

Publicado por Livros e Afins

Um gentil cavalheiro como aquele – diziam – não necessita de livros. Que deixasse os livros – diziam – para paralíticos e moribundos. Mas o pior estava por chegar. Porque a doença de ler, uma vez tomando conta do organismo, enfraquece-o a ponto de torná-lo fácil presa desse outro flagelo que habita no tinteiro e supura na pena. O desgraçado dedica-se a escrever. Orlando, Virginia Woolf

Ao mesmo tempo que a leitura desperta o desejo de escrever é ela também que nos inibe. Porque lemos os grandes mestres, seus personagens incríveis, histórias mirabolantes ou narrativas sedutoras, e temos a impressão – mais do que impressão, a certeza – de que nunca chegaremos aos seus pés. Eu, particularmente, tenho dificuldade em escrever muito. Então, olho para livros de 400 páginas, 500 páginas, trilogias (!) e aquilo me parece impossível. Nem se eu começasse a escrever assim que acordo e parasse só de noite, conseguiria escrever coisas tão grandes. Vejam que só citei o fato de serem grandes, mais difícil ainda se pensarmos em qualidade.

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E se apelarmos para os contos? Os contos contam com menor número de páginas, é verdade, mas têm um timing muito preciso. Nele o autor tem que saber exatamente aonde chegar e que efeito causar; deve informar pouco pra não se tornar cansativo, mas também não pode economizar a ponto de revelar antecipadamente o que está por vir. Pensa em algo menor ainda? Os textos de blogs e jornalísticos costumam ser menores, mas que concorrência! Tanta gente boa por aí, esbanjando cultura e estilo em qualquer assunto, dos mais banais à política internacional. Sem falar das fotos, dos vídeos e das muitas maneiras que a internet proporciona de tornar uma informação ainda mais rica.

Diante de tudo isso, escrever pode se tornar apavorante logo no primeiro parágrafo, especialmente para quem tem autocrítica demais. Então é preciso colocar a cabeça no lugar e lembrar daquela verdade: uma grande caminhada começa com um pequeno passo. Sem se colocar à prova, o aspirante a escritor nunca saberá do que é capaz. Se produzirá uma obra prima ou apenas mais um texto, quem pode dizer é o tempo, os leitores, o futuro. O que é certo é que pra isso é preciso se propor e terminar. Posso dizer que o melhor livro de Shakespeare é uma tragédia incrível que ele nunca colocou no papel? Não posso. Idéias e vontade de nada valem se não são concretizadas.

Então, escreva. Escreva apesar do medo, apesar de já terem escrito sobre o assunto, apesar das limitações. Mesmo o mundo inteiro dizendo que não, escreva. Escreva simplesmente porque a necessidade existe dentro de você.

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One thought on “Apesar de tudo, escreva

  • 24 de fevereiro de 2013 em 11:40
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    Nossa, muito bom encontrar esse artigo! Eu sinto exatamente assim, e embora não tenha grandes aspirações na vida de escritora, gosto muito de escrever, e ainda que me falte tempo, ainda assim tento escrever um pouco todo dia, nem que seja uma poesia sem rima, uma prosa estendida ou curta demais!

    Pelo menos fico feliz de ler alguém que pensa como eu, não importa que os monstros da literatura estejam aí – eles são inspiração e não amedrontadores – e que os falsos críticos te fiquem jogando para baixo a vontade de colocar no papel ou no Word aquilo que te vem à mente, mas sim escrever, escrever livremente, soltar os pensamentos e quem quiser que os leia, serão todos bem vindos de qualquer forma. Escrever é uma arte, mas não precisa ser especialista se não quiser ganhar dinheiro com isso – e olha que muitos ganham mesmo assim!

    Abraço!

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