Leitura a jato

Marcelo Coelho, na Folha de S.Paulo

Ainda faço parte dos que leem jornal impresso e livros de verdade. Reconheço a utilidade dos iPads e kindles; acho bom, mas não uso.

No fundo, é o mesmo livro e a mesma leitura. No máximo, tem a página iluminada e o tamanho das letras ajustável.

A experiência talvez se altere muito no futuro, se der certo uma tecnologia que fiquei conhecendo na internet. Chama-se “Spritz”, e há uma demonstração em português no site da companhia.

Eles prometem acelerar loucamente a velocidade de sua leitura. Funciona do seguinte modo.

No papel ou no Kindle, a página fica parada: nossos olhos é que percorrem cada linha. Seguem, é claro, a velocidade de nossos músculos, de nossa concentração, de nosso tédio.

Com o Spritz, perdemos esse controle, ou essa vagareza. Nossos olhos não se movem. As palavras é que aparecem, uma a uma, como flashes. Uma/palavra/de/cada/vez. Só que com uma velocidade alucinante.

Segundo os inventores da tecnologia, 80% do tempo de nossa leitura se perde em paradinhas minúsculas do globo ocular quando percorre uma linha escrita. Com o olho imóvel, é possível ler livros a jato. As palavras surgem e somem sem que precisemos fazer nada.

Achei muito tentador, mas é possível prever alguns problemas. Uma coisa é ver um texto curto correndo desembestado em sua direção, numa escada rolante maluca fornecendo alimento para o cérebro.

Outra é ler um livro inteiro desse jeito; provavelmente o excesso de velocidade traz o preço de um cansaço em tempo recorde. Penso também nos efeitos sobre a memorização.

Será que, quanto mais rápido o aprendizado, também mais rápido será o esquecimento? Sinto isso quando assisto ao noticiário da televisão. Basta o locutor dizer “boa noite”, que me sinto incapaz de citar mais de dois ou três dos fatos relatados. Tudo passou diante de mim; nada se gravou.

Imagino que o Spritz irá transferir para a leitura o que acontece na TV. Favorece a passividade do olhar; seremos lidos pelo texto. Pode até ser conveniente, em todo caso, e não exclui outros tipos de leitura.

Vai no sentido oposto, por exemplo, da interação da palavra com a imagem, a foto, a ilustração —outra tendência de que os nostálgicos do “texto puro” reclamam bastante.

Em vez de se dar no espaço de uma página, o texto surge como enunciação abstrata num lapso curtíssimo de tempo. Deixa de ser “coisa” para ser visto como “evento”.

E, como as palavras ganham independência, desaparecem as linhas. Não é o pior; meu medo é que, com isso, deixemos também de ler as entrelinhas.

Ninguém está dizendo, em todo caso, que será interessante ler Proust ou Thomas Mann na tecnologia do Spritz. O objetivo há de ser o relatório, o artigo, a notícia, desde que você não precise anotar nada nem fixar no cérebro os dados principais.

É o caso da grande quantidade de coisas que temos de ler apenas “para saber do que se trata”. Com um aplicativo qualquer, tenho acesso ao texto de dezenas de jornais e revistas do mundo inteiro.

Foi num desses, aliás, que tomei conhecimento do tal Spritz. É a solução para a angústia diante de tanta coisa interessante para ser lida.

“Lida”? Vale substituir por um termo da moda: “Explorada”.

Associa-se a outra palavra com que topamos o tempo todo: “Experiência”. “Explore a experiência da Fast Fly Air Lines.” Fica melhor em inglês: “The McNought Experience”, “the Keystone Experiment”, “explore the new Dandruff Project”.

“Exploramos”, desse modo, novas “experiências”, dentro de algum “projeto”. Até na música clássica a moda pegou. Antes, um maestro gravava a integral das sinfonias de Beethoven. Agora, ele lança os “volumes” de seu “Beethoven Project”.

Percebe-se facilmente que está em jogo, na verdade, o oposto do que essas palavras sempre significaram. Um “projeto” não é uma agenda, um cronograma, mas algo que se pretende fazer sem saber se vai dar certo ou não.

“Explorar” um território era atividade que pressupunha algum tipo de risco; não se confunde com uma visita guiada, um “sightseeing”, um “test drive” (que nunca testou coisa nenhuma, aliás).

“Experiência” exige algum tipo de esforço, de troca pessoal, de perda e ganho subjetivo. Na sua versão contemporânea, “experience” é algo como “vivência”, ou menos ainda; trata-se de sentir passivamente o que nos é proposto.

Desse tipo de experiência, não somos os sujeitos, mas sim as cobaias. Vamos sobrevivendo, com os pelos eriçados e as patinhas correndo sem parar.

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