As cem ideias de Antonia Pellegrino

Estreia da escritora na ficção reúne fragmentos de cenas de TV, aforismos, contos e até mensagens SMS

A escritora Antonia Pellegrino lança “Cem ideias que deram em nada”, pela editora Foz - Divulgação / Vicente de Paulo/Divulgação
A escritora Antonia Pellegrino lança “Cem ideias que deram em nada”, pela editora Foz – Divulgação / Vicente de Paulo/Divulgação

Mariana Filgueiras em O Globo

RIO – A primeira ideia do livro é uma ideia de desejo. “O gato branco arranha bolhas de sabão”, deseja o narrador, ou deseja o gato, ou desejam as bolhas de sabão. A última, uma ideia de maldição. “O que você não termina, te acompanha até o fim”, amaldiçoa a obra a si mesma, ou o leitor, ou a escrita. Entre a primeira e a última, um arrazoado de ideias para cenas de TV, aforismos, contos, romances, listas, mensagens de celular, dessas que se tem na fila do banco ou no meio da mamada de um filho recém-nascido. Ideias que não dariam em nada, mas que deram no primeiro livro da escritora e roteirista de TV Antonia Pellegrino, “Cem ideias que deram em nada” (Foz Editora).

— Comecei inúmeros romances, e em diferentes etapas, empaquei. Durante este período, me torno mãe e dona de casa. Ser mãe foi acontecendo de forma espontânea e deliciosa, mas ser dona de casa me era um suplício. Em pouco tempo eu sistematizaria toda a minha casa e estenderia meu ímpeto organizador ao escritório. O computador era o foco. Abri pastas por temas, anos, subtemas. Iniciei uma arqueologia de arquivos. No processo, fui me deparando com diversos fragmentos de possíveis livros. Reuni todos em um só — conta Antonia. — Sempre tive amor pelo fragmento. No inacabado está um elogio ao mundo imperfeito, e isso me interessa. Então, expandi o critério de seleção e trouxe projetos enviados para a televisão, editais, ideias de documentários e filmes para o mesmo arquivo. Subitamente, eu tinha 60 ideias.

Foi por acaso que a autora contou sobre a tal pasta para a amiga Isa Pessoa, da editora Foz, que ficou curiosa e pediu para ler o conteúdo (a esta altura, Antonia já contava 80 delas, com fôlego para as cem). Dias depois, recebeu a resposta: “estas cem ideias são o seu primeiro livro, vamos editar”.

— As cem ideias deram em um livro somente a partir do momento em que eu fui capaz de, honestamente, assumir a minha própria dimensão de fracasso, de uma certa desesperança com a minha escrita. E essa é uma profunda verdade. O “Cem ideias…” é um livro que nasce do meu próprio fracasso com a forma livro.

A primeira ideia a dar em alguma coisa, aliás, foi justamente a primeira: a convite de Antonia, o diretor Mauro Lima escolheu uma das cem propostas para transformar num curta. Ele pinçou a do gato branco e fez um pequeno filme.

As múltiplas possibilidades de expressão literária são tema da investigação particular de Antonia nesta ficção — se umas ideias são curtas prontos, há ainda as ideias surgidas das listas de mercado, de um currículo, de uma trocas de e-mails. Em conjunto, são lidas como uma grande crônica do cotidiano.

— Há no livro um grande conjunto de ideias que criticam, e até debocham, dos ideais do nosso tempo. O “Cem ideias…” é uma construção para lugar nenhum, em meio aos tantos imperativos de eficácia em que vivemos. Realizar, trabalhar, fazer, gozar, aparecer, acumular etc. As cem ideias que deram em nada são seu negativo. São aquilo que não se ajusta, não se fecha, não se realiza em sua plenitude, não vai adiante, permanece inacabado, mero fragmento. Vivemos em um modo tão acelerado que o desejo se acelera também. Estamos desejando demais. A ponto de realizar não ser mais motivo de comemoração, e sim de alívio.

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