Agora é a vez do “shelfie” conquistar internautas

Daniela Fenti, no Diário Web

Maísa Nabuco, proprietária de um café cultural em Rio Preto, usa as redes sociais para divulgar acervo - Hamilton Pavam
Maísa Nabuco, proprietária de um café cultural em Rio Preto, usa as redes sociais para divulgar acervo – Hamilton Pavam

Tirar fotos de comida, de si mesmo, de lugares paradisíacos e até do casal após o sexo já foi moda nas redes sociais. Agora, a nova onda é retratar como você organiza seus livros, CDs, DVDs, Blu-rays, jogos, entre outros objetos. O “shelfie” vem do termo “shelf”, em inglês, que significa “prateleira”. O neologismo com o sufixo “ie” remete ao popular “selfie”, palavra que se tornou verbete dos dicionários Oxford e Merriam-Webster, recentemente. Quase 50 mil pessoas de todo o mundo já publicaram imagens no Instagram com a nova hashtag.

Para alguns, é uma forma menos invasiva de se expor, já que o foco está em mostrar detalhes da casa ou do escritório em vez do próprio rosto. Para outros, é uma forma de ir mais a fundo nos assuntos privados, revelando valores pessoais e, por que não, cultura e erudição. Valem tanto registros mais aproximados quanto mais distantes a fim de valorizar a estante. A maioria mostra uma grande quantidade de livros.

Por enquanto, não há muitos adeptos brasileiros. Mas, ainda que timidamente, é possível encontrar rio-pretenses na lista. É o caso de João Paulo Vani, 34 anos, coordenador editorial da HN Editora & Publieditorial. Ele explica que seu objetivo é seduzir os amigos pela leitura. “Sempre tento vender a ideia de que a literatura é uma coisa positiva. Foi a forma que encontrei para mostrar que não só falo sobre livros, mas também os consumo.” Na semana passada, ele republicou uma foto de sua estante no Facebook, com a legenda “Shelfie antiga. Só agora está na moda”. A imagem original havia sido divulgada no Instagram há mais de um ano, quando ainda não se falava no atual fenômeno.

Vani tem cerca de 1,1 mil livros – quase todos já lidos por ele – e um punhado de itens colecionados em suas viagens, como bonecos e canecas. Ele até pensou em fazer um registro novo do local, já que a disposição dos títulos mudou e novas aquisições surgiram. Mas, devido a seu projeto de doutorado, o ambiente está “uma bagunça”, nas palavras dele. “Não seria ‘shelfie’, mas ‘apocalipse zombie’”, brinca, em alusão ao cenário hipotético da literatura apocalíptica. Quem também está na “moda” é a empresária Maísa Râmia Nabuco, 29 anos, sócia-proprietária do Cafezine. Uma semana atrás, ela postou foto de uma de suas prateleiras de livros na página da empresa no Facebook. Como legenda, um trecho do poema “Presságio”, de Fernando Pessoa, com o convite “Alguém gosta?”.

Aliás, esta é uma das marcas registradas do café nas mídias sociais. Em geral, as fotos revelam as prateleiras ou livros específicos, com citações de autores conhecidos. Maísa explica que o hábito surgiu há cerca de dois anos, quando abriu o negócio em Rio Preto, e não sabia que existia um nome para isso. “Eu sempre fiz, acho divertido e visualmente bonito. Além disso, pode servir de estímulo para que as pessoas tenham mais livros em suas casas”, acredita ela. A empresária tem mais de 3 mil títulos, que podem ser consultados e, em alguns casos, comprados ou trocados.

João Paulo Vani faz “shelfie”: objetivo é incentivar a leitura - Guilherme Baffi
João Paulo Vani faz “shelfie”: objetivo é incentivar a leitura – Guilherme Baffi

Será o fim do ‘selfie’?

Talvez o maior modismo da internet dos últimos tempos tenha sido o “selfie”, termo usado para identificar mais de 117 milhões de fotos nas redes sociais de 2012 para cá, ocupando a 20ª posição do Top 100 Tags, do Websta. A ideia é fazer um autorretrato, por meio de smartphone ou webcam, para divulgar nas redes sociais. Na prática, um dos registros mais populares é o da apresentadora Ellen DeGeneres com outros famosos na cerimônia do Oscar, há pouco mais de dois meses.
A empolgação com esse tipo de clique, no entanto, pode estar com os dias contados.

O Webby Awards, prêmio norte-americano que já foi considerado uma espécie de “Oscar da Internet”, proclamou a “morte do selfie” na cerimônia de sua 18ª edição, na última segunda-feira, em Nova York, nos Estados Unidos. Segundo os organizadores, o formato passou por um “ápice fascinante” e sofreu “uma derrocada trágica”.

Sensibilidade virtual

Cada novo modismo na internet reforça a tendência atual da superexposição. De acordo com Kátia Ricardi de Abreu, psicóloga clínica e organizacional, especialista em análise transacional, as pessoas costumam expor aquilo que sentem orgulho em mostrar e a gratificação sempre vem, em forma de curtidas e comentários dos amigos e seguidores. “Até aí, penso que não há nada de mais, pois carinho é algo que todo ser humano necessita. Este é apenas mais um dos caminhos para consegui-lo. Porém, a potência é sempre inferior ao contato pessoal. Saber dosar essa exposição é muito importante”, opina.

Quando o assunto é o “shelfie”, propriamente, a profissional acredita que seja uma nova forma de atenuar a solidão. Isso porque as pessoas poderiam mostrar suas prateleiras e objetos pessoais a quem os visitasse “in loco”, mas como as visitas reais são raras, as oportunidades surgem por meio de recursos digitais. “Cada um usa o mundo virtual para suprir as necessidades que possui. O objetivo é o encontro, a comunicação ulterior: ‘Vejam o que eu tenho, o que eu sou, o que eu faço’.”

Para Valdemar Setzer, professor do departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME/USP), que realiza palestras sobre história e aspectos filosóficos da computação, o brasileiro tem muita “sensibilidade social”, mas precisa tomar cuidado com os recursos tecnológicos. “A internet, para ser bem usada, exige quatro fatores: conhecimento, discernimento, autoconsciência e autocontrole. Além disso, para não provocar problemas psicológicos em terceiros, exige muita honestidade e veracidade”, diz.

Pesquisa divulgada no ano passado aponta o Instagram como a rede social que mais causa depressão nos usuários. Isso porque as comparações entre os perfis faz com que as pessoas sintam inveja e tentem competir umas com as outras.


Neste estudo, Hanna Krasnova, pesquisadora da Universidade Homboldt, de Berlim, na Alemanha, aponta que uma foto apresenta indícios mais explícitos de felicidade do que uma simples atualização de status.

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