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Estudos mostram que práticas de sala de aula podem ser tão ou mais importantes para os alunos quanto o conhecimento do docente

Antônio Gois, em O Globo

Nada dentro da escola é mais importante para explicar o sucesso dos alunos do que a qualidade do professor. Difícil encontrar quem discorde dessa afirmação. Mas o que parece simples e óbvio se torna complexo na hora de identificar quais características fazem alguns profissionais melhores do que outros.

NO estudo “Conhecimento ou práticas pedagógicas”, divulgado este ano, os economistas Cláudio Ferraz (PUC-Rio) e Maurício Fernandes (USP) jogam um pouco de luz sobre o tema ao comparar médias de alunos de escolas estaduais paulistas com o desempenho de seus professores num exame criado pelo governo para avaliar o conhecimento dos docentes. Além disso, Ferraz e Fernandes identificam também práticas cotidianas que explicam por que alguns alunos aprendem mais com determinados professores do que com outros.

O surpreendente no estudo foi que o conhecimento do professor, ao menos aquele medido nos testes aplicados pelo governo nos docentes, mostrou-se menos importante para explicar bons resultados dos estudantes do que uma prática cotidiana simples: passar lição de casa com frequência.

Antes de generalizar as conclusões do trabalho, os próprios autores alertam que o menor impacto do conhecimento do professor no desempenho do aluno não pode ser tratado como uma evidência definitiva. Há estudos que vão em direção contrária, e o exame criado pelo governo paulista para avaliar o professor pode não ser um instrumento preciso para medir o conhecimento do docente. No caso da importância da lição de casa, no entanto, os resultados são mais robustos e já haviam aparecido em outras pesquisas.

Ninguém discorda de que precisamos melhorar a qualificação dos professores, mas o trabalho de Ferraz e Fernandes nos lembra de que é preciso também olhar para o que acontece dentro de sala de aula.

Em 2010, um livro lançado nos Estados Unidos, do professor Doug Lemov, teve grande repercussão por fazer justamente isso. Lemov identificou, após um extenso trabalho de pesquisa feito por anos, práticas comuns que ajudavam a explicar por que alguns professores conseguiam obter melhores resultados do que outros. O livro, lançado no Brasil pela Fundação Lemann com o título “Aula nota 10”, listou 49 técnicas que se mostraram eficazes para manejar melhor o tempo de sala de aula e fazer todos os alunos se engajarem. São dicas simples, como, em vez de esperar que um aluno levante a mão, escolha você quem responderá a uma pergunta em voz alta, evitando assim que só os melhores estudantes participem da aula.

O problema no Brasil é que a sala de aula é tratada às vezes como uma caixa-preta, um espaço inviolável dos professores. Num estudo da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgado na semana passada, quando questionados sobre com que frequência costumam observar aulas de colegas para trocar experiências, 77% dos professores brasileiros responderam que nunca fazem isso. De um grupo de 32 nações comparadas, foi o quarto maior percentual, muito acima da média geral de todos os países da pesquisa, de 45%.

Os dois países onde a troca de experiência entre docentes é mais comum são Japão e Coreia do Sul, em que apenas 6% dos professores disseram que nunca observam aulas de colegas para trocar experiências. Essas duas nações também se destacam em comparações internacionais pelo alto nível de aprendizado dos alunos. Não deve ser coincidência.

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