Quadrinhos para ignorantes

O que um vinicultor e um quadrinista me ensinaram sobre literatura

Uma das ilustrações de Os ignorantes, de Étienne Davodeau (WMF Martins Fontes, 272 páginas, R$ 49,80, tradução de Monica Stahel)
Uma das ilustrações de Os ignorantes, de Étienne Davodeau (WMF Martins Fontes, 272 páginas, R$ 49,80, tradução de Monica Stahel)

Danilo Venticinque, no site da Época

Quando se fala em histórias em quadrinhos, sou o primeiro a admitir minha ignorância. Li muitos gibis na infância, quando a palavra “gibi” ainda era usada para definir todas as obras do gênero e pouca gente sabia o que era uma graphic novel. Os quadrinhos amadureceram, mas não amadureci ao lado deles. Na adolescência, quando eu não era maduro o bastante para apreciar os quadrinhos adultos e nem ingênuo o bastante para me empolgar com os super-heróis da infância, perdi o hábito de colecionar HQs e comecei a ler livros.

Azar o meu, e não dos quadrinhos. Deixei de acompanhar a obra de artistas brilhantes como Neil Gaiman, Will Eisner e Frank Miller – isso sem falar na infinidade de outros autores, menos famosos, de quem não conheço nem o nome. Os quadrinhos ganharam respeito e popularidade em todo o mundo. Hoje, podem ser encontrados em qualquer livraria. Eles sobreviveram bem sem mim. Eu, na medida do possível, também vivo bem sem eles. Mas vez ou outra deparo com um título que me atiça a curiosidade. A adolescência já passou. Por que não reencontrar a paixão da infância e dar uma chance aos quadrinhos para adultos?

Os ignorantes, de Étienne Davodeau, me convenceu a tentar redescobrir o universo das HQs. A premissa surgiu de um encontro entre o autor e um amigo, o vinicultor Richard Leroy. Davodeau sabia muito pouco sobre vinhos. Leroy não entendia nada de histórias em quadrinhos.  Um se compromete a apresentar sua paixão ao outro. Durante mais de um ano, Davodeau trabalhou nas vinícolas de Leroy e foi conheceu a sua adega. Em troca, Leroy lia HQs indicadas por Davodeau, conversava com editores  e visitava convenções de autores. Os ignorantes é o registro dessa dupla jornada de aprendizado.

A ignorância de Leroy sobre quadrinhos é uma bênção para o leitor leigo. Como é o processo de edição de uma HQ? Por que seus autores têm traços tão diferentes? Quem são os principais autores do gênero e quais foram suas contribuições? Todas essas perguntas são feitas pelo vinicultor ao longo da história e respondidas pacientemente por Davodeau. Ele, em contrapartida, tira suas dúvidas mais básicas sobre a produção do vinho, dos cuidados com o terreno ao engarrafamento. Eu, que sou ignorante nos dois assuntos, aprendi e me diverti com as descobertas de ambos. É uma leitura leve na forma, mas densa no conteúdo.

Ao final de Os ignorantes, Leroy continua sendo um leigo em matéria de quadrinhos, e Davodeau ainda é um bebedor de vinhos amador. O leitor tampouco se torna especialista em qualquer um dos temas. Mas terá sido apresentado a dois maravilhosos universos, tendo como guias pessoas apaixonadas por esses temas. Depois de Os ignorantes, será difícil olhar para uma taça de vinho ou para uma HQ da mesma maneira. De quebra, reencontrei minha paixão pelas histórias em quadrinhos. Uma boa HQ é capaz de cumprir o mesmo papel que um bom livro cumpre: mostrar o tamanho da nossa ignorância. E, com sorte, diminuí-la ao menos um pouco.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *