‘Muitas pessoas nem sabem que matemático pode ser profissão’, diz ganhador da Medalha Fields

Conheça mais sobre Artur Avila, um carioca típico que gosta de ir à praia e beber açaí

O matemático Artur Ávila, de 35 anos, premiado com a Medalha Fields - Américo Mariano
O matemático Artur Ávila, de 35 anos, premiado com a Medalha Fields – Américo Mariano

Cesar Baima e Fernando Eichenberg em O Globo

PARIS E SEUL – Um talento único, cujo trabalho está ajudando a expandir as fronteiras da matemática, o que de pouco valeria se não fosse conjugado com boas doses de dedicação. Assim ex-professores e colegas descrevem Artur Avila, carioca de 35 anos que hoje vive entre Rio e Paris. Ele é pesquisador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e diretor do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França. Carioca de 35 anos, o matemático hoje tem até nacionalidade francesa, mas, caminhando às margens do Rio Sena enquanto reflete sobre algum problema, morre de saudade de ir à praia e de beber açaí.

Há dois meses, Avila recebeu um e-mail da União Internacional de Matemática (IMU, na sigla em inglês) comunicando que ele receberia a Medalha Fields, principal prêmio da área no mundo, considerado o “Nobel da matemática”. A premiação foi confirmada oficialmente nesta terça, durante o Congresso Internacional dos Matemáticos, na Coreia do Sul.

— É o prêmio mais importante. Você passa a ser conhecido pelos não matemáticos. Para o Brasil, é simbolicamente importante. Um certificado de que está sendo feita ciência de alto nível no país. E isso é um trabalho de décadas — comenta ele, acomodado na poltrona de uma sala da Universidade de Jussieu, em Paris, após dar conselhos, no quadro-negro, durante uma hora, para um estudante americano de pós-doutorado em seus problemas matemáticos.

Vestindo jeans e camiseta branca, Avila sorve em intervalos irregulares goles de leite que toma direto do bico da garrafa de plástico de um litro, da qual não se separa. Um ardil para compensar refeições ignoradas, consequência de sua tumultuada agenda dos últimos dias. Para ele, a Medalha Fields e o fato de o próximo Congresso Internacional de Matemática ocorrer no Brasil, em 2018, é “uma janela de oportunidade” para se pensar em algo mais amplo no avanço da ciência no país, de forma gradual, “sem mágica”. O contexto também poderá confortar vocações já despertas. Matemático pode ser uma boa profissão, garante o carioca:

— Muitas pessoas nem sabem que pode ser uma profissão, e bem-sucedida. É uma carreira competitiva, precisa ter talento especial em vários níveis, mas dá muita liberdade. Você escolhe em que vai trabalhar como pesquisador. Há pouca hierarquia, não tem chefes. Você é independente.

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Avila é objetivo e reservado. Não fala sobre sua vida pessoal. A não ser quando ela se confunde com a paixão pela matemática. Ele começou a desenvolver essa vocação na 5ª série (atual sexto ano do ensino fundamental), motivado por um professor do Colégio São Bento que lhe apresentou, em 1992, a Olimpíada Brasileira de Matemática, promovida pelo Impa para rastrear jovens talentos. O garoto, com 13 anos, conquistou uma medalha de bronze no primeiro ano e, depois, três ouros consecutivos.

Em 1995, ganhou outra medalha dourada, desta vez na Olimpíada Internacional de Matemática no Canadá. Abriram-se, então, as portas do Impa, onde ele ingressou para fazer um curso de verão. Enquanto os colegas reclamavam da dificuldade das provas, Avila, sempre calado, na dele, só tirava notas altas.

— A partir daí ele começou a ser conhecido como brilhante — diz o diretor-geral do Impa, César Camacho.

A matemática que a maioria de nós aprende na escola está tão distante do trabalho atual do pesquisador quanto um livro infantil de colorir está de um quadro de Picasso. Nos últimos anos, o matemático ganhou reconhecimento atuando na área de sistemas dinâmicos, a popular teoria do caos, que procura explicar sistemas que mudam com o tempo. Algo aplicado em diversas áreas, como a economia e a meteorologia.

Avila é incomum entre os matemáticos em seus hábitos de trabalho. Ele confessa, por exemplo, não ler livros. Nem mesmo a literatura científica da área. Prefere conversar com colegas para identificar os problemas em aberto e definir como pode colaborar para solucioná-los. Se despertarem seu interesse, claro.

— Gosto de interagir com outros matemáticos, assim somos pelo menos duas pessoas com o mesmo objetivo — conta.— Quando quero entrar em um assunto, vou conversar. Isso me permite ir direto ao ponto.

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