Alunos em Minas encaram desafio de ir para escola com fome

Crianças dormem nos bancos dos ônibus
Crianças dormem nos bancos dos ônibus

Luiz Ribeiro, no Estado de Minas

“Barriga cheia, pé na areia”. O ditado popular, comum no interior, de certa forma, mostra que antes de encarar uma viagem, a pessoa deve se alimentar bem. Mas, para alunos de escolas no meio rural o ditado é inverso. Muitos deles viajam de barriga vazia e encaram um grande sacrifício para estudar. Acordam ainda na madrugada ou mesmo no meio da noite para sair de casa e enfrentar uma longa e empoeirada viagem até a escola. Crianças vencidas pelo sono, dormindo em bancos duros, tentando resistir aos solavancos do ônibus mal conservado em estradas igualmente em péssimas condições, enfrentando também o frio cortante. Foi esta a situação testemunhada pelo Estado de Minas, ao acompanhar a “via crucis” do caminho da escola em Buritizeiro, Norte de Minas, condição que se repete em outros lugares pelo Brasil afora e que,segundo especialistas, interfere no aprendizado desses “pequenos heróis”.

O fato de os alunos permanecerem um longo tempo dentro dos ônibus – muitas vezes, maior que o intervalo que ficam na sala de aula – faz com que necessitem de uma alimentação mais reforçada na escola. O problema é que os municípios enfrentam dificuldades para fornecer esse reforço alimentar, devido ao baixo valor que recebem do governo federal para a merenda: R$ 0,30 por aluno, por dia, no caso do ensino fundamental, podendo chegar, no máximo a R$ 1, para outras modalidades de ensino. A equipe de reportagem embarcou nessa viagem e viu de perto o drama dos três filhos da doméstica Ana Lúcia Rodrigues dos Santos, de 33 anos, moradora da Fazenda Chaparral, situada numa região isolada de Buritizeiro.

Três horas da manhã. Nesse horário, Ana Lúcia acorda os filhos Flabert Aparecido, de 15; Fagner, de 11; e Victor, de 11. Ainda sonolentos, os meninos levantam, escovam os dentes e se preparam para a viagem em direção à escola na sede de Buritizeiro. Às 3h30, o barulho e uma luz no meio da escuridão anunciam a chegada do ônibus próximo ao local de embarque dos alunos. Com o espírito de mãe, Ana Lúcia conta que sente o coração apertar ao despertar as crianças na madrugada, ainda mais que sabe que eles vão retornar 12 horas depois, mas não tem outra saída. Ela sabe da necessidade da ida até escola, mesmo quando o local de ensino e aprendizagem está tão longe. “Aqui é difícil. Eles vão agora e só chegam às três da tarde em casa. Mas, precisam porque é uma oportunidade de emprego no futuro. Todo dia, (a rotina) é desse jeito”, relata.

Como a própria mãe admitiu, as três crianças, quase sempre, viajam de barriga vazia. “Eles não gostam de comer antes porque enjoam na estrada”, diz a mulher, confirmando que os filhos passam as primeiras horas de estudo em jejum, pois a merenda na escola é fornecida às 9h30. A partir daí, são quatro horas em jejum, pois somente vão almoçar às 15 horas, quando retornam para casa.

De fato, como a própria reportagem constatou ao viajar dentro do ônibus, os solavancos do veículo provocam o desconforto no estômago para quem deita nos bancos. Mas, Ana Lúcia acaba revelando que não é somente o risco de enjôo no ônibus que impede o fornecimento de alguma alimentação para os filhos antes da viagem. “Procuro dar alguma coisa para eles comerem. Mas, às vezes, se não tiver outra coisa, tem que ser somente café puro”, conta, revelando que passa por dificuldades. A doméstica diz que seu atual companheiro, Paulo Rodrigues dos Santos ganha R$ 700 como vaqueiro e que para complementar a renda familiar com R$ 200, ela mantém a sede da fazenda limpa e cozinha, de quando em vez, para o proprietário.

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O percurso entre a Fazenda Chaparral e Buritizeiro é de 64 quilômetros (57 de terra e sete de asfalto). Mas, pelo caminho, o ônibus entra em fazendas e outras comunidades para apanhar mais estudantes, completando 35 alunos transportados pelo veículo. Com isso, a distância percorrida é ampliada para cerca de 90 quilômetros. Além das más condições da estrada, pelo caminho são atravessados quatro córregos, sem a existência de pontes, com a passagem dentro do próprio leito, sendo que dois deles estão secos. Tudo isso atrasa a viagem, que demora três horas ou mais, com a chegada à frente da escola ocorrendo entre 6h30min e 6h45min, perto do começo da aula, que é às 7h.

O sacrifício é realmente alto. Logo que entram no ônibus, mesmo com tanto desconforto, os garotos e garotas tentam se acomodar nos bancos desconfortáveis e continuar a noite de sono. O que mais incomoda são os solavancos. No dia em que a equipe do EM se juntou aos estudantes para acompanhar esta viagem, por volta das 4 horas, no meio da escuridão, ônibus parou na Fazenda Cachoeira, para o embarque da menina Carolina, de 13 anos, aluna do sexto ano. Carolina caminhou por cerca de 200 metros até o “ponto”, levada pela mãe dela, a lavradora Rosilene Pereira dos Santos, que segurava uma lanterna. “Quero que minha filha seja alguém na vida. Quero que ela
tenha o que eu não tive”, diz Rosilene, acrescentando que sempre oferece algum alimento para a filha antes da viagem. “Sempre faço um lanchinho, um pão e leite com chocolate.”

A viagem segue

De tempo em tempo, é interrompida, com entradas em fazendas para apanhar outros alunos. De repente, o ônibus para. É que apareceu uma cancela no meio do caminho. Um dos alunos desce para abri-la e, assim, o ônibus prosseguir. Por volta das 5h45min , são embarcados os dois últimos estudantes, quando faltam cerca de cinco quilômetros de terra para alcançar o trecho de sete quilômetros pavimentados, na BR-365, para então, chegarem até área urbana. Finalmente, às 6h45, o ônibus encosta na porta da escola.

Pão com carne

Na última quinta-feira, quando a reportagem acompanhou a viagem dos alunos da Fazenda Chaparral, a merenda fornecida na Escola Estadual Elisa Teixeira de Carvalho, onde eles estão matriculados em Buritizeiro, foi pão com carne e suco. “O dinheiro que vem para merenda é muito pouco. A gente sempre procura comprar o mais barato, mas usamos da criatividade para ter um cardápio variado e uma merenda de melhor qualidade, garantiu uma integrante da direção do educandário, Siney Lopes Leite.

Segundo ela, no cardápio, ao longo da semana, entre outros pratos, também são servidos: arroz com carne, baião de três, canjica, arroz à grega”, mingau de fubá com biscoito. Ela reconheceu que as viagens cansativas acarretam transtornos para os alunos da zona rural e prejudicam o desempenho deles na sala de aula. “Existem alunos que chegam aqui muito cansados, como sono e com fome. Às vezes, temos que providenciar algum lanche para eles antes do fornecimento da merenda”, disse.

A analista educacional Marcélia de Paula, que, nos últimos anos, trabalhou na mesma escola, acompanhando alunos e professores, confirma que a rotina exaustiva das viagens compromete o aprendizado e o desenvolvimento cognitivo das crianças. “Com os alunos levantando as três horas para chegar à escola as seis e meia e indo se alimentar só as nove e meia, há um desiquilíbrio no metabolismo e tudo isso somado com a noite mal dormida interfere muito no desempenho deles na sala de aula”, observa a analista, cuja opinião é compartilhada com professores do educandário.

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