O Romantismo na sua melhor forma em O conde de Monte Cristo

Como uma obra pode ir além dos preceitos de seu movimento literário, vencendo o tempo e se tornando aprazível ainda hoje.

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Carolina Prospero, no Homo Literatus

Algumas estéticas literárias são complicadas de se digerir atualmente. O Romantismo, sem dúvida, é uma delas. O leitor do romance desse período é obrigado a lidar com um conceito de amor casto e espiritual muito diferente daquele sexualizado com que a mídia recheia o nosso dia a dia; é obrigado a entender o apego absurdo a conceitos como honra em uma sociedade na qual essa ideia é vagamente lembrada; é obrigado a digerir um nacionalismo com que o brasileiro pouco se identifica. Em suma: trata-se de uma estética com diversos elementos que encontram pouco eco no leitor do século XXI. Se você passou pela escola nas últimas décadas e teve que encarar Iracema, Ubirajara, O Guarani, entre outros, sabe bem a que me refiro.

Porém, a necessidade de ficar sempre nas literaturas de língua portuguesa tira de nós a possibilidade de ler algumas obras muito mais interessantes produzidas dentro dos preceitos românticos. É o caso d’O Conde de Monte Cristo, do francês Alexandre Dumas.

Alguns pontos desse livro merecem destaque. O primeiro deles reside na carismática personagem central, o marinheiro Edmond Dantès. Como bom herói romântico, ele é um jovem de coração puro, querido pela tripulação do navio em que trabalha e em que está prestes a assumir o posto de capitão. Está também apaixonado pela bela catalã Mercedes, moça de alma virginal com quem pretende se casar. Porém, no dia marcado para essas bodas, o jovem se vê vítima de uma violenta traição, causada pela inveja de terceiros. É a partir dela que ocorre a grande virada da personagem. De um moço simples e ingênuo, Dantès torna-se uma pessoa fechada, de uma observação perspicaz, tomada por um sombrio e cruel desejo de vingança. É verdade que os bons sentimentos da personagem continuam em seu interior, o que vai sendo revelado aos poucos por meio de algumas de suas ações ou até por marcadores linguísticos, como a expressão “anjo vingador”, que ele mesmo utiliza para se descrever. Fica claro que estamos lidando com um homem bom que fará coisas questionáveis em nome da justiça. Entretanto, seus sentimentos nessa nova fase fogem do tradicional padrão romântico e acabam lançando uma sombra de dúvida sobre a validade dos seus atos. E é justamente isso o que torna esse indivíduo tão interessante. Ao contrário de muitos heróis do período, Dantès evolui, adapta-se, questiona-se ao longo da história – ou seja, mostra-se muito mais real que a média das personagens românticas que costumamos ver. É um ser menos perfeito e, por isso mesmo, alguém que dá gosto de acompanhar.

1Os que já leram Senhora, de José de Alencar, podem perceber semelhanças entre Dantès e Aurélia. A protagonista de Alencar também é uma moça enganada que trata de buscar a vingança e a moralização daquele que a traiu. Dada a proximidade, não é impossível que o autor brasileiro tenha se inspirado em Dumas para escrevê-la. As datas, ao menos, conferem: O Conde de Monte Cristo foi publicado, no modelo de folhetim, entre os anos de 1844 e 1846 na França, e chega apenas um ano depois aos jornais do Brasil. Já Senhora passa a circular por aqui tempos mais tarde, em 1875. Porém, independentemente da possível inspiração, muitos consideram este o melhor romance de José de Alencar, percepção que pode muito bem estar relacionada a essa maior complexidade e ousadia da protagonista, bem na linha do que Dumas fez com o seu Dantès.

Além do caráter mais instigante da sua personagem central, O conde de Monte Cristo apresenta um trabalho com o romance folhetinesco de dar inveja. São reviravoltas atrás de reviravoltas, ganchos após ganchos, mantendo o leitor entretido e curioso para saber o desenvolvimento das ações. Tudo o que o folhetim clássico tem de melhor. Nesse sentido, Dumas assemelha-se aos nossos mais habilidosos escritores de novelas televisivas. É um João Emanuel Carneiro da ficção francesa. Autor este que, por sinal, teve ser maior êxito na televisão brasileira até agora com uma história de, vejam só… vingança.

Nina (Débora Falabella), em “Avenida Brasil”, novela de João Emanuel Carneiro
Nina (Débora Falabella), em “Avenida Brasil”, novela de João Emanuel Carneiro

Sabe-se, aliás, que Dumas inaugurou um modelo de trabalho semelhante ao que usam os novelistas atuais, com uma série de colaboradores. O conde de Monte Cristo foi produzido dessa forma. Os contratados de Dumas desenvolviam brevemente os argumentos gerais dos capítulos e ele, posteriormente, dava ao que já estava escrito o seu toque, montando os diálogos, lapidando as cenas. Isso ocorreu devido ao enorme sucesso alcançado por suas histórias. O romance em folhetim explodiu na França no período e, para publicar mais rápido e escrever mais livros ao mesmo tempo, o autor adotou tal expediente. Obviamente, essa espécie de “produção industrial” foi bastante criticada por alguns e chegou até a lhe render um processo pelos direitos autorais da obra aqui discutida.

Mas ler O conde de Monte Cristo é deixar as desconfianças advindas desse modelo de lado. As personagens são, no geral, bastante envolventes, assim como os desdobramentos das subtramas, cheios de coincidências e elementos que vão se conectando aos poucos, revelando, aos nossos olhos estupefatos, as etapas cuidadosamente planejadas por Dantès para executar a sua vingança. Dumas consegue, com habilidade, engajar seu leitor. E, de quebra, insere no enredo elementos da vida política francesa da época, trabalhando fatos históricos de forma menos agressiva e mais orgânica do que muitos dos romances brasileiros. Acompanhamos ocorridos sobre Napoleão ou a República de perto, ouvindo as conversas das personagens sobre o tema, vendo como estão relacionadas com um e outro lado por meio de suas ligações familiares ou profissionais. Assim, a entrada dos elementos políticos nunca soa grosseira ou impositiva, mas simplesmente como uma parte da vida do período.

Tudo isso mostra como Dumas aproveita bem os elementos do Romantismo – melhor, talvez, do que escritores do lado de cá do Atlântico. Porém, não sejamos injustos com os nossos, que, como sabemos, tinham o seu projeto de construção de uma literatura nacional. O fato é que o desenvolvimento de temas universais (como o da vingança) tem muito mais apelo e atravessa melhor o tempo. É claro que há pontos em Dumas que ainda soarão anacrônicos ao leitor de hoje, como o romance mais açucarado de um determinado casalzinho ou as razões que levam a um certo suicídio. Porém, em uma análise ampla, O conde de Monte Cristo tem aspectos suficientes para agradar profundamente os nossos leitores modernos. E até, quem sabe, reconciliá-los com a estética romântica.

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