Escritor Mia Couto fala sobre seu ofício, Manoel de Barros, entre outros assuntos

Theresa Hilcar, no Correio do Estado

Foto: Divulgação Mia Couto
Foto: Divulgação
Mia Couto

António Emílio Leite Couto, conhecido como Mia Couto, nasceu em Moçambique, no seio de uma família de emigrantes portugueses e de um pai que era poeta “na vida e nas palavras”. Considerado um dos escritores mais importantes da língua portuguesa, vencedor de prêmios como Brasil Telecom e Camões, o autor de livros como “Terra sonâmbula”, “Raiz de orvalho” e “A confissão da leoa”, considera-se um poeta que escreve prosa. Sua vasta obra ficcional é caracterizada pela inovação estilística, que foge ao padrão da língua portuguesa.

Como João Guimarães Rosa, confessadamente sua fonte de inspiração, cria fórmulas vocabulares que marcam a sua escrita, cuja precisão e beleza emocionam e arrebatam milhões de leitores no mundo todo. A literatura, para ele, é uma forma de projeção daquilo que pretende ser. E surpreende ao dizer que seu verdadeiro trabalho é ser biólogo: “Sou um escritor noturno, das horas insones, confessa”. Mia Couto esteve no Brasil recentemente, durante a II Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília, onde conseguimos entrevistá-lo, com exclusividade, no intervalo entre dezenas de compromissos e hordas de jornalistas e leitores à sua espera. A seguir, trechos da entrevista.

CORREIO PERGUNTA É verdade que o nome Mia foi um apelido dado pelo seu irmão menor, na infância, porque
ele não conseguia pronunciar seu nome e pelo fato de você gostar muito de gatos?
MIA COUTO Isto é uma meia verdade. Para você ver a força que tem a internet (esta informação circula em vários sites na rede). Alguém colocou esta coisa como versão. Mas fui eu quem pediu aos meus pais que me chamassem de Mia. Eu tinha uma relação muito presente com gatos, e uma ligação com os bichos em geral. Eu achava que era um Deus. Interessante, pra mim, é que meus pais viram isto como uma coisa séria. Eles respeitaram a vontade de um menino de 2, 3 anos de idade, e aceitaram que eu me nomeasse assim. Foi logo no início da minha consciência de começar a falar, e aquilo foi um assunto muito sério. Meu nome era António – ainda é –, mas fiquei sendo chamado de Mia em casa, na escola. Enfim, agora, sou Mia de fato.

Você ainda gosta de gatos?
Gosto de todos os animais. Sou biólogo por paixão. Tenho uma empresa que faz estudos de impacto ambiental. Também faço pesquisas nos parques e nas reservas, porque, depois da guerra civil, a população animal destes parques foi dramaticamente reduzida. Estamos tentando, aos poucos, povoá-los com grandes mamíferos, elefantes etc. Isto tem que ser feito de maneira científica.

Você já disse que sua literatura tem influência dos brasileiros, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond e, fortemente, de Guimarães Rosa. Você já notou, também, semelhança da sua linguagem com o poeta Manoel de Barros?
Noto, sim. Acho que tem um parentesco muito grande entre o que ele faz e o que o Guimarães faz na prosa. Eu conheci muito tarde a poesia do Manoel, quando eu já tinha publicado boa parte da minha obra. Então, a marca é mais do Guimarães Rosa. Mas ele é um
mestre. Ele não faz só poesia. Tem, ali, um ensinamento, uma filosofia em que eu me revejo muito. Tem uma história sobre meu pai, que era poeta e morreu ano passado, que pode ilustrar isto. Eu era mau estudante, e minha mãe me mandava fazer os deveres de casa na estação de ferro, onde ele trabalhava anos 1960/1961 (na cidade de Beira/Moçambique). Meu pai não era muito disciplinador e gostava que eu acabasse logo os deveres, para eu poder caminhar ao seu lado, ao longo dos trilhos, enquanto ele ficava procurando pedras, pequenos brilhos em meio à poeira. Aquilo me espantava, porque, naquela hora, meu pai se transformava num menino igual a mim. E isto era uma espécie de lição de poesia. Porque eu aprendi a procurar beleza nas cinzas, no meio da poeira. Isto o Manoel de Barros tem. Ele é uma espécie de reconfirmação de poesia, que vem do meu pai. Ano passado, recebi um prêmio Camões, o maior prêmio da língua portuguesa, e eu torcia, rezava para que fosse para ele. Eu não podia recusar o prêmio, mas declarei em público que eu achava que era ele quem merecia. Eu dediquei o prêmio a ele.

Para a maioria dos brasileiros, a produção cultural dos países de língua portuguesa ainda é um pouco distante e até incompreensível. A que você atribui este fato?
Estranhamente, estamos mais distantes agora do que estivemos quando havia ditadura em Portugal, no Brasil e em Moçambique. Nesta altura, conhecíamos muito bem o que se fazia no Brasil em termos de música, literatura. E, agora que vivemos em liberdade, isto mudou.
Acho que tem a ver com essa coisa neoliberal, com o mercado global. As editoras é que se encarregam de fazer esse trabalho. Mas isso tem que ser feito pela vontade política. Temos que ser uma família verdadeira, e não uma família proclamada, e é isto o que nos somos.

Por que sua poesia é pouco conhecida no Brasil, apesar de você tê-las publicado antes mesmo dos seus romances e contos?
Porque minhas poesias nunca foram publicadas no Brasil. Vai acontecer este ano, pela primeira vez. E eu sou, basicamente, um poeta que escreve prosa. A questão é que quem trata disto são os editores, e eles têm um critério comercial: poesia não vende tanto. Não podemos fazer com que o mercado resolva esses assuntos de nível cultural, tem que ser outra coisa.

Normalmente, as pessoas de fora da África generalizam questões referentes ao continente. Com relação específica a Moçambique, qual é a situação?
Moçambique tem uma situação particular em todos os sentidos. Quer dizer, um país que foi capaz de construir, depois de uma guerra, uma estabilidade política, mesmo o desenvolvimento político de uma maneira que eu não gosto muito, melhorando as condições de vida das pessoas na zona rural; ao mesmo tempo, temos questões políticas que não fomos capazes de resolver. Continua havendo uma tensão muito grande e o perigo de que a guerra possa retornar outra vez. Enfim, há várias Áfricas. Cada uma tem uma história em particular. É como, também, falar da América Latina, a gente tem que falar de cada país por si mesmo.

Quem é
Mia Couto nasceu em 1955, na cidade de Beira (Moçambique). Estudou Medicina na Universidade de Lourenço Marques (atual Maputo). É formado em Biologia. Integrou, na sua juventude, o movimento pela independência de Moçambique do colonialismo português. Trabalhou como jornalista. Tem mais de 30 livros publicados no Brasil.

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