Você já tirou uma shelfie hoje?

shelfie

Danilo Venticinque na Época

Se você tem o hábito de desperdiçar tempo nas redes sociais (quem não tem?), já deve ter deparado com alguma “shelfie”. Parente da famigerada selfie, a moda consiste em tirar uma foto de sua estante, publicá-la no Instagram ou similares e esperar pelos inevitáveis elogios ao seu bom gosto.

Só no Instagram, mais de 40 mil fotos do tipo são publicadas por semana. Designers de interiores e hipsters de plantão aderiram em peso à brincadeira. Mas arrisco dizer que a maior parte das shelfies vem de leitores. Mesmo antes da moda, as fotografias de estantes já era comum em grupos de fãs de literatura no Facebook. A hashtag só espalhou ainda mais esse hábito.

A minha primeira reação a essa moda foi uma enorme sensação de preguiça – daquelas que chegam a causar dormência nas pontas dos dedos. Talvez por isso eu só tenha decidido escrever sobre o tema agora, meses depois de ver a palavra pela primeira vez. O que leva alguém a acreditar que outras pessoas se interessariam em ver uma foto de sua estante. Olhando agora, para o caos instaurado na minha, não tenho dúvidas de que nenhum amigo do Facebook merece ser exposto a toda essa bagunça. Mas mesmo se tudo estivesse organizado, não veria motivo para aderir à moda. O que essa ostentação tem a ver com literatura? A ânsia por parecermos leitores, em vez de apenas lermos em silêncio, me faz pensar nos milhares de advogados e psicólogos que vão a sebos e compram livros por metro, sem se preocuparem com o conteúdo. O importante é sair bem na foto.

A exposição continuada a shelfies de todos os tipos foi mudando, aos poucos, minha opinião. Se ostentamos tudo na internet – o que comemos, as festas que frequentamos e os amores que temos ou fingimos ter –, por que não fazer o mesmo com nossas leituras? Além do mais, ao contrário das insuportáveis selfies em praias ou pontos turísticos, as shelfies ao menos dizem algo sobre o fotógrafo. É possível saber muito sobre uma pessoa vendo os livros que ela tem – ou não tem – na estante. A não ser, é claro, que ela seja do tipo que entra num sebo e sai de lá com dois ou três “metros” de livros.

Bem controlada, essa vaidade intelectual pode ajudar a divulgar a leitura. Se postássemos sobre livros tanto quanto postamos sobre nossas idas a bares e restaurantes, talvez todos sentíssemos um incentivo para ler mais. Falo por mim: tenho certeza de que comecei a comer fora com mais frequência depois que adicionei um ou dois amigos que vivem publicando fotos de comida. Talvez fotos de belas estantes de livros tenham o mesmo efeito sobre não-leitores. O importante é que a ostentação fique sempre em segundo plano. Se sua estante está saindo impecável em todas as fotos, talvez seja a hora de revirá-la um pouco. Releia seus favoritos. Empreste um livro para um amigo. Tire um romance da prateleira só para se lembrar de uma frase ou de uma cena que tenha marcado sua leitura. É isso que torna uma estante de livros um objeto mágico, em vez de um simples artigo de decoração.

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