Quatro dicas para encarar a prova de literatura do Enem

Mesmo sem lista de leituras obrigatórias, exame nacional busca valorizar os “bons leitores”

Foto: Uchôa / Agencia RBS
Foto: Uchôa / Agencia RBS

Vinícius Fernandes, no Zero Hora

É praxe começar a estudar para a prova de literatura a partir da lista de leituras obrigatórias. Para garantir um bom percentual de acertos na UFRGS em 2015, bastaria mergulhar em Jorge Amado, Nelson Rodrigues e Machado de Assis ou nos contos de Murilo Rubião e Sergio Faraco. Mas os livros nem sempre são a principal exigência da prova. Às vezes, conta mais a interpretação de textos e a capacidade de relacioná-los a períodos históricos da literatura brasileira. Nesse caso, por onde iniciar os estudos?

Por ser aplicado em todo o país, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tem um olhar nacional sobre o tema. Mais do que conhecer autores, as cerca de 12 questões de literatura exigem conhecimento do processo de construção do texto. Talvez você não encontre referências a Machado de Assis, mas tenha de interpretar um enunciado publicitário ou um quadro de Candido Portinari.

– O Enem enxerga as artes como um processo mais amplo e entra nas artes plásticas e na música. O aluno tem de ser um bom leitor de textos em todos os formatos, mas a primeira coisa é ter conhecimento da história da literatura brasileira como um todo – aconselha o professor de literatura do Unificado, Pedro Gonzaga.

Apesar dos enfoques diferentes, os vestibulandos da UFRGS acabam se capacitando para o Enem. O aluno que devorou todas as leituras obrigatórias evoluiu como leitor e provavelmente ganhou fôlego para interpretar questões mais complexas.

– O Enem pega tanto textos mais modernos, que se parecem mais com a nossa linguagem atual, quanto textos de jornais, poesia e canções populares – garante Gonzaga.

Confira dicas para ficar preparado para a abordagem do Enem para a literatura. Não há leituras obrigatórias, mas ler bastante é indispensável.

Atenção para o século XX

Professores concordam ao afirmar que a literatura brasileira do século 20 predomina na prova. Se tiver de escolher algum período para focar estudos, opte por este. No Rio Grande do Sul, se convencionou dividir esse tempo em modernismo de 22 (1ª geração), 30 (2ª geração) e 45 (3ª geração). Em cada geração, se destacaram autores que pavimentaram a literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Graciliano Ramos, Vinícius de Moraes, Erico Verissimo, Jorge Amado e Clarice Lispector.

– É sempre legal ter uma visão bem panorâmica da história da literatura brasileira, mas o século 20, a partir do modernismo, sempre cai em uma ou duas questões – lembra o professor de literatura do Unificado Diego Grando.

De acordo com Pedro Gonzaga, o escritor mais lembrado nas provas do Enem é Carlos Drummond de Andrade, um dos estandartes da geração de 30.

Texto e o contexto

Reconheça a presença de valores humanos nas questões da prova e os relacione com o contexto histórico, social e político. Não é raro as provas pedirem associações entre poemas, prosas, quadros e tirinhas com o período em que foram produzidas.

Prosa e poesia

O vocabulário rebuscado e por vezes não usual assusta, mas, segundo o professor Pedro Gonzaga, “o leitor capaz de interpretar prosa e poesia se capacita a interpretar tudo”. Por mais exigente que seja a tarefa, decifrar estrofes é um exercício válido para estimular a interpretação de outros formatos. Leia com calma, atentamente, e procure compreender a mensagem do autor camuflada nas entrelinhas do texto.

Leia manuais de literatura

Manuais são recursos simples e diretos para conhecer e compreender os períodos mais representativos da literatura brasileira. Obras como Antologia Comentada de Literatura Brasileira – Poesia e Prosa (vários autores, Vozes) e Curso de Literatura Brasileira (Sergius Gonzaga, Leitura XXI) oferecem um panorama amplo acompanhado por comentários que elucidam cada período tratado.

QUESTÃO COMENTADA

Questão 29 (Enem/2010)

Reclame

Se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
… ou transforme o mundo

ótica olho vivo
agradece a preferência

CHACAL et al. Poesia marginal. São Paulo: Ática, 2006.

Chacal é um dos representantes da geração poética de 1970. A produção literária dessa geração, considerada marginal e engajada, de que é representativo o poema apresentado, valoriza

a) o experimentalismo em versos curtos e tom jocoso.
b) a sociedade de consumo, com o uso da linguagem publicitária.
c) a construção do poema, em detrimento do conteúdo.
d) a experimentação formal dos neossimbolistas.
e) o uso de versos curtos e uniformes quanto à métrica.

Comentário de Pedro Gonzaga

A questão trata de uma das últimas gerações, senão a última, de poetas que podem ser reunidos em um grupo com elementos estéticos semelhantes. Entre os “marginais” está o nome de Chacal, em um poema representativo de seu fazer poético, marcado por versos enxutos e por uma constante ironia, muitas vezes feita de colagens de discursos da mídia e da publicidade. O tom imperativo, ou como chama o Enem, conativo, aqui é parodiado. Por isso, é preciso cuidar com a alternativa B, pois o enunciado fala em valorizar, não em utilizar a linguagem publicitária, o que o poema não faz. As demais alternativas não fazem sentido, pois é um poema em que o conteúdo importa tanto quanto a construção, nada tem a ver com a escola neossimbolista do início do século 20 e também não apresenta uniformidade métrica. Para a adequada resposta à questão era preciso unir conhecimentos de interpretação, período literário e noções formais de poesia. Resposta A.

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