42 palavras quase impossíveis de traduzir para outra língua

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Duda Delmas Campos, no Literatortura

“A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: – é o idioma criado ou herdado pelo povo. Um povo só começa a perder a sua independência, a sua existência autônoma, quando começa a perder o amor do idioma natal. A morte de uma nação começa pelo apodrecimento da língua.”

(Olavo Bilac)

A linda e impactante frase acima, do poeta Olavo Bilac, nos serve muito bem de mote para essa matéria, afinal, falar sobre palavras “intraduzíveis” é falar sobre as idiossincrasias e nuances de um povo; é falar sobre traços socioculturais que estão além da capacidade homogeneizante da globalização e, sobretudo, é falar de vocábulos muito poéticos (ou muito, muito engraçados).

Antes de iniciarmos a lista, no entanto, é interessante acrescentar que essas diferenças linguísticas e lexicais, além de refletirem realidades culturais muito distintas, também estabelecem com seus falantes uma fantástica relação de causalidade. Isso porque a língua que usamos para nos comunicar afeta a maneira como pensamos e, consequentemente, como agimos, o que já foi demonstrado por pesquisadores como o Professor Keith Chen (cuja palestra vale muito a pena ver no TED Talks). Resumindo, ao mesmo tempo em que criamos e moldamos a língua que falamos, ela também nos molda, em uma extraordinária simbiose que nunca poderemos perfeitamente mensurar.

Dito isso, então, o que estamos esperando? Que comecem as bizarrices!

1) Kummerspeck – Alemão: é o peso que se adquire por comer devido a problemas emocionais. Segundo o site Mental Floss, é tão simplesmente “sofrimento de bacon”.

2) Pochemuchka – Russo: é aquela pessoa que faz muitas perguntas, mas vai além do simples curioso que temos por aqui.

3) Gattara – Italiano: é aquela mulher, geralmente idosa e solitária, que se devota a cuidar de gatos de rua. Pois é, já nos deparamos com ela tantas vezes por aí, e nuca tivemos a consideração de perguntar seu nome.

4) Jayus – Indonésio: sabe aquela piada ruim, mas tão ruim, que você não consegue evitar rir? Voilà, ela tem nome, então da próxima vez que for você a contá-la, já pode explicar para todos os que te encherem que na Indonésia você seria compreendido.

5) Pana Poo – Havaiano: é o ato de coçar a cabeça num esforço para tentar lembrar-se de algo

6) Litost – Tcheco: essa é trágica – é aquele sentimento de imaginar o estado de sua miséria no futuro e ficar agoniado com as possibilidades.

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7) Waldeinsamkeit – Alemão: eu não sei com que frequência alemães passam por isso, mas é a sensação de estar sozinho na floresta.

8) Pelinti – Buli, Gana: é literalmente mover coisas muito quentes na boca. Ou seja, mordemos algo que esteja pelando e instintivamente abrimos a boca e mexemos a cabeça enquanto balbuciamos alguma coisa ininteligível, algo como um “aaaargh” de boca cheia.

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9) Gigil – Filipino: sabe quando uma coisa é tão irresistivelmente fofa que precisamos apertá-la e beliscá-la? Então, gigil.

10)Yuputka – Ulwa: a sensação fantasmagórica de que algo está rastejando na sua pele. Deve dar arrepios.

11)Zeg – Georgiano: o dia depois de amanhã. Simplesmente isso: zeg. Devíamos incorporar essa, porque parece muito útil.

12)Packesel – Alemão: é a pessoa que, em uma viagem, acaba carregando tudo. Podem começar a apontar: todo grupo tem o seu.

13)Luftmensch – Ídiche: são aqueles sonhadores sem qualquer senso de praticidade e negócio.

14)Hygge – Dinamarquês: não muito comum no Brasil, é aquela sensação de prazer e intimidade sentida quando se está ao redor do fogo, de uma lareira, com os amigos, embora possa receber a conotação de algo caloroso e amigável.

15)Boketto – Japonês: é o ato de olhar fixamente para o nada sem qualquer pensamento na cabeça, ou seja, aquele exato instante, em que estamos absortos no nada, sem ouvir as sete vezes que tentaram sem sucesso nos chamar.

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16)Culaccino – Italiano: é a marquinha do copo na mesa depois que o colocamos úmido sobre ela.

17)Plimpplamppletteren – Holandês: essa, além de gigantesca e aparentemente impronunciável, significa a capacidade de jogar uma pedra em uma superfície líquida e fazer com que ela ricocheteie o maior número de vezes possível.

18)Ya’arburnee – Árabe: do literal “você me enterrará”, significa a esperança de morrer antes da pessoa amada para que não precise viver sem ela. Dramático.

19)Umjayanipxitütuwa – Aimará, Bolívia e Peru: essa é muito boa. É a desculpa do “a culpa não é minha”, ou seja, “eles me fizeram beber”, “eles não me contaram”. Ai, ai, esses eles…

20)Kertek – Malaio: som produzido quando pisamos em folhas e galhos secos.

21)Dui niu tanqin – Chinês: falar sobre algo que o interlocutor não entenda ou para o público errado. O sensacional aqui é o sentido literal da expressão: “Tocar alaúde para uma vaca”.

22)Gumusservi – Turco: a luz do luar brilhando nas águas. Muito poético, mas nem tanto quanto a próxima.

23)Komorebi – Japonês: é aquela luz do sol que passa por entre as folhagens e cria sombras, padrões, jogos de luminosidade…

24) Razbliuto – Russo: sentimento de afeição, ao mesmo tempo dolorido e carinhoso, que nutrimos por uma pessoa que já não amamos.

25)Nedovtipa – Tcheco: pessoa incapaz de compreender uma indireta. Muito atual, muito atual. Tão atual que parece ter alcançado dimensões inimagináveis com o surto das hashtags.

26)Bakkushan – Japonês: jovem que aparenta ser bonita quando vista de trás, mas de frente… Basicamente, “de longe, são todas boas”.

27)Backpfeifengesicht – Alemão: é aquela cara, provavelmente conhecida por todos, de alguém que está pedindo para levar um soco.

28)Tartle – Escocês: aquele momento constrangedor em que você vai apresentar alguém e esquece o nome da pessoa.

29)Shlimaze – Ídiche: uma pessoa natural e cronicamente azarada.

30)Sobremesa – Espanhol: diferente de sua falsa cognata em português, a palavra refere-se àquele momento de conversa e descontração que passamos na mesa após a refeição.

31)Dépaysement – Francês: com todas as polêmicas que a França enfrenta quanto ao trato de seus imigrantes, a existência dessa palavra faz bastante sentido; é aquele sentimento de deslocamento, de não pertencimento a um país ou cultura.

32)Tsundoku – Japonês: muito conhecido dos apaixonados pela palavra escrita, é o ato de comprar livros e não os ler, juntando pilhas e pilhas de obras não lidas.

33)Tokka – Finlandês: essa não é muito útil aqui nos trópicos, mas é bastante simpática – refere-se a um rebanho de renas.

34)Schadenfreude – Alemão: é nosso “pimenta nos olhos dos outros é refresco”, ou seja, sentir prazer no sofrimento dos outros.

35)Istoriesmearkoudes – Grego: literalmente “histórias com ursos”, mas usada para referir-se à narração eventos tão loucos que não podem possivelmente ser verdadeiros. Basicamente, historinhas pra boi dormir.

36)Wabi-Sabi – Japonês: bem fatalista, é a aceitação do ciclo natural de decaimento e morte. Passa uma certa tensão pensar nas coisas desse jeito.

37)Iktsuarpok – Inuíte: é a frustração de esperar e esperar alguém aparecer, e ficar checando a todo momento o aguardado aparecimento. Se a palavra vem dos tempos remotos deste povo, realmente, essa espera devia ser meio deprê em meio à vastidão gelada do Ártico canadense.

38)Tingo – Pascuense: essa é fantástica. É o ato de roubar da casa de seus amigos todos os objetos que deseja ao gradualmente pegá-los emprestados. Talvez em não tão larga escala, muitos de nós já devem ter passado por isso.

39)Mamihlapinatapei – Yaga (Língua da Terra do Fogo): antes de mais nada, fico imaginando como deve ser a pronúncia disso. Talvez até por essa dificuldade é que seu significado seja tão difícil de ser praticado (e compreendido) nos atribulados dias atuais: é aquele olhar sem palavras, mas cheio de significação, compartilhado por duas pessoas que, embora queiram iniciar algo juntas, estão relutantes em começá-la.

40)Faamiti – Samoano: é aquele som chiado que emitimos passando o ar pelos lábios a fim de chamar a atenção de um cachorro. Ou uma criança, quando confundimos os dois.

41)Toska – Russo: para o autor de Lolita, Vladimir Nabokov, nenhuma outra palavra possui as riquezas e tons desta. Segundo ele “Em seu auge de profundidade e sofrimento, é a sensação de grande angústia espiritual, muitas vezes sem causa específica. A níveis menos mórbidos, é uma aborrecida dor da alma, um desejo sem nada a desejar, uma inquietação vaga, espasmos mentais, saudades. Em alguns casos, pode ser o desejo por alguém ou algo específico, uma nostalgia, saudade. Em seus nível mais baixo, tende ao enfado, ao tédio.”. Haja fôlego para entender e usar algo tão complexo.

42)Clixby: Só para aproveitar a deixa do número 42, significado da vida, do universo e tudo mais, uma palavra inventada por Douglas Adams e que apenas existe na língua de sua vasta imaginação – Significa algo “educadamente rude. Vivamente vago. Firmemente desinformativo”. (Confira mais AQUI !)

** Bônus! As palavras em português que figuram entre listas como esta, mas estrangeiras, são a corriqueira “saudade” e a brasileiríssima “cafuné”. Essa última é descrita como “o ato de passar os dedos carinhosamente pelos cabelos de alguém”. Interessante pensar que seja preciso explicar algo que conhecemos desde a infância, não?

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