Top 10: livros e filmes fundamentais da Argentina

Foto: Natália Gomes / Zero Hora
Foto: Natália Gomes / Zero Hora

País vizinho é a nação desta semana na série Copa Cultural

 

Publicado no Zero Hora

Vizinho com enorme tradição literária e cinéfila, a Argentina tem uma produção vigorosa na qual o difícil é escolher apenas 10 grandes obras, tanto no cinema quanto na literatura. Selecionamos algumas referências, que podem servir de porta de entrada para essa ampla produção.

> 10 livros:

O Aleph, de Jorge Luis Borges (1949)
Coletânea de 17 narrativas curtas que ssão a súmula perfeita da literatura do mestre do século 20: histórias que se servem de diferentes fontes da tradição, flertam com gêneros bastardos e engendram complexas estruturas nas quais ensaio, narrativa e comentário se conjugam. Estão no livro algumas das joias absolutas do conto, como O Imortal, Emma Zunz, A História do Guerreiro e da Cativa, O Zahir, A Casa de Asterion e a própria história que dá título ao livro.

O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar (1963)
Mais do que uma revolução do romance, é a sua implosão. Um livro que se organiza em 155 capítulos e oferece mais de uma oportunidade de leitura, uma delas linear, outra em episódios intercalados com uma ordem pré-sugerida, e outra ainda como um romance que se lê direto até o capítulo 56, ignorando-se os demais. Em todas elas, o protagonista Horácio Oliveira, um intelectual argentino, perambula por Paris em busca de um sentido para seus dias e de sua amante uruguaia, a Maga.

Os Sete Loucos, de Roberto Arlt (1929)
Obra-prima de um dos menos “palatáveis” dos mestres na narrativa argentina, é um delírio alegórico sobre a instabilidade política da identidade argentina, em particular, e latino-americana, em geral. O protagonista, o melancólico Remo Erdosain, une-se a uma sociedade secreta que pretende instituir uma revolução no país – revolta essa financiada com o lucro de uma rede de bordéis mantida por um lacônico e misterioso personagem, o Rufião.

A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares (1940)
Parceiro literário de Borges a vida inteira, Bioy Casares partilhava com ele o gosto pelo fantástico – ambos organizaram uma antologia clássica do gênero – que ele transborda neste romance no qual, como clássicos do estilo, o centro é uma ilha misteriosa. O ponto de partida é o relato de um fugitivo, que, refugiado em uma ilha, observa, perturbado, a chegada de forasteiros, entre eles uma bela mulher e um erudito cientista, que parecem ignorá-lo mesmo quando ele tenta fazer contato.

Os Suicidas, de Antonio di Benedetto (1956)
Com um estilo ao mesmo tempo lacônico, forte e elíptico, Di Benedetto, autor infelizmente menos conhecido no Brasil, escreveu pequenos e precisos tratados sobre obsessão, desespero e frustração. Um deles é este, no qual um jornalista de uma agência de notícias recebe a incumbência de realizar uma reportagem sobre um grupo de suicidas e vai, ele próprio, enredando-se na mistériosa atração da aniquilação pessoal.

Sobre Heróis e Tumbas, de Ernesto Sábato (1961)
Um dos grandes romances sobre a formação da Argentina. Sábato entrelaça, por meio de uma estrutura na qual se cruzam três fios narrativos, suas inquietações sobre política, filosofia, literatura e história. Intercalam-se na narrativa a ciumenta paixão do tímido Martín pela torturada e exuberante Alejandra; o conflito feroz entre Juan Lavalle e o ditador Juan Manuel de Rosas e a busca de um investigador que tenta desbaratar uma poderosa sociedade secreta chamada A Seita dos Cegos.

Museu do Romance da Eterna, de Macedónio Fernández (1967)
Se O Jogo da Amarelinha explodia o romance, esta obra, uma das mais experimentais desta lista, leva o formato para um ponto sem volta no qual ele já não pode mais ser reconhecido. Atravessado por um estilo ágil e pleno de ironia, este livro póstumo no qual Fernández trabalhou por praticamente toda a sua vida se estende, ao ponto do humorístico e do exasperante, por cinco dezenas de prólogos que atrasam e desviam o início do que seria a trama propriamente dita.

O Gaúcho Martín Fierro, de José Hernández (1872)
Poema narrativo escrito em um vibrante estilo que emula a linguagem oral – e o tornou uma peça ideal para entusiasmadas declamações –, esta obra inaugurou e estabeleceu parâmetros para a representação literária da figura do gaúcho. Hernández pinta Martín Fierro – e através dele todos os habitantes do pampa – como figuras de um voluntarismo independente tentando lidar com as funestas consequências das guerras e dos desmandos dos poderosos.

Operação Massacre, de Rodolfo Walsh (1957)
Livro com o qual Walsh experimentou o cruzamento entre literatura e jornalismo muito antes da eclosão do New Journalism norte-americano. Escrito no calor da hora, durante os anos iniciais da revolução que derrubou o presidente Juan Domingo Perón, o livro reconstitui a prisão e o fuzilamento, em 1956, de 12 homens presos sem culpa ou acusação formada que foram mortos em um lixão na região metropolitana de Buenos, acusados de participarem de uma tentativa peronista de contragolpe.

Respiração Artificial, de Ricardo Piglia (1980)
Em um romance no qual se mesclam vários registros, do epistolar ao erudito, Piglia escava as relações entre o passado e o presente da Argentina por meio de uma investigação empreendida pelo escritor e acadêmico Emilio Renzi, seu alter ego, pela biografia de um remoto personagem da era Rosas.

10 filmes:

La Casa del Angel, de Leopoldo Torre Nilsson (1956)
O cinema argentino teve fases prolíficas antes do cinema novo, com filmes populares, como os de Gardel, e adaptações literárias, além de títulos do pioneiro Leopoldo Torres Ríos, de quem Torre Nilsson é filho. Torre Nilsson é um dos primeiros autores argentinos a chegar a outros países, notadamente a partir da exibição, no Festival de Cannes, deste filme sobre as descobertas de uma adolescente filha de um casal religioso.

Los Inundados, de Fernando Birri (1961)
Premiado no Festival de Veneza, este primeiro longa do mais mítico dos mestres do cinema do país vizinho é um dos principais títulos do chamado cinema novo argentino. Leva adiante a investigação promovida por Birri da dura vida de famílias pobres da província de Santa Fé iniciada com seu curta anterior, o ainda mais estudado e cultuado documentário de 33 minutos de duração Tire Dié (1960).

Crônica de um Menino Só, de Leonardo Favio (1964)
Um dos principais diretores cinemanovistas, Favio assinou diversos títulos importantes, além de se dedicar à música e à atuação política. Este aqui é sobre um menino que foge de um orfanato e volta à favela onde vivia, na periferia de Buenos Aires – pelos olhos da criança, o cineasta constrói um pungente retrato do imenso cinturão de miséria que começava a rodear a cidade à época.

A Hora dos Fornos, de Octavio Getino e Fernando Solanas (1968)
Monumental documentário de 260 minutos que repassa a história política do país do peronismo até a ditadura militar que assolou o país naqueles anos 1960. Teve a exibição proibida e se tornou ele próprio um ícone da história de repressão que assolou a Argentina e os países vizinhos ao longo do século 20.

A História Oficial, de Luis Puenzo (1985)
Hoje Luis Puenzo também é conhecido por ser o pai da cineasta Lucía Puenzo (de XXY e Wakolda), mas nos anos 1980 fez um sucesso estrondoso, ganhando inclusive o Oscar de melhor filme estrangeiro, com este longa sobre uma professora da classe média (Norma Aleandro) que descobre que a criança que adotou pode ser filha de presos políticos da ditadura militar.

Homem Olhando o Sudeste, de Eliseo Subiela (1986)
Em plena forma, Subiela dirigiu em 2012 o belíssimo Paisagens Devoradas, longa dedicado ao mestre Fernando Birri. Homem Mirando o Sudeste, que como o título mais recente se passa em parte em um hospício, é provavelmente seu longa mais conhecido. Narra a jornada de um sujeito que afirma ter vindo de outro planeta estudar a estupidez humana – e aos poucos faz as pessoas à sua volta, inclusive os médicos, a refletirem sobre o assunto.

Tangos Exílio de Gardel, de Fernando Solanas (1986)
Talvez não seja o melhor, mas é o mais visto longa do diretor de A Viagem (1992) e A Nuvem (1998), hoje senador da República. Trata-se de um musical sobre a vida de um grupo de argentinos tratando de sobreviver em seu exílio em Paris durante a ditadura militar.

O Pântano, de Lucrecia Martel (2001)
Marcelo Piñeyro apareceu antes com Plata Quemada (2000), e Daniel Burman idem, com Esperando o Messias (2000), assim como Fabián Bielinsky (com Nove Rainhas, no mesmo ano). Mas é este filmaço de estreia da mais inventiva diretora de sua geração a principal referência da chamada “nueva onda” argentina, que passou a refletir com profundidade sobre o país a partir da grande crise da virada do milênio e colocou a Argentina no mapa das melhores cinematografias contemporâneas.

Família Rodante, de Pablo Trapero (2004)
O principal mérito deste ótimo road movie assinado por Trapero (o diretor de El Bonaerense, Abutres, Leonera e Elefante Branco) foi levar a reflexão sobre o país de Buenos Aires para o interior, muito mais pobre e carente de assistência social do governo.

O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella (2009)
A vitória no Oscar ajudou a impulsionar a carreira deste melodrama estrelado por Ricardo Darín e Soledad Villamil, tornando-o o mais bem-sucedido longa de Campanella, que antes já havia emocionado plateias pelo mundo com O Filho da Noiva (2001).

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