Alan Pauls conclui trilogia sobre a Argentina nos anos 1970 com ‘romance pornográfico’

Livro é protagonizado por um menino sem nome: ‘É muito pessoal’, diz escritor

O escritor argentino Alan Pauls - Divulgação
O escritor argentino Alan Pauls – Divulgação

Mariana Filgueiras em O Globo

RIO — Alan Pauls tira memórias do bolso para começar a falar do novo romance, “História do dinheiro”. Numa delas, lembra que, quando era criança, costumava caminhar com o pai pela Calle Florida, em Buenos Aires, e achar estranho as pessoas oferecendo “câmbio” o tempo inteiro. Os gritos de “câmbio, câmbio, câmbio” pela rua apinhada de turistas, e o menino ali, sem entender nada. Mais velho, notou o mesmo eco na maneira como ouvia as pessoas oferecendo sexo ou drogas em ruas nova-iorquinas. Em outra, o autor recorda uma ocasião em que foi dar aulas em uma universidade americana. Para alugar um apartamento, precisaria pagar adiantado alguns meses. Como não tinha conta no país, pôs US$ 2 mil sobre a mesa do corretor. E viu o sujeito arregalar os olhos, como se estivesse diante de uma metralhadora, um pacote de cocaína ou um objeto pornográfico.

— O cash era como algo que queimava, uma bomba — compara Pauls, sobre como foi percebendo o dinheiro como um elemento obsessivo, obscuro e obsceno nas relações sociais ao longo dos anos. — Quis escrever um romance pornográfico, mas em que, em vez de cenas de sexo explícito, tivesse cenas de dinheiro explícito.

LÁGRIMAS, CABELO E CASH

O autor conseguiu. Não há uma cena no romance que não faça, de certa forma, alguma alusão ao câmbio da Calle Florida, às contas-correntes ausentes, aos depósitos antecipados, ao cash impróprio sobre a mesa. O dinheiro está na negociação do sequestro de um dos personagens; nas mesas de pôquer de outro; no que se ganha, se rouba, se perde e se gasta ao longo das 189 páginas da história de uma família argentina nos anos 1970, cujo protagonista é um menino sem nome. A trama de “História do dinheiro” encerra a trilogia que teve início com “História do pranto” (2008) e “História do cabelo” (2011). Nos três volumes, Pauls disseca a sociedade argentina a partir de três elementos que estamos fadados a perder: as lágrimas, o cabelo e o dinheiro. Ou, como chama, as três “portas de serviço” pelas quais o autor entra nesse período tão conturbado da história política — e econômica, por supuesto — do país, quando a inflação descontrolada passou a reconfigurar a relação das pessoas com o dinheiro.

— É um livro muito pessoal, muito íntimo, que conecta esse mundo secreto com uma dimensão pública e histórica muito forte. Como se fosse o livro de um louco que descobrisse que sua loucura, a mais íntima e pessoal que tinha em si, é a mesma que a da sociedade em que vive. Gosto muito quando a ficção produz esse tipo de articulação — detalha Pauls, reiterando que, apesar de focar nos anos 1970, o livro é uma investigação contemporânea. — Como sempre é contemporâneo o problema do dinheiro, que atravessa modulações distintas, mas nunca passa de moda. Penso, por exemplo, num artista brasileiro de que gosto muito, o Cildo Meireles, e que lembrei muito enquanto escrevia o “Dinheiro”. Diria que todo meu romance está na sua obra “Cruzeiro zero” (obra em que Cildo faz réplicas da moeda corrente, substituindo as efígies históricas por índios e doentes mentais). Arte e dinheiro caminham sempre juntos, ainda mais, ou sobretudo, quando querem se mostrar independentes um do outro.

Além do “Cruzeiro zero”, Pauls enumera outras referências: os “Diários de Andy Warhol” e o livro “El complejo del diñero”, da alemã Franziska von Reventlow (1871-1918), de onde tira a epígrafe do romance: “Assim que o dinheiro chegar, prometo que voltarei a ser totalmente normal”.

— Warhol anotava no seu diário absolutamente tudo o que gastava durante o dia, o que prova que uma das origens do diário íntimo é o livro de contabilidade. Franziska foi uma mulher liberal que se internou em um sanatório para tratar sua neurose: o “complexo do dinheiro”. Ela não conseguia parar de pensar em dinheiro. Em consegui-lo, em perdê-lo, no dinheiro dos outros, no que teve, no que terá etc. Seu livro é sua confissão, a história clínica de uma especialista em perder tudo.

A primeira menção ao dinheiro vem logo no segundo parágrafo, quando o personagem é exposto à insistência da mãe para que usufrua as benesses de um casarão onde estão, ambos, velando um morto — “incluindo a garagem com as bicicletas, as pranchas de surfe e de isopor, o jardim com as tílias, o alpendre, os balanços de ferro e aqueles canteiros com hortênsias que o sol chamusca e descolore até que as pétalas pareçam de papel”. A vertigem do dinheiro segue num só fôlego pelos períodos longos de Pauls até as últimas palavras do romance (“moeda corrente”).

Uma das estratégias que o autor usa para atenuar o efeito narcotizante da trama é o humor. Como nas cenas em que descreve um personagem que não consegue concluir uma obra porque os preços mudam dia a dia ou quando brinca com os apelidos dados às cédulas pelos argentinos (como “palo” para um milhão, que, com a inflação, vira “luca”, seu diminutivo).

— Acredito que os três romances trabalhem o mesmo tipo de riso macabro: o riso que aparece quando o mundo é pura ruína, puro escombro. O riso é o último humano que sobrevive ao desastre. Mas em “Dinheiro” se agrega a lógica da economia argentina, que é absolutamente disparatada, com inflações, deflações, mudança de moedas e de nomes para as cédulas, multiplicação, deprecação, quase digna de um Raymond Roussel, o que, como quase tudo o que parece não ter limite, produz uma comicidade irresistível — brinca Pauls, que se diverte ao saber que o real brasileiro ganhou a alcunha de “surreal”. Volta ao livro: — Me interessa o tema da adicção, problema muito contemporâneo também, que não se reduz só aos seus objetos mais citados (álcool, drogas, sexo). O vício é hoje a forma geral de relação com o mundo. Determina o modo como nos estimulamos, mas também nossa maneira de agir como turista, de desejar, de comer.

“SIGO FAZENDO O QUE ELE QUER”

O fato de ter explorado o tema à exaustão não o libertou da relação íntima que mantém com sua conta-corrente.

— Já gastei o adiantamento que me pagaram pelo livro, que agora é pura literatura. Sigo sendo a mesma vítima do dinheiro que era antes de escrevê-lo. Sigo fazendo o que ele quer.

Tampouco Pauls notou que mudou a relação dos argentinos em geral com la plata, dos anos 1970 até hoje, quando as crises econômicas se tornaram sucessivas no país.

— Acredito que o dinheiro basicamente substituiu a política: a substituiu como prática, como sonho, como ambição, como cultura, como forma de vida. Nos anos 70 se fazia política, em certo sentido, para mudar precisamente a relação que se tinha com o dinheiro, para encerrar e reverter seu poder. O desastre dos anos 70 produziu uma dobra, um movimento inverso: a submissão total da economia. Na verdade, só há duas forças que podem rivalizar com o dinheiro: a política (e o “revival” dos anos 70 que experimenta a América Latina é também o “revival” desta ideia), e a outra é a arte.

Como a literatura.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *