Em ‘Skagboys’, Irvine Welsh conta a história pregressa dos personagens de ‘Trainspotting’

Autor escocês lança a terceira parte da trilogia no Brasil

O escritor escocês Irvine Welsh - / Divulgação
O escritor escocês Irvine Welsh – / Divulgação

Liv Brandão em O Globo

RIO – Entre um livro e outro, uma peça e outra, um roteiro de filme e outro, Irvine Welsh sempre volta aos seus primeiros personagens, àqueles que o consagraram. O autor escocês lança agora no Brasil “Skagboys” (Rocco, com tradução de Daniel Galera e Daniel Pellizzari), que conta como Renton, Spud, Begbie e Sickboy, criados em “Trainspotting”, de 1993, e revisitados em “Pornô”, de 2002, se tornaram os junkies eternizados pelo filme de Danny Boyle, estrelado por Ewan McGregor, em 1996.

Faz mais de dez anos desde o lançamento de “Pornô” e mais de 20 desde que “Trainspotting” chegou às prateleiras. O que faz você voltar a Renton, Spud, Begbie e Sickboy de tempos em tempos?

Gosto deles enquanto personagens. Eles são muito de seu próprio tempo, mas também são arquétipos universais. Então eles são um conjunto fantástico de ferramentas para um escritor ter à mão.

“Skagboys” nos mostra mais sobre os bastidores do início da vida destes personagens nas drogas. Qual a importância de voltar ao passado e quão fácil (ou difícil) foi fazer isso?

Achava importante reumanizá-los. Mostrar que eles são apenas caras normais que entraram em uma tempestade de merda que eles simplesmente não entendiam. Remontar a juventude destes personagens foi bastante simples, é como voltar a se aproximar de velhos amigos. Tentei não forçar isso, deixei os personagens me contarem o que eles passaram.

Como foi o processo de escrever “Skagboys”? Suponho que você tenha tido que reler “Trainspotting”.

Sim, e eu odeio ler meus próprios livros. Assim que termino de escrevê-los dou por encerrada minha relação com eles. Mas apesar disso, o processo é o mesmo de tudo o que eu escrevo: eu me vejo em uma sala com pessoas que não existem e minha esperança é conseguir sair dessa sala com algo decente antes que eu enlouqueça.

Como é escrever a história que antecipa “Trainspotting” depois de ver esses personagens ganharem vida no filme, tão icônico?

Eu tive que tentar superar o filme. Até porque é apenas uma aproximação do mundo que eu criei, mas não exatamente aquele mundo. Então eu tive que voltar aos livros para ter a real noção disso.

Como a forma com que os personagens terminam em “Pornô” afetou a história pregressa deles em “Skagboys”?

Boa pergunta, mas eu não tenho certeza. Acho que eu tinha que ter a consciência de onde eles estavam indo. O livro levanta a questão sobre o quanto você muda quando você cresce, envelhece, mas não tenho tenho certeza se sei a resposta para isso.

Além de ser um livro sobre como aqueles personagens se tornaram junkies, é um livro sobre a década de 1980 no Reino Unido, durante a Era Tatcher. Essa fase te marcou, te traumatizou?

Acho que todos nós (os britânicos) somos traumatizados de certa forma, já que ainda estamos vivendo na era do neo-liberalismo, em uma época global, corporativa e controlada pelo estado, modelo que foi criado na década de 1980. Em certo nível, nós temos que seguir em frente e mudar isso, porque isso está nos matando. Nós também precisamos seguir com nossas vidas e aproveitá-las. Às vezes, as duas coisas parecem não funcionar juntas, mas elas funcionam.

Você gostaria de ver “Skagboys” adaptado para outra mídia, como “Transpotting”?

Sim, e eu vejo essa história em uma série. Você pode fazer muito mais por uma dramaturgia orientada pelas histórias dos personagens hoje em dia na TV.

Seu material pode ser bastante engraçado. Você acha que o humor é subestimado na literatura?

Se você pede para um leitor embarcar com você em uma jornada sombria, você precisa oferecer a ele algum humor e leveza durante o caminho. Muitos romances são respeitáveis e sérios demais para o meu gosto.

Muita gente encara prequels e sequências de filmes como manobras comerciais — você acha que o mesmo funciona para os livros?

Eu pessoalmente acho que prequels e continuações são mais comerciais, pois envolvem histórias familiares do público e construção de marca. Mas isso não é motivo para não fazê-las. Às vezes, os personagens que você já usou antes são as melhores ferramentas para o projeto que você deseja realizar.

Você tem planos de escrever mais sobre esses personagens?

Estou sempre escrevendo sobre eles, suas histórias nunca estarão completas.

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