Vida de monarca africano inspira Mia Couto

O escritor Mia Couto, de passagem hoje pelo Brasil, fala sobre seu novo livro, uma ficção baseada na vida do último monarca africano que resistiu à dominação portuguesa

O moçambicano Mia Couto: "sempre amei o jornalismo. Mas me cansei de algumas coisas"
O moçambicano Mia Couto: “sempre amei o jornalismo. Mas me cansei de algumas coisas”

Publicado por O Povo Online

Quarenta anos após ter iniciado sua carreira de jornalista como um militante pró-independência infiltrado num diário português de Moçambique, o escritor Mia Couto, 59, volta ao campo da investigação da realidade para montar seu novo romance.

Trata-se de uma ficção baseada na vida de Ngungunhane (1850-1906), último monarca de um império africano que resistiu à dominação portuguesa.

Por telefone, Couto conta à reportagem como os anos em que participou da Frente de Libertação de Moçambique, nos anos 70, e atuando em meios de imprensa locais, como o jornal Notícias, o formaram como novelista.

“Eu sempre amei o jornalismo e esse contato privilegiado com a realidade. Mas me cansei de algumas coisas”, conta ele.

“Não aguentava cargos de chefia e, quando me enviavam a outra cidade para uma cobertura, sempre achava que precisava de mais tempo para entender o novo lugar em que estava. Como não podia ligar para meu editor e dizer que só mandaria o texto dali a duas semanas, resolvi desistir”, diz.

Sobre o novo livro, Couto diz que se sentiu desafiado a lidar com as diferentes interpretações que se fazem de Ngungunhane.

“Quando foi aprisionado, já estava muito debilitado. Mas os portugueses mesmo assim o celebraram como um importante inimigo vencido, obviamente para engrandecer sua conquista. Já os moçambicanos o reconstruíram de modo exagerado como mártir”, diz.

“Portanto, de alguma forma, as duas interpretações são ficcionais. E essa releitura, que a história faz sempre, com os olhos do presente, era o que mais me interessava investigar.”

O escritor é comumente comparado, no Brasil, a Guimarães Rosa (1908-1967) pelo uso do léxico do interior do país em sua obra. “Eu e minha geração buscamos no interior de Moçambique mais do que uma nova linguagem ou uma nova forma de tratar a língua portuguesa”, diz.

“Tratava-se de um compromisso de inserir aquela realidade na linguagem. Também correspondia a uma ideia de negar a homogeneidade que se buscava dar com a modernidade, mostrando um país complexo cheio de vozes e realidades diferentes.”

Couto, já bastante conhecido no Brasil entre os escritores de língua portuguesa contemporâneos, diz que faltam iniciativas para conectar ainda mais a literatura lusófona.

“Esse intercâmbio que passou a haver nos últimos anos é bem menor do que nos anos 60 e 70, quando havia regimes autoritários de ambos os lados que uniam os intelectuais”, explica.

Hoje, lamenta, Moçambique vive forte influência da televisão brasileira. “Não gosto do modo como o Brasil é mostrado lá, as pessoas ficam com uma sensação equivocada, de que é um mundo de pessoas ricas e brancas, principalmente veiculado pelas telenovelas.”

“Quando chegamos aqui há um choque, porque a realidade é mais complexa e veem-se as injustiças”, completa. (Sylvia Colombo, da Folhapress)

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