Ida de adolescentes para supletivo ‘melhora’ escola

Érica Fraga, na Folha de S.Paulo

O número de adolescentes cursando o antigo supletivo, modalidade de ensino mais rápida destinada a alunos atrasados, cresceu entre 2007 e 2013, na contramão do ocorrido nas outras faixas etárias.

As matrículas de alunos de 15 a 17 anos nos anos finais do ensino fundamental da EJA (Educação para Jovens e Adultos) subiram 6% no período, para 466 mil. Todas as outras faixas etárias nas diferentes etapas encolheram.

Com isso, a fatia dos adolescentes nos anos finais do ensino fundamental da EJA saltou de 22,3% para 30%.

Essa migração firme reflete a dificuldade das escolas em manter os adolescentes na série certa. Embora seja o espelho de um retrato educacional falho, a ida dos adolescentes para a EJA melhora as estatísticas escolares.

Os alunos atrasados transferidos deixam de ser contabilizados em indicadores do ensino regular, como a distorção entre idade e série cursada, que vem caindo no país.

Além disso, esses alunos –que são os que apresentam pior desempenho escolar– deixam de participar de avaliações externas.

Victor Lima,15, e a mãe, Juscilene; ele foi encaminhado ao Cieja do Campo Limpo - Davi Ribeiro/Folhapress
Victor Lima,15, e a mãe, Juscilene; ele foi encaminhado ao Cieja do Campo Limpo – Davi Ribeiro/Folhapress

Êda Luiz, diretora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) do Campo Limpo (em São Paulo), notou que muitas escolas não têm esperado nem mais o fim do ano letivo para encaminhar alunos para a EJA.

“Nos últimos dois anos, tenho recebido um número crescente de alunos já no fim do primeiro bimestre letivo.”

Foi o que aconteceu com Victor Eduardo Lima, 15, que tinha dois anos de atraso e foi encaminhado por uma escola estadual há algumas semanas para o Cieja do Campo Limpo (zona sul de São Paulo), que é referência em ensino de jovens e adultos.

“Fui chamada e falaram que ele não tinha mais jeito e que era melhor transferi-lo logo”, diz Juscilene Maria de Lima, mãe de Victor.

Segundo especialistas, essa tendência parece ser fruto de tentativas das escolas para melhorar seu desempenho.

“Existe um movimento, ao que tudo indica intencional, de levar esse aluno para a EJA”, afirma Roberto Catelli, da ONG Ação Educativa.

Bruno Novelli, da ONG AlfaSol, concorda: “Cai a distorção entre idade e série e melhoram as notas no Ideb”.

Em um primeiro momento, a escola que transfere um aluno para a EJA após reprová-lo é penalizada no Ideb, indicador de qualidade do ensino básico calculado a partir da Prova Brasil. Isso porque, além do
desempenho, o exame considera a taxa de aprovação geral da escola.

Mas se a transferência ocorre antes da realização do censo escolar em maio, o aluno não conta para o desempenho da escola, pois deixa de ser vinculado a ela.

Editoria de Arte/Folhapress
Editoria de Arte/Folhapress

Para alguns especialistas, mesmo que a escola já tenha sido punida pela reprovação de um aluno, as perspectivas de melhora em avaliações futuras aumentam depois de encaminhá-lo para o supletivo. A lógica, argumentam, é tentar reduzir o número de estudantes com desempenho consistentemente ruim.

A diretora de EJA da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Lívia Maria Antongiovanni, relativiza a interpretação: “Isso pode ocorrer, mas a escola também pode receber um aluno tão problemático quanto o que saiu”.

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