Lya Luft: “Tenho esse olhar de ver o mágico em tudo”

Novo livro da escritora já figura entre os mais vendidos
Novo livro da escritora já figura entre os mais vendidos

Verena Paranhos, no Portal A Tarde

Aos 75 anos, Lya Luft encontrou uma maneira de contar para si mesma a história da passagem do tempo. Em seu novo livro, O Tempo é um Rio que Corre, que já figura nas listas de mais vendidos do País, a escritora gaúcha apresenta textos curtos e poemas em que fala diretamente ao leitor e resgata histórias e momentos de diversas fases de sua vida. Revirando a memória, Lya passeia pela infância, adolescência e maturidade, fases que “têm momentos encantadores e coisas um pouco mais chatas”. A autora considera o lançamento como o “irmão mais moço” de outros três livros: Rio do Meio, de 1996, Perdas e Ganhos, de 2003, e Múltipla Escolha, de 2010, por abordar o que chama de seus mesmos temas de sempre. Nesta entrevista, concedida por telefone, de Porto Alegre, onde mora, ela fala sobre o novo livro, questões relacionadas ao tempo e ao processo de escrita, além de envelhecimento e morte.

A senhora começou escrevendo poemas, depois contos, romances, ensaios e crônicas. Foi a maturidade de vida ou a literária que lhe trouxe ao formato de O Tempo é um Rio que Corre?
Foi todo um caminho natural, nunca projetei ‘agora vou fazer romance, poesia’ ou esse tipo que eu chamo ensaio não literário. Se me dá prazer, vou e faço. Esse livro é o irmão mais moço de outros anteriores. São os meus mesmos temas de sempre, o drama existencial humano, a passagem do tempo, o amor, a solidão, a morte, o encontro, a fatalidade, enfim, todo o trabalho da existência humana. Só que, desta vez, sem personagens, sem uma trama, um romance. Gosto muito de falar direto ao leitor.

A epígrafe do livro traz: “Nada é banal (a gente é que esquece)”. Que memórias foram reviradas no processo de escrita, que a senhora tinha esquecido inconscientemente ou feito questão de esquecer?
Não houve isso conscientemente. São as histórias da minha infância, que em geral são meio engraçadas, as experiências da adolescência. São memórias com as quais eu convivo sem nostalgia. Fazem parte da minha história, qualquer pessoa tem a sua história. Você é o teu presente, é o teu passado e dentro de tudo isso também está contido o teu futuro.

Se a senhora pudesse voltar a uma fase da vida, qual seria?
Cada uma dessas fases tem momentos encantadores e coisas um pouco mais chatas. Na infância todo mundo manda em você. Na adolescência, você tem que tomar um monte de decisões para as quais ainda não tem maturidade. Na maturidade precisa cumprir uma série de preceitos e deveres. O começo da velhice está sendo um período muito tranquilo. Quando você já teve filhos, fez vestibular, mostrou serviço na profissão, então tem essa água mais mansa, período de mais serenidade, de poder fazer coisas com mais tempo.

A ideia da morte chega a ser um incômodo nessa fase de vida?
Ninguém gosta de morrer. Eu, por mim, não morreria, mas é inevitável. Na velhice você tem que lidar com coisas negativas como ver que as pessoas estão morrendo e que realmente o tempo vai ficando mais curto. Mas eu não fico pensando muito na questão da morte. Acho que, de certa forma, a morte está sempre nos espreitando e isso torna a vida interessante. A morte faz parte de tudo. O que dói e que a gente não quer é a separação. Eu não quero me separar de ninguém, não quero que ninguém vá embora, mas como é uma coisa inevitável, acho que também o amadurecimento e o envelhecimento devem ser uma forma de lidar melhor com isso. Por isso digo que cada um inventa a sua vida e de certa forma inventa sua morte.

Um dos sentimentos que o livro deixa é de que a vida é sobretudo efêmera. Como a senhora procura lidar com esta questão no seu cotidiano?
Talvez escrever esse livro tenha sido uma maneira de verbalizar. Sempre dizem, a base da terapia é a palavra. Se você diz o nome do fantasma, ele empalidece. Foi uma maneira de contar para mim mesma essa história da passagem do tempo. Acho que eu lido bem, com muita naturalidade. Me considero uma pessoa sem grande ambição. Vejo as mulheres tão aflitas com a passagem do tempo. Mulheres de 15, de 30, de 40 anos já se atormentando, porque acham que estão envelhecendo, que têm a primeira ruga, que o cabelo está ficando branco. Acho que a gente deve se cuidar, mas esse desespero, esse endeusamento da juventude me dá muita pena, porque no fundo você não consegue curtir seu momento presente

Em algum momento sentiu necessidade de fazer análise?
Fiz alguns anos terapia quando fiquei viúva a primeira vez, aos 49 anos. Era casada com o psicanalista Hélio Pellegrino. Ele morreu de repente e foi um período muito difícil. Voltei para Porto Alegre, onde moro agora. Depois, me casei de novo com o pai de meus filhos e, em seguida, ele teve um acidente vascular cerebral e ficou três anos completamente inválido. De novo foi muito difícil, eu fiz terapia, que me ajudou muito para ter qualidade de vida.

De alguma forma isso está presente na sua escrita?
Não como terapia profissional, mas acho que sim na medida em que meus personagens falam por mim. Eu não tive a vida dos meus personagens, nem aquelas famílias neuróticas, desgraças todas, mas, de certa forma, meus personagens são um pouco vozes minhas, vozes das coisas que observo no mundo, em mim, nos outros.

A infância é uma época que tem bastante peso no novo livro. Como os momentos vividos ainda em um universo meio mágico, onde tudo é possível, podem ser significativos e dar lições para toda a vida?
A minha infância foi muito cheia de magia, tenho esse olhar de ver o mágico em todas as coisas. Até hoje tenho muito isso ainda. Morava numa casa grande, numa cidade pequena, tinha um jardim enorme, que eu povoava de fadas, duendes. Acho que muitos artistas, de qualquer ramo das artes, que têm esse gênero mais intimista como o meu, são pessoas que conservaram um pouco o olhar mágico da infância. Isso é uma característica minha e tenho a impressão que toda a minha obra de certa forma se enraíza nessa visão mágica da infância. Os meus livros têm alguma coisa de misteriosa, portas fechadas, sótãos, porões, vozes, vultos, que de certa forma marcam a literatura mágica.

Nos últimos dez anos a senhora lançou um livro por ano, muitos dos quais figuraram nas listas de mais vendidos por muito tempo. A que atribui esse sucesso editorial?
Um pouco sorte, um livro certo na hora certa, coisas que o leitor gostaria de escutar, uma carreira já longa. Sinceramente não sei, porque é uma coisa imponderável. Acho completamente aleatório, não existe uma explicação porque um livro vende mais, um livro vende menos. Tenho tido muita sorte. Tenho também leitores fiéis. Sai um livro e sei que sempre tem muita gente esperando.

É um ritmo pesado publicar um livro por ano?
Meus livros são breves, são livros pequenos. Eu hoje em dia não trabalho muito, mas já trabalhei. Traduzia ferozmente horas e horas por dia, mas nos últimos anos eu realmente trabalho muito pouco, só quando me dá prazer. Eu só escrevo livro quando ele quer ser escrito. Em geral eu trabalho de manhã. À tarde, fico “preguiçando”, também pinto. Estou numa fase muito tranquila da vida, mas escrever nunca foi pesado para mim. Sempre foi, apesar de ser minha profissão, um prazer, um divertimento, uma coisa muito lúdica. No fundo, eu escrevo primeiro para mim mesma, depois para o leitor. Quando eu era criança, tinha muito amigo imaginário. A essa altura da vida, acho que o leitor é um amigo imaginário. Eu converso com ele, sei o que o leitor sente.

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