Machado e Alencar em versões ‘facilitadas’

Mànya Millen, em O Globo

Fonte: BLOGHUMOR do NOVAES
Fonte: BLOGHUMOR do NOVAES

Com mais de 200 livros infantojuvenis já publicados, a escritora Patrícia Engel Secco tornou-se o pivô de uma polêmica que envolve justamente a qualidade da leitura no Brasil. Ao anunciar que publicará, em junho, uma versão mais acessível de “O alienista”, de Machado de Assis, substituindo palavras aparentemente incompreensíveis para os leitores de hoje por outras mais contemporâneas, a escritora está sendo acusada de mutilar o texto do mais importante autor brasileiro e de, com isso, empobrecer o nível da leitura num país que ainda lê muito menos do que deveria.

Patrícia, que captou recursos para o projeto usando a lei de incentivo do Ministério da Cultura — além de “O alienista” será publicada também uma versão de “A pata da gazela”, de José de Alencar —, afirma que seu objetivo é exatamente o de levar boa leitura a quem não lê, sendo que o foco não é o público infantojuvenil, mas sim jovens e adultos já alfabetizados que não têm acesso ao livro. Garante, também, que toda a carpintaria literária de Machado, assim como a de Alencar, foi preservada.

— Houve um trabalho bastante elaborado para que Machado continuasse a ser Machado — afirma Patrícia, que não trabalhou diretamente na versão do texto, embora tenha participado das revisões e aprovado o resultado. — Estamos falando em chegar a leitores de uma camada mais simples da população, que não tem acesso ao livro. Falei em facilitar a leitura, não simplificar o texto. A complexidade de Machado está lá, ele é um gênio inigualável, um autor que admiro.

O projeto capitaneado pela escritora — os 300 mil exemplares de cada obra serão distribuídos para diversas instituições pelo Instituto Brasil Leitor, que trabalha na promoção da leitura no país — gerou um intenso debate nas redes sociais. Há quem apoie a iniciativa, entre eles o escritor Ronaldo Bressane. “É preferível que o sujeito comece a ler através de uma adaptação bem-feita de um clássico do que seja obrigado a ler um texto ilegível e incompreensível segundo a linguagem e os parâmetros culturais atuais. Depois que leu a adaptação, ele pode pegar o gosto, entrar no processo de leitura e eventualmente se interessar por ler o Machadão no original”, escreveu ele em sua página no Facebook.

Adaptações de clássicos não são novidade em parte alguma do mundo. Grandes obras da literatura universal recebem traduções em versões menores e mais atraentes, geralmente feitas para o público jovem. Diversas obras de Machado, inclusive, já foram adaptadas para os quadrinhos. A diferença, observam alguns escritores, é que nesses casos há de fato uma mudança de linguagem para se adequar a um outro formato, mas sem prejuízo do texto original. A nova edição, aliás, não seria uma adaptação no sentido clássico.

— Em lugar de substituir as palavras de Machado seria mais adequado situar em nota explicativa a significação e a sinonímia dos termos usados por ele — observa o acadêmico e escritor Domício Proença Filho. — Com as notas o leitor não só entenderia a obra, como é o objetivo da autora, como se familiarizaria com o texto machadiano. Enriqueceria o seu vocabulário e teria a ideia precisa da proposta e do estilo do escritor.

uma obra popular

O escritor Luiz Antonio Aguiar, ele mesmo autor de uma adaptação em quadrinhos para “O alienista”, lembra que essa obra especificamente — publicada em 1882, com aproximadamente 90 páginas — é uma das mais populares do Bruxo do Cosme Velho.

— Talvez por ser uma novela, uma obra pequena, não apresenta grande complexidade — diz Aguiar. — O curioso é que Machado, aliás, era criticado em seu tempo justamente por escrever de forma banal, dentro de um português mais acessível. É uma linguagem elegante, traz sutilezas que enriquecem. Para introduzir um leitor no universo de Machado você poderia usar as crônicas, por exemplo, um texto mais curto.

A premiada Ana Maria Machado, autora de centenas de livros entre títulos para crianças, romances e ensaios, lembra que adaptações são boas — ela já adaptou para crianças, por exemplo, “Sonhos de uma noite de verão”, de Shakespeare —, mas faz ressalvas.

— Sou a favor da adaptação de clássicos universais, como “A Ilha do Tesouro” ou “Os miseráveis”, para um primeiro contato da garotada, para que saibam da existência da obra e conheçam seu enredo em linhas gerais. Mas acho inconcebível passar a limpo um mestre da língua — afirma. — Que se espere um pouco até que o próprio aluno passe a limpo a si próprio, e possa adquirir robustez linguística para chegar perto.

Apesar de as novas edições não serem voltadas para escolas, talvez as versões de Machado e Alencar cheguem a elas, já que o Instituto Brasil Leitor também distribui livros para bibliotecas.

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