A escola não me preparou para o ambiente de trabalho (o recreio me ensinou tanto quanto a sala de aula)

Renato fala sobre sua experiência em sala de aula

1

Renato Steinberg, no Blog do Empreendedor

O meu colega de blog Marcelo Nakagawa (além de um grande amigo e mentor) escreveu, na semana passada, sobre as várias inteligências e que alguns dos maiores empreendedores do mundo não foram grandes alunos. Eu não quero me comparar com eles, mas acho que vale eu contar um pouco da minha história nesse assunto.

Eu nunca fui um excelente aluno. Passava de ano no limite. O meu problema era a preguiça…

Eu detestava estudar, então, eu prestava atenção (mais ou menos) na aula e depois estudava na véspera da prova só para não fazer muito feio. Deu certo. Eu era o cara que ficava no meio da classe. Eu tinha alguns amigos no fundão, mas me dava bem também com o pessoal da frente, aquele pessoal que copiava toda a lição e ia bem nas provas.

Eu sabia como conversar com esses dois públicos. Uma das coisas que fez eu me destacar quando comecei a trabalhar acho que foi exatamente isso. Eu sabia conversar com o pessoal do front-office e também conseguia falar com o pessoal de tecnologia. Durante muitos anos no banco, esse foi o meu diferencial. O pessoal vinha falar comigo sobre problemas que estavam tendo com a equipe de tecnologia porque era eu quem sabia como traduzir isso para eles.

A escola não me preparou para o que vinha no ambiente de trabalho. Eu achava, de forma inocente, que se eu fosse um bom técnico, ia me dar bem. E eu era um excelente técnico. Aí, o pessoal resolveu colocar uma equipe para eu gerenciar. Adivinha se eu tinha algum preparo para isso?

Essa equipe foi crescendo cada vez mais e eu, que já não tinha preparo para gerenciar uma equipe pequena, tive que aprender na marra a gerenciar um time grande. Gerenciar relacionamentos é outra coisa que a escola não me ensinou.

Como você faz quando uma pessoa da sua equipe briga com a outra? E quando você tem que mandar embora um amigo? Quanto você deve se envolver nos problemas pessoais deles? Além dos meus próprios funcionários, eu comecei a perceber a importância de uma outra rede. As pessoas que trabalhavam em parceiros e em concorrentes. Pessoas que estavam passando pelas mesmas situações que eu em outras empresas. Quando eu botei o nariz para fora da empresa e comecei a falar com eles, até com os concorrentes, meu mundo mudou. Eles me deram as dicas, me ensinaram os caminhos para gerenciar uma equipe melhor.

Hoje eu acho que um dos ativos mais preciosos que você tem é a sua rede de relacionamentos. Na época eu me perguntava: por que eu preciso estudar química? Será que algum dia eu vou precisar saber a equação dos gases perfeitos? Até hoje, 20 anos depois, eu nunca usei. Até entendo que química me ensinou um pouco sobre o universo que a gente vive e que entender o mundo na escala atômica é um exercício para entender um mundo abstrato. Mas existem tantas outras coisas que eu uso no dia-a-dia. Finanças pessoais, por exemplo, não seria uma ótima matéria para o ensino? E empreendedorismo então? Que tal liderança?

Quase todos os problemas na escola tem uma e apenas uma solução. Na vida real os problemas são ambíguos, tem muitas soluções ou as vezes não tem nenhuma. Só tem um jeito de se preparar para isso, vivendo!

Acho que a hora do recreio me ensinou tanto quanto a sala de aula.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

3 thoughts on “A escola não me preparou para o ambiente de trabalho (o recreio me ensinou tanto quanto a sala de aula)

  • 14 de março de 2013 em 12:35
    Permalink

    mas sem formação em sala de qualidade não se chega a posição de chefiar ninguém.

    legal bom saber desenvolver boa habilidades de “relacionamento pessoal”, mas “formação técnica” também se faz importante pra bom desempenho. uma não exclui a outra.

    a “verdade” e que sala, recreio, quadras, bibliotecas e outros espaços da biblioteca devem (ou deveriam) desenvolver uma formação humano-técnico.

    mas qualquer estou mais aprofundado sobre a fundação da instituição escolar pode ver que desde sua fundação tem vários erros.

    recomendo ver:
    La Educación Prohibida – Película
    http://www.youtube.com/watch?v=-1Y9OqSJKCc

    Resposta
  • 14 de março de 2013 em 15:49
    Permalink

    Que bom que o recreio ensinou tanto quanto a sala de aula, desde que em ambos você tenha aprendido muito. Se não aprendeu nada em nenhum dos dois, que mal.
    Sem dúvida que desejamos que a escola, em algum momento, prepare para o trabalho. Mas não a única nem mesmo a principal função da sala de aula preparar o futuro profissional em relacionamentos e outras habilidades requeridas pelo ambiente de trabalho.
    Na verdade, a principal função da escola deve ser dar uma carga de conhecimentos que sirva de base para os múltiplos papéis de um cidadão. Linguagem correta, matemática, raciocínio lógico, história, geografia, ciências básicas, música, literatura.
    A preparação para o trabalho deve começar a ser enfatizada nos cursos profissionalizantes, aí entendidos também cursos superiores como os de engenheiro, médico, etc.
    Pessoas com talento natural para empreender tendem a subvalorizar o aprendizado convencional. Isso é um erro. Quando muito, a experiência dessas pessoas aplica-se à pequena quantidade que tem o mesmo perfil.
    É erro semelhante ao de Lula (antes que as reações o ensinassem a evitar a besteira), dando a entender que ele não estudou, não fala direito, tem pouca cultura geral e chegou a presidente.
    A escola precisa, sim, preocupar-se em oferecer estilos de aprendizado atraentes para pessoas diferentes. Mas subvalorizar o ensino básico das escolas é um equívoco.

    Resposta
  • 15 de março de 2013 em 12:13
    Permalink

    O óbvio que poucos enxergam: A escola não prepara empreendedores pois ela está a serviço dos “dominadores”, cujo objetivo é mão-de-obra para suas engrenagens.
    O objetivo ainda hoje se limita a umas poucas profissões tradicionais; como médico, engenheiro, advogado.
    Pelos mesmos motivos, não há incentivo à pesquisa e 90% ou mais dos melhores cargos são restritos à burguesia.
    Querendo ou não, é difícil agir fora do quadrado quando os muros são altos e vigiados.
    Isso não é papo de socialista. É a nossa realidade.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *