Crianças com câncer no Distrito Federal usam a literatura para enfrentar o tratamento

João Vitor, Alexandra e Kayck usaram a literatura para aliviar os efeitos do tratamento contra o câncer
João Vitor, Alexandra e Kayck usaram a literatura para aliviar os efeitos do tratamento contra o câncer

Elas reescreveram a história da Chapeuzinho Vermelho e querem continuar escrevendo

Publicado no R7

Depois de recontarem a história da Chapeuzinho Vermelho usando a criatividade e a imaginação, como elas mesmas definem, três das quatro crianças envolvidas no projeto “Pequenos Escritores”, da Abrace (Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias), e que ainda estão em tratamento no Distrito Federal, têm expectativas e planos para o futuro.

João Vitor Neves de Souza, de dez anos, gostou tanto da experiência que quer escrever a própria história de luta contra o câncer. Ele é otimista e diz que vai não só contar como desenhar as ilustrações de seu livro antes de completar 11 anos.

— O título eu ainda não decidi, mas sei que vou começar com “era uma vez um menino sonhador”.

Natural de Santana, na Bahia, João Vitor cursava o 3º ano do ensino fundamental quando foi diagnosticado com um linfoma. Veio para Brasília, onde está há dois anos, com a mãe. Fez um transplante de medula e ainda continua em tratamento. Nas horas vagas, João Vitor gosta de brincar no parquinho da casa de apoio da Abrace e de assistir a desenhos animados e novelas. Sobre o futuro, João Vitor responde rápido: quer fazer faculdade para se tornar médico-cirurgião.

— Eu vejo tanto médico [ao longo do tratamento] que aí decidi ser médico.

Assim como para a família de João Vitor, o diagnóstico de câncer foi um choque para Daiani Reis, mãe de Kayck Reis dos Santos, de oito anos, também um dos autores do livro Chapeuzinho Vermelho da Abrace. De Boa Vista, em Roraima, Kayck e a mãe estão em Brasília há sete meses. Ela conta que, em setembro de 2013, o filho começou a sentir febre, dores nas pernas, desmaio e a perder muito peso. A princípio, foi diagnosticado com anemia falciforme, mas depois de exames mais detalhados veio a notícia: Kayck Santos estava com leucemia.

— Perdi o chão [quando recebi a notícia] porque ele era uma criança saudável, bem ativa, boa alimentação, praticava esporte. Em julho de 2013, fiz exames e ele estava tudo normal e em setembro descobrimos [o câncer].

Daiani e Kayck vieram para a capital. Desde outubro o filho faz quimioterapia e já está na fase de manutenção. Se tudo caminhar bem da forma como está, afirma a mãe, eles poderão voltar para Boa Vista e depois virão para Brasília esporadicamente para a continuação do tratamento. Quando tem tempo, Kayck Santos gosta de assistir a desenhos animados. Entre os preferidos, está o Pica-Pau. Assim como João Vitor, quer ser médico-cirurgião.

— O sonho dele sempre foi ser jogador de futebol, mas acho que, com a convivência com tantos médicos, isso mudou, afirma a mãe.

Ainda segundo Daiani, o problema de saúde de Kayck mudou a percepção de toda família sobre a vida.

— Com tudo que aconteceu, a gente dá mais valor à família porque vem a distância, a saudade. Você tem medo de perder seu filho porque já houve perdas de outras crianças aqui. É um baque. Então, o que eu penso é dar o melhor para ele [Kayck] e tê-lo mais perto da gente, aproveitar cada segundo.

Tímida e dócil, Alexandra King Henry, de sete anos, diz com orgulho ser ela quem desenhou a Chapeuzinho Vermelho e também ajudou a contar a versão da história. Ela e a mãe, que são de Roraima, estão em Brasília há oito meses para o tratamento de leucemia de Alexandra. Ela cursava o 1º ano do ensino fundamental quando veio para a capital federal. Alexandra gosta de estudar e, quando crescer, quer “ser médica de tirar sangue” e também delegada “para mandar”. Nas horas vagas, na casa de apoio da Abrace, Alexandra gosta de andar de bicicleta e passear pelo local.

De todas as crianças envolvidas no livro, apenas Sidney Gustavo de Andrade não continua em Brasília.

Crianças escreverão sobre a Copa  

A iniciativa do livro da Chapeuzinho Vermelho surgiu “por acaso” em meio às atividades das crianças com voluntários no quadro “Pequenos Escritores”, que faz parte do projeto geral “Aqui Você Aprende”, da Abrace. Segundo a coordenadora do Núcleo de Atenção e Assistência, Cláudia Leite, o resultado ficou tão bonito que a instituição resolveu publicar a obra, em seu site, no dia 1º de maio, quando o Abrace completou 28 anos.

— Elas [crianças em tratamento] ficam longe da família e essa é uma forma de motivá-las a criar a própria história aqui. É um trabalho de grupo para elas estarem ajudando uma a outra.

De acordo com a psicóloga da Abrace, Daina Teixeira Guiga, a casa tem outros projetos para o “Pequenos Escritores”, que existe desde fevereiro. A expectativa, segundo a psicóloga, é de que até o dia 12 de junho, data do início da Copa do Mundo no Brasil, a casa publique outro livro das crianças sobre a percepção de cada uma sobre o campeonato mundial.

— A ideia [do “Pequenos Escritores”] surgiu de uma preocupação que tenho com o desempenho deles porque são crianças que estão muito tempo fora de casa e ficam aqui muito tempo, o dia inteiro. A gente tem que promover atividades que desenvolvam [essas crianças] e que não sejam interrompidas por causa da doença.

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