Vai bater de frente com a Amazon?

Em sua guerra para baratear livros, a maior varejista on-line do mundo provoca reações de escritores e editoras. O efeito chegará ao leitor

Bruno Ferrari, na Época

O caderno de cultura do jornal americano The New York Times apresentou, em 9 de agosto, um anúncio surpreendente. Numa página inteira, um grupo de 900 autores publicou um manifesto com críticas à Amazon, maior varejista on-line do mundo e criadora do leitor de livros digitais Kindle. “Nenhuma livraria deve desencorajar a compra de livros. Por enganar seus consumidores com preços desleais e atrasos na entrega, a Amazon vai contra sua missão de colocar o consumidor no centro de sua atenção”, afirmava o texto, assinado por escritores famosos como Stephen King e Donna Tartt.

O anúncio custou ao grupo de escritores US$ 104 mil. Ele nos leva a um novo e eletrizante capítulo da longa disputa que a Amazon trava com autores e editoras de livros, em especial a gigante francesa Hachette. O motivo são as estratégias agressivas da Amazon para fazer com que leitores deem preferência a livros digitais, que serão lidos no seu Kindle, em detrimento do papel. No caso da Hachette, a Amazon parou de estocar os livros de papel e aumentou o prazo de entrega. As versões digitais podem ser baixadas no Kindle instantaneamente. A raiz do problema está numa discordância sobre preços. A Hachette cobra, em média, US$ 15 por livro digital, enquanto a Amazon briga para que o valor não ultrapasse os US$ 9,99. “Com um e- book, não há custos de impressão, armazenagem e transporte. Livros digitais não só podem, como devem ser mais baratos”, afirma a Amazon num site em que defende seu ponto de vista e critica profissionais e empresas que considera careiros.

A briga da Amazon para popularizar os livros digitais não se dá somente contra as grandes editoras. Ela já trombou com empresas produtoras de filmes (leia o quadro). Escritores independentes também questionam um serviço lançado em julho, chamado Kindle Unlimited, disponível por enquanto apenas nos Estados Unidos. Com uma mensalidade de US$ 9,99, assinantes do serviço têm acesso a cerca de 600 mil livros digitais e podem baixar até dez títulos ao mesmo tempo. Na teoria, o “Netflix dos livros”, como foi chamado, é bom para todos. O leitor voraz pode experimentar mais livros, e o autor pouco conhecido aparece num site visitado por milhões de leitores. Mesmo com alguns títulos ultrapopulares, como as coleções Harry Potter e Senhor dos anéis, a maior parte do acervo é formada por publicações de escritores sem fama. Mesmo assim, há críticas à novidade.

DOMÍNIO Jeff Bezos, fundador da Amazon. Um grupo de 900 escritores atacou a estratégia dele para os livros (Foto: Mackenzie Stroh/Contour by Getty Images)
DOMÍNIO
Jeff Bezos, fundador da Amazon. Um grupo de 900 escritores atacou a estratégia dele para os livros (Foto: Mackenzie Stroh/Contour by Getty Images)

O catálogo do Unlimited é limitado, porque as cinco maiores editoras de livros do mundo, entre elas Penguin e HaperCollins, não aderiram ao serviço – rumores sugerem que elas não concordaram com a política de achatamento de preços defendida pela Amazon. Dos autores, a Amazon exige exclusividade a quem quiser ser listado. Escritores independentes já inscritos em sites de aluguel de livros, como o Scribd ou o Oyster, são obrigados a abandoná-los para se unir à Amazon. E não podem fechar contrato com outra editora enquanto estiverem lá. “Quem aderir ao serviço estará salgando o terreno onde surgem empresas pequenas e inovadoras de distribuição de livros digitais”, afirmou em seu blog Mark Coker, fundador da Smashwords, um serviço de publicação de livros digitais independentes. O escritor que entra no Unlimited tampouco sabe claramente que valores receberá. Tanto o Scribd quanto o Oyster definem previamente o preço por leitura do livro e repassam 60% ao autor. Na Amazon, o pagamento leva em conta o faturamento total do acervo Unlimited.

A Amazon é a maior investidora na popularização do formato digital e tem a seu lado argumentos fortes – facilitar o acesso a obras e barateá-las. Com o Kindle, o mercado de livros digitais se consolidou. Em 2013, ele respondeu por 30% das vendas de livros nos Estados Unidos, ou US$ 1,3 bilhão, segundo a consultoria Pew Research. No Brasil, segundo a Câmara Brasileira do Livro, a participação ainda é pequena, de 2,3%, mas promissora. O faturamento com as vendas mais que triplicou entre 2012 e 2013 e chegou a R$ 12,7 milhões. É natural que a Amazon use sua força colossal de 250 milhões de usuários para conduzir o mercado. Mas editoras e autores criticam a estratégia rolo compressor para obrigá-los a reduzir os preços, por considerá-la uma amea­ça à qualidade da produção literária e ao trabalho de edição. Jeff Bezos, fundador e presidente da Amazon, terá de dosar quanto pode forçar e acelerar a mudança. Ou poderá machucar escritores, editoras e, no fim das contas, o apreciador de livros.

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