Designer renomado Peter Mendelsund estreia como autor

Alexandra Alter, na Folha de S.Paulo

Há muito visto como um dos principais designers gráficos de livros do planeta, Peter Mendelsund, 46, costuma dizer que “os escritores mortos conseguem as melhores capas de livros”. Ele tem pavor de autores exigentes, que fazem questão de fontes e cores. “A capa termina horrorosa”, avalia.

Agora se tornou aquilo que vê como seu pior pesadelo: estreia como autor com dois livros que chegam às livrarias dos EUA esta semana.

Os dois giram em torno do peculiar desafio de transformar palavras em imagens, combinando ilustrações, filosofia e teoria do design.

Em “What We See When We Read” (O Que Vemos Quando Lemos, Vintage Press), que sai nesta terça-feira (5) nos EUA, Mendelsund trata da misteriosa maneira pela qual textos produzem imagens mentais vívidas, mesmo quando o autor fornece poucos detalhes visuais.

O designer Peter Mendelsund, em sua casa em Nova York, entre livros desenhados por ele / Joshua Bright/The New York Times
O designer Peter Mendelsund, em sua casa em Nova York, entre livros desenhados por ele / Joshua Bright/The New York Times

Já em “Cover” (Capa, PowerHouse Books) há mais de 300 criações dele, além de esboços rejeitados por editoras.

Mas, das centenas de capas que Mendelsund criou, nenhuma foi tão trabalhosa quanto a de seu “What We See When We Read”. Como autor, ele sentia que não existia uma imagem capaz de resumir a premissa do livro.

O tema parecia desafiar as possibilidades de ilustração, porque a tese central de Mendelsund é a de que os leitores muitas vezes inventam imagens que o texto não justifica. “O ponto todo era não mostrar alguma coisa”, diz.

Por fim, encontrou uma solução. “É bastante minimalista, ainda, mas uma maneira de mostrar o sentimento de não ser capaz de ver alguma coisa”, completa.

Ele adicionou um pequeno buraco de fechadura, dourado e cintilante, à capa preta.

CRIAÇÃO

Para desenvolver uma capa, Mendelsund começa escrevendo anotações em um manuscrito e sublinhando sentenças chaves quanto ao tema do livro. Afixa as páginas assim marcadas na parede acima de seu computador.

Depois, começa a catalogar ideias em uma folha de papel com 16 retângulos, e ocupa cada um deles com uma palavra, sentença ou pequeno desenho.

Por fim, seleciona o conceito mais promissor e produz um esboço no computador.

Assim que produz um esboço básico, ele muitas vezes recorre a ilustrações manuais, desenhando com um pincel, produzindo colagens em papel ou pintando formas abstratas com tinta guache.

Por fim, imprime uma falsa capa, a posiciona em torno de um livro de capa dura e a deixa em sua estante por alguns dias. Se o seu olhar é atraído espontaneamente pela capa um ou dois dias mais tarde, ele considera estar avançando na direção certa.

É comum que repita o processo dezenas de vezes. Para uma nova edição de “O Jogo de Amarelinha”, romance de Julio Cortázar, criou 60 capas.

“Os Homens que Não Amavam as Mulheres” foi ainda mais difícil, requerendo mais de 70 tentativas. A capa resultante se tornou onipresente, quando o romance vendeu mais de 10 milhões de cópias.

“A maioria dos designers busca uma imagem central para resumir um livro, mas Peter não busca uma imagem: busca uma ideia”, define James Gleick, autor de “A Informação”, cuja capa foi feita por Mendelsund.

“Ele combina um pensamento conceitual muito forte e inteligente a uma execução bonita e que aceita riscos”, diz John Gall, diretor de criação da Abrams Books.

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