Saiba como vêm as seleções para a copa mais importante (para quem é leitor, claro).

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Vilto Reis, no Homo Literatus

Quem é leitor, evidentemente, não vai perder a Copa do Mundo. Não aquela em que os principais craques são Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar, mas sim a de escritores, com grandes estrelas, como: Shakespeare e Cervantes.

Na expectativa deste evento (infelizmente fictício), bati um papo com meu amigo Davidson Davis que é, nas palavras dele, repórter, cineasta e escritor sacana. Não poderia ter tido uma conversa melhor sobre nossas expectativas em relação a este evento ansiado por quem ama literatura.

Reproduzo a conversa na íntegra abaixo.

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Vilto: A copa promete, não é Davidson? Não quero bancar o anglófilo, mas acho que a Inglaterra, com Shakespeare vestindo a camisa 10, e EUA, com Hemingway de centroavante, são francos favoritos. E por falar em “francos”, a França também é poderosa. Será que eles entram com Flaubert e Balzac no meio campo? E a Rússia, com Tostói no meio e Dostoiévski no ataque, Tchekhóv na cabeça de área e Nabokov como segundo atacante, todos pálio duro. Qual a seleção que te inspira mais?

Davidson: Preciso acrescentar que a Inglaterra ainda virá com Aldous Huxley, Charles Dickens, Joseph Conrad e Graham Greene. Mas o E.U.A também pode surpreender com Fante, David Foster Wallace, Salinger, Edgar Allan Poe, Kerouac, Bukowski e com o Carver – isso se eles deixarem de enxugar umas bebidas e se concentrarem na disputa. Se o Miller jogar pela França, é o que andam dizendo, o EUA perdem bastante e os franceses vão chegar tinindo. Os russos também estão em forma. Mas se cometerem algum deslize, serão castigados. Eu já me decidi, vou apostar nos latino-americanos.

Vilto: Por falar neles, será que a Colômbia tem alguma chance? É claro que o Gabo é um camisa 10 genial, mas acho que ele tá meio solitário. Olha a Argentina, por exemplo. Borges maestrando no meio-campo, Cortázar de centroavante, e aquela defesa dura, de Sábato e Wash; tá bem preparada, não? Embora também considere o Chile um candidato muito forte, munido do trio: Neruda, Bolaño e Zambra.

Davidson: A Colômbia nem se trouxer toda a estirpe dos Buendía. Acho que não tem time para levar o caneco, embora o Gabo seja fantástico. Os hermanos estão vindo para brigar pela ponta. O Uruguai do Horacio Quiroga, Juan Carlos Onetti e Eduardo Galeano também vem forte. Vamos voltar os comentários para o Velho Continente. Estão dizendo que o Kafka pediu licença e vai jogar pela Alemanha. É isso mesmo?

Vilto: Faz sentido, não faz? Já que ele escreveu toda a obra dele em alemão. Mas receio que ele possa ter uma participação um tanto tímida, embora sempre se possa esperar uma metamorfose. Aliás, este primeiro jogo da Alemanha com Portugal promete, não? Nossa mãe pátria conta com o Fernando Pessoa (se ele não estiver tão sonhador, promete!), além do Saramago para dar consistência ao meio campo, e o Eça na defesa, com seu estilo de jogo bem clássico. E sempre se pode contar com o aspecto apaixonado do futebol do Camões.

Davidson: Estou animado para o confronto entre a Fúria e a Laranja mecânica. De um lado, Miguel de Cervantes, Federico García Lorca, Lope de Vega e Camilo José Cela; do outro, Harry Mulisch, Gerrit Komrij, J. Bernlef e Paul Van Ostaijen. O bicho vai pegar. O que você acha dos africanos? Será que vão surpreender?

Vilto: Olha, Davidson, acho um pouco difícil. Não que eles não sejam bons contadores de histórias, muito pelo contrário, mas ainda falta certo reconhecimento. Lamento que Moçambique não tenha se classificado, pois é sempre bom ver Mia Couto abusando dos neologismos em campo. Embora a Nigéria tenha um Nobel no time, Wole Soyinka, considero meio complicado que surpreenda. Mas e os asiáticos, como você acha que vêm para esta copa?

Davidson: No Japão, teremos Haruki Murakami em plena forma. O Irã terá Mahbod Seraji como camisa 10. Acostumado a driblar a censura, ele promete lances de pura magia. Na Coréia do Sul, Kim Young-ha afirmou que vai brigar pela artilharia. A Austrália, que disputa as eliminatórias da Ásia, tem como destaque o Nobel, Patrick White. E os Italianos?

Vilto: Ouvi dizer que o Dante prometeu ir do céu ao inferno pra ganhar essa copa. E olha que a coisa fica mais violenta se você pensar que eles têm o Maquiavel no time. O Umberto Eco me parece mais equilibrado, mas as jogadas surrealistas do Ítalo Calvino são perigosas. Será que são ameaça para o Brasil? Ou melhor, como será que nossa seleção vai se sair nessa copa?

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Davidson: O técnico Gracialiano Ramos disse não vai largar mão do estilo conciso, mas que também não vai cortar as habilidades de seus atletas. Acho que ele vai ter uma puta, mas boa, dor de cabeça para escalar o time. Muitos gênios, não acha? Quem vai ficar com a 10: Machadão ou Guimarães Rosa? Será que a faixa de capitão ele coloca no braço do Jorge Amado? Como tu acha que vem o Brasil, hein?

Vilto: Sim, uma ótima dor de cabeça, aliás. Temos o fator surpresa, pois nossos jogadores não são tão conhecidos/lidos no mundo anglófilo. Mas acredito que o Machado vá vestir a 10. To com expectativa alta pra ver o Drummond na ponta direita, ele que superou todas as pedras no caminho e veio pra essa copa. Mas o capitão, talvez seja o José de Alencar, que é mais veterano, embora o Érico Veríssimo seja o cherifão na defesa. Acho que seria uma boa surpresa se ele entrasse com o Nelson Rodrigues de titular, não?

Davidson: Sim. Grande Nelsão. Faria um ataque peralta com o Oswald de Andrade. Mas o Rubem Fonseca também tá querendo a vaga. Será que jogam os três? O Rubem Braga já garantiu a dele. O Vampiro de Curitiba vem pela cabeça de área. Tem ainda o Fernando Sabino e o Mário Prata. Poderia entrar só com os poetas ou os cronistas, que faria um timaço. Muita gente boa, Vilto.

Vilto: Pra finalizar essa conversa de expectativa pra copa, me diga, Davidson, quem você acha que é o favorito? Faça a sua aposta, homem!

Davidson: Ainda tem dúvidas, meu querido? Vou torcer pra nossa seleção. É Brasil, campeão! Entortaremos os gringos, deixaremos todos caídos no chão, boquiabertos, com a originalidade, diversidade e excelência dos nossos literatos. Até o Graciliano vai me perdoar pelos adjetivos. Do conto ao poema; do romance ao teatro, sem esquecer a crônica. Não vai ter pra ninguém. Tradição e ruptura, junto e misturado. Haroldo Bloom vai pirar. Será um verdadeiro espetáculo. Só gol de letra, só gol de letra!

Vilto: Minha expectativa e fanatismo devem ser o dobro do seu. Vamos ver no que dá.

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E aí, qual sua expectativa para a Copa do Mundo de Escritores?

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