‘Escrever sobre depressão não foi catártico, mas doloroso’, diz Solomon

Sylvia Colombo, na Folha de S.Paulo

“Eu não entendia porque recebia tantos cheques relativos à venda do meu livro sobre a depressão vindos do Brasil. Para mim, os brasileiros eram felizes todo o tempo. Infelizmente, me dei conta de que essa imagem não era verdadeira, e que, infelizmente, a depressão está em todo lado e havia brasileiros gastando tempo lendo meu livro.” Assim começou a palestra do escritor norte-americano Andrew Solomon, na noite de sexta-feira (1º), na 12ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip).

O autor de “O Demônio do Meio-Dia” (2001) foi apresentado pelo jornalista Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha.

Solomon entrou no palco dando um pequeno salto. Logo depois da introdução, iniciou sua fala, seguindo uma linha já conhecida de suas palestras anteriores. Iniciou explicando como se sentiu motivado a investigar e escrever sobre a depressão. Em 1991, Solomon perdeu a mãe e terminou um relacionamento. Três anos depois, perdeu o interesse em tudo. “O oposto da depressão não é a felicidade, e sim a vitalidade.” E descreveu a dificuldade em realizar tarefas comuns do dia-a-dia.

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Para um auditório lotado, Solomon, vestido de branco, com um blazer quadriculado por cima, contou histórias familiares para justificar o interesse que teve, desde criança, pelas pessoas que parecem diferentes, e como isso o ajudou a afirmar-se como homossexual.

Os momentos mais emotivos foram quando contou exemplos de experiências de vida que colheu para seu livro “Longe da Árvore” (2012). Uma delas foi sobre um homem que havia nascido com uma terrível doença que causou uma deformidade física que os médicos consideraram irrecuperável. A mãe, porém, resistiu a abandoná-lo e levou-o a especialistas. Vinte anos e mais de trinta cirurgias depois, o rapaz estava vivo e tendo problemas com álcool. A mãe, ainda assim, se sentia aliviada. O público aplaudiu.

Solomon contou que enquanto escrevia o livro, decidiu ter filhos, porque se surpreendeu com a força daqueles que lutam para manter filhos sob condições extremas. E relatou como é formada sua família, ao lado de seu parceiro e crianças que nasceram de trocas com mulheres homossexuais. Ao apresentar a família, com alguns membros na platéia, o público aplaudiu efusivamente.

Perguntado sobre se hoje em dia se diagnostica mais depressão ou se, de fato, há mais depressão, o escritor disse que hoje em dia “fazemos muito mais coisas, não dormimos o suficiente, interagimos muito com máquinas, mais do que pessoas. Mas recebo muitas cartas de gente que diz que não tem com quem conversar. Penso que é um fenômeno moderno. Mas creio que há muito mais ansiedade nos dias de hoje”.

Outra pessoa do público perguntou se o ato de escrever ajudou Solomon a aliviar a depressão. “Não foi catártico, foi doloroso. E muitas vezes me senti envergonhado. Mas me ajudou no sentido de que conhecimento, no caso da depressão, leva você a lidar melhor com a depressão. Saber tudo sobre os tratamentos, ajuda. Para mim isso foi muito positivo. Por outro lado, me dei conta de que os anos mais terríveis da minha vida serviram para ajudar a outras pessoas que sofrem hoje o mesmo problema. Isso me faz sentir-me melhor.”

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