A Culpa É das Estrelas atualiza Love Story para o século 21

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Ailton Monteiro, no Pipoca Moderna

Histórias de amor que trazem a morte iminente como obstáculo fazem a felicidade de Hollywood desde que “Love Story” (1970) cativou os avôs do público de “A Culpa É das Estrelas”. Há quem considere assistir a esses filmes quase uma tortura, no sentido de que não aguentam de tanto chorar. Os mais cínicos disfarçam as lágrimas, culpando a manipulação descarada. Mas os românticos embarcam de cabeça e rendem milhões aos estúdios.

Exatamente como em “Love Story”, o câncer volta a atacar em “A Culpa É das Estrelas” (2014), segundo filme do diretor americano Josh Boone, baseado no best-seller homônimo de John Green. Com o sucesso gigante do romance, já era de se esperar uma adaptação para o cinema. Melhor ainda para os produtores que o filme tenha custado muito barato para os padrões de Hollywood (US$ 12 milhões) e deva render uma fortuna nas salas.

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No entanto, não é fácil criar um melodrama capaz de superar as couraças cínicas para penetrar no zeitgeist, como “Love Story” nos anos 1970. É como pisar em ovos: um passo mal dado e o filme todo vai por água abaixo, vira um história piegas e melosa de telenovela. Nisto, “A Culpa É das Estrelas” se distingue de outros exemplos recentes do subgênero “amor doente”. Mérito dos roteiristas Scott Neustadter e Michael H. Weber, responsáveis pelo novo clássico anti-romântico “(500) Dias com Ela”, que souberam construir personagens suficientemente envolventes para que o melodrama ressoasse na audiência.

Na trama, Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort) são dois jovens que combatem (ou combateram) o câncer. Eles se conhecem em um grupo de apoio para pessoas que passaram por esse mal ou ainda estão passando. E é amor à primeira vista. Gus é o tipo de rapaz que não hesita em sorrir e olhar fixamente para o seu objeto de interesse, no caso, a novata no grupo Hazel. Talvez por já aprender que o tempo urge, que a vida é breve.

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Gus perdeu a perna para o câncer, mas diz com alegria que conseguiu sobreviver e que hoje é uma espécie de ciborgue. Tem um senso de humor e um charme natural que conquistam Hazel, uma jovem que se submete a todos os tipos de tratamentos por amor aos pais, vividos no filme por Laura Dern (série “Enlightened”) e Sam Trammell (série “True Blood”).

Os dois são bem diferentes um do outro, mas acabam se complementando. O fato de emprestarem um ao outro os seus livros favoritos acaba sendo um fator muito importante para a história dos dois. E o filme, além de lidar bem com essa questão literária, também sabe ser contemporâneo, ao mostrar de forma criativa a troca de mensagens por smartphones.

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“A Culpa É das Estrelas” tem uma sabedoria toda própria em seu andamento narrativo, que não atropela os acontecimentos, os passos que cada um dos dois personagens dá, além de saber também trabalhar com o fantasma da doença, que está ali, o tempo todo, prestes a acabar com a festa. Que já não é tão feliz assim, já que a moça precisa andar o tempo todo carregando um pesado tubo de oxigênio.

Mesmo assim, uma das coisas mais bonitas que o filme trata é a questão do último dia feliz da pessoa que está condenada a morrer de uma doença como o câncer. De como esse momento pode ser apenas um dia rotineiro qualquer. Há também um belo conceito sobre o infinito, que aparece numa das cenas mais tocantes de todo o filme e que certamente deve fazer até os mais durões chorarem. Bela direção de Boone, e também muito bom o desempenho do jovem casal em um filme que, como “Love Story”, deve virar objeto de culto da sua geração.

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