Nos EUA, estudantes exigem alerta sobre conteúdo de livros clássicos

Jennifer Medina, na Folha de S.Paulo [via New York Times]

imagem.dllAlunos que terão de ler “O Grand Gatsby” deveriam ser alertados sobre “diversas cenas que relatam atos sangrentos, abusivos e misóginos”, como propôs recentemente um aluno da Universidade Rutgers? E livros que envolvem racismo, como “As Aventuras de Huckleberry Finn” e “Things Fall Apart” –será que eles devem vir precedidos por uma nota cautelar? As imagens sexuais da mitologia grega deveriam conter um rótulo de alerta?

As universidades dos Estados Unidos vêm enfrentando pedidos de estudantes por “alertas de risco”, advertências explícitas de que material que estão por ler ou ver em sala de aula pode perturbá-los ou, como alegam alguns estudantes, despertar sintomas de síndrome de estresse pós-traumático em vítimas de estupro ou veteranos de guerra.

Os alertas, que têm origem ideológica no pensamento feminista, ganharam mais terreno na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, onde o conselho discente solicitou formalmente que sejam adotados. Mas houve solicitações semelhantes por alunos do Oberlin College, Universidade Rutgers, Universidade de Michigan, Universidade George Washington e outras instituições.

O debate irritou muitos acadêmicos, que dizem que é preciso confiar no senso comum dos professores, e que utilizar material provocante é parte de sua missão letiva. Os alertas de risco, eles dizem, sugerem uma certa fragilidade mental que o ensino superior deve desafiar, e não proteger. Os alertas foram amplamente debatidos nos círculos intelectuais e em geral foram alvo de críticas, em revistas de opinião, editoriais de jornais e listas de discussão acadêmicas.

Huckleberry_Finn“Qualquer forma de norma abrangente quanto a alertas de risco é uma agressão à liberdade acadêmica”, disse Lisa Hajjiar, professora de sociologia na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, que muitas vezes utiliza descrições explícitas de tortura em seus cursos sobre a guerra. “Qualquer estudante pode solicitar isenções individuais, mas dizer que precisamos de uma abordagem unificada para todos os alunos é completamente errado. A suposição de que os alunos não devem ser forçados a lidar com algo que lhes cause desconforto, nesses casos, é absurda ou até mesmo perigosa.”

Bailey Loverin, aluna de segundo ano na universidade de Santa Barbara, disse que a ideia de alertas de risco para uso geral no campus lhe ocorreu em fevereiro, quando um professor mostrou um filme explícito sobre um estupro. Ela diz ter sido vítima de abuso sexual e que, ainda que não se tenha sentido ameaçada pelo filme, procurou o professor para argumentar que os alunos deveriam ter sido avisados sobre o conteúdo do filme, antes da exibição.

Loverin traça uma distinção entre alertar alunos quanto a material que possa de fato despertar memórias de trauma –como guerra e tortura, já que muitos dos alunos de Santa Barbara são veteranos de guerra– e utilizar alertas de risco para rotular obras literárias famosas, algo que outros proponentes dos alertas de risco defendem.

“Não estamos falando de alguém desviando o olhar de algo que não deseja ver”, disse Loverin em entrevista recente. “As pessoas subitamente sentem uma ameaça real à sua segurança –ainda que isso seja apenas uma percepção. Elas estão presas em uma sala de aula da qual não podem sair, ou se tentarem sair a situação rapidamente se tornará pública.”

As críticas mais ferrenhas se dirigem aos alertas de risco para materiais que têm lugar estabelecido nos currículos de muitas universidades do país. Entre as sugestões de livros que deveriam receber alertas de risco estão “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare (contém antissemitismo) e “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf (fala de suicídio).

“Francamente isso parece parte de um movimento inevitável na direção de as pessoas esperaram cada vez mais conforto físico e conforto intelectual em suas vidas”, diz Greg Lukianoff, presidente da Fundação pelos Direitos Individuais na Educação, uma organização sem fins lucrativos que defende a liberdade de expressão. “Isso só vai dificultar que as pessoas compreendam que aquilo que as ofende pode ter valor sério e importante. E falar de assuntos mortalmente sérios e desconfortáveis é parte disso.”

O termo “alerta de risco” se originou na Internet. Blogs e listas de discussão feministas o empregam há mais de uma década para sinalizar aos leitores, especialmente às vítimas de abusos sexuais, que eles talvez prefiram evitar certos artigos ou imagens online.

Nos campi universitários, os defensores desse tipo de medida dizem que terminologia semelhante deve ser usada para descrever os currículos dos cursos ou as aulas. A questão veio à tona no Wellesley College este ano quando a faculdade instalou uma estátua de um homem com roupas de baixo e centenas de estudantes assinaram uma petição pela sua remoção. Escrevendo no Huffington Post, uma aluna do Wellesley definiu a escultura como “peça com potencial de deflagrar perturbação”, e as signatárias mencionaram “preocupações de que ela tenha despertado memórias de agressões sexuais entre algumas alunas”.

Na Universidade de Santa Barbara, em março aconteceu um confronto entre um grupo de manifestantes antiaborto que exibiam imagens explícitas de fetos abortados e uma professora de estudos da mulher, grávida, que tentou destruir os cartazes, alegando que eles lhe causavam uma sensação de medo. Depois que ela foi detida por vandalismo, agressão e roubo, mais de mil alunos assinaram uma petição de apoio à professora, afirmando que a universidade deveria impor mais restrições a conteúdo que possa deflagrar perturbações. (Até o momento, o conselho docente ainda não tratou das questões que a petição propõe, e o conselho discente não propôs quaisquer mudanças de normas.)

No Oberlin College, em Ohio, circulou um anteprojeto de guia que solicitaria aos professores a inclusão de alertas de risco nos currículos de seus cursos. O guia dispunha que eles deveriam identificar qualquer coisa capaz de “perturbar o aprendizado de um estudante” e “causar trauma”, incluindo qualquer coisa que sugerisse a inferioridade de pessoas transgênero (uma forma de discriminação conhecida como “cissexism”) ou dos cadeirantes (“ableism”).

“Esteja consciente do racismo, classismo, sexismo, heterossexismo, ‘cissexism’, ‘ableism’ e outras questões de privilégio e opressão”, o guia propõe. “Perceba que todas as formas de violência são traumáticas, e que seus alunos têm vidas anteriores e exteriores à sua sala de aula, experiências que você pode não esperar ou compreender”. O guia afirma, por exemplo, que embora “O Mundo se Despedaça”, um romance de Chinua Achebe que se passa na Nigéria da era colonial, seja “um triunfo da literatura que todas as pessoas do mundo deveriam ler”, o texto pode “causar sensações negativas em leitores que tenham sofrido racismo, colonialismo, perseguição religiosa, violência, suicídio e mais”.

Depois que diversos professores se queixaram, o anteprojeto foi removido do site da universidade, para passar por revisão mais completa por um grupo de trabalho formado por professores e alunos. Professores e administradores da faculdade devem se reunir com alunos no final do ano para preparar um guia mais abrangente.

Meredith Raimondo, diretora associada da escola de artes e ciências do Oberlin College, disse que o guia tinha por objetivo oferecer sugestões, não impor normas aos professores. Raimondo é professora de estudos americanos comparativos e co-presidente do grupo de trabalho que revisará o guia, e disse que alertar os alunos quanto a riscos seria simplesmente “uma prática pedagógica responsável”.

“Eu objeto bastante ao argumento de que a garotada atual precisa deixar de ser frouxa”, ela diz. “Isso ignora a realidade que temos de enfrentar. Temos estudantes que chegam a nós com questões sérias, e precisamos lidar com elas de maneira respeitosa e séria”.

Para Marc Blecher, professor de política e estudos do leste asiático em Oberlin e crítico severo dos alertas de risco, essa política terá efeito adverso sobre os docentes, especialmente aqueles que não são professores titulares e não têm garantia vitalícia de emprego.

“Se eu fosse um professor jovem e lesse esse guia ao preparar o currículo de um curso, ficaria aterrorizado”, disse Blecher. “Qualquer aluno que sinta que algo que aconteceu na classe lhe causou uma sensação adversa poderia apresentar queixa junto a diversos órgãos universitários, e isso criaria um processo muito tortuoso para todos”.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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