Literatura não é mero entretenimento

Jhumpa, que virá à Flip: "A tecnologia leva os consumidores a se distrair com bobagens"
Jhumpa, que virá à Flip: “A tecnologia leva os consumidores a se distrair com bobagens”

Luís Antônio Giron, no Valor Econômico

É impressionante a quantidade de autores que mantêm o hábito de escrever à mão e ignoram a tecnologia mais recente. Alguns o fazem por hábito. Outros, como a ficcionista Jhumpa Lahiri, por convicção de que o progresso pode destruir a delicadeza da escrita literária. Jhumpa, de 46 anos, é de origem bengali. Nasceu em Londres, imigrou criança com a família para Rhode Island, Estados Unidos. Tecnicamente é americana, mas não se considera como tal. “Não sou americana, como não sou indiana nem londrina”, diz, em entrevista por telefone ao Valor, de Roma, onde mora com o marido jornalista e os filhos de 11 e 9 anos. “Sou apenas alguém.”

Alguém capaz de grandes façanhas armada apenas de uma caneta e um caderno. Jhumpa cria histórias sobre uma mesma matriz autobiográfica: personagens bengalis que imigram para o Ocidente e vivem a ruptura da identidade a partir do choque entre culturas e da luta pela sobrevivência em terra estranha. Jhumpa estreou em 2000 com “Intérpretes de Males” (contos), que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de melhor livro de ficção – o mais importante dos EUA.

Seu estilo mistura longas descrições psicológicas e peripécias intercontinentais. Ela é considerada por muitos críticos uma das melhores contistas atuais da língua inglesa. Outra reunião de contos, “Unnacostumed Heart” (2008) lida com casos de família em várias gerações. O romance “O Xará” (2003) narra a história de um indiano chamado Gógol, xará do escritor russo, que precisa conviver com as tensões de ser a um só tempo indiano e europeu. Seu quarto título, de 2013, é o romance “Aguapés”, agora lançado no Brasil pela editora Globo para marcar a vinda de Jhumpa à Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

“Aguapés” é ambientado na Índia e nos EUA e trata de quatro gerações de uma família bengali separada pela imigração e pelos conflitos políticos. A trama é centrada nos irmãos Subhash e Udayan Mitra – aquele imigrante nos EUA, este militante de esquerda em Calcutá nos anos 1960. Nesta entrevista, Jhumpa fala sobre escrever e sobre sua preocupação com o futuro da literatura.

Valor: O que conhece sobre o Brasil?

Jhumpa Lahiri: Sei de muitas coisas e estou animada para visitar o país pela primeira vez. Vou viajar com meu marido e meus filhos. Ele morou no Brasil quando era estudante e me contou sobre a diversidade cultural e a maneira leve que os brasileiros têm de levar a vida, algo bem diferente do que experimentei nos EUA. Conheço o Brasil pela literatura e pela música, que são riquíssimas. Li as traduções dos livros de Clarice Lispector, uma voz única na literatura mundial. E a gente vive ouvindo bossa nova aqui em casa.

Valor: Para que serve a literatura no mundo atual, saturado de diversão e tecnologia?

Jhumpa: Há uma pressão enorme sobre nós, escritores. Somos chamados à arena das discussões sobre o futuro da cultura e temos a obrigação de demonstrar publicamente que a literatura de ficção é relevante, pois constitui a personalidade e a formação intelectual do leitor. Não tem nada a ver com tecnologia ou com o sensacionalismo que as grandes editoras usam para vender livros ou modas literárias. O excesso de marketing reduz a experiência do leitor e obriga os autores a produzir como máquinas. A literatura corre o risco de virar mero entretenimento. Eu procuro fugir disso.

Valor: Você lê em aparelhos eletrônicos?

Jhumpa: Detesto todo esse mundo de aparelhos e redes sociais. Esses mecanismos servem para controlar e despersonalizar os seres humanos. Os tablets e e-readers não passam de armadilha para o leitor comprar mais livros. O efeito é imediato: ele tende a pular de um livro para outro sem aproveitar o que cada obra tem. Para mim, um livro é um objeto único, maravilhoso, feito para o prazer da leitura. A tecnologia leva os consumidores a se distrair com bobagens e a não prestar atenção no que é fundamental: desenvolver a sua maneira de ver e ler a realidade.

Valor: Seu trabalho é etiquetado pela crítica americana como “literatura de imigração”. Você se sente bem nesse rótulo?

Jhumpa: Não acho que minha obra possa ser considerada literatura de imigração. Eu abordo problemas universais. As circunstâncias de imigração por que passam meus personagens não podem caracterizar o que escrevo. Conto histórias sobre pessoas desenraizadas e deslocadas. No mundo de hoje, poucos são os que não se sentem assim, mesmo quem nasceu em um lugar e nunca saiu de lá. A expressão “literatura de imigração” é redutora e tenta simplificar as coisas.

Valor: De qualquer forma, suas histórias giram em torno de famílias bengalis que trocaram a Índia pelo Ocidente.

Jhumpa: Sim, porque é o que eu vivi. Observei meus pais e as famílias indianas ligadas à minha. Por isso, minhas histórias abordam a situação das gerações anteriores à minha, que foram mais marcadas pelo choque cultural.

Valor: Você cresceu, estudou e amadureceu nos EUA. Considera-se americana?

Jhumpa: Não. Não me sinto à vontade nos Estados Unidos nem acho que é o meu país. Não sou americana, como não sou londrina nem indiana. Sou alguém. Fui criada nos Estados Unidos, mas nunca fui acolhida como americana. Viam-me como a estrangeira filha de indianos. Nacionalidade é um conceito ultrapassado.

Valor: O desenraizamento se evidencia em suas histórias. Nelas, espaço, tempo e vida interagem. Os personagens são contraditórios e insatisfeitos. Você faz isso de propósito ou é um impulso inconsciente?

Jhumpa: Não tenho formação filosófica, apesar de alguns de meus personagens especularem até de forma profunda. Mas não sou eu que sou profunda, e sim eles, se é que podem ser considerados assim. É o caso de Gauri, a mãe de Bela, a protagonista “americana” de “Aguapés”. Ela reflete sobre a condição do tempo, e não pensei sobre isso, a voz de Gauri se impôs. Os personagens surgem à medida que escrevo. Não planejo essas coisas. Gero vozes sem pensar no que pensam.

Valor: É possível combinar com harmonia duas ou mais culturas aparentemente opostas, como a indiana e a europeia?

Jhumpa: Isso depende da situação. Mas em geral as culturas não se harmonizam. Claro que há um fundamento universal, e é ele que eu persigo nos meus enredos. A questão da cultura é circunstancial. O que o ser humano precisa buscar é a universalidade dos temas e sentimentos. Só assim haverá um equilíbrio.

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