“Começamos a sair da indigência educacional”, afirma educador Mario Sergio Cortella

Rodrigo Andrade, no De Fato Online

educador Mario Sergio Cortella
Professor Mário Sergio Cortella aponta que embora tenha evoluído nos últimos 30 anos, Brasil ainda precisa galgar muitos passos na área da educação. DIVULGAÇÃO

“Saímos da UTI, mas continuamos na enfermaria”. A constatação é do professor, filósofo e escritor Mario Sergio Cortella ao analisar o cenário da educação brasileira. Uma das principais vozes dessa área no país, o especialista acredita que a situação melhorou nos últimos 30 anos, mas que ainda estamos distantes do ideal. O momento é de evoluir e aproveitar os novos métodos e pensamentos, mas sem deixar de lado tudo o que já se construiu.

Nascido em Londrina/PR, Mario Sergio Cortella, 60 anos, tem mestrado e doutorado em Educação. Atuou por 35 anos como professor titular da PUC-SP, leciona como convidado na Fundação Dom Cabral e ensinou no Programa de Educação Continuada da Fundação Getúlio Vargas (GVPEC). Possui mais de 20 livros publicados e também já atuou como secretário Municipal de Educação de São Paulo, entre 1991 e 1992.

Cortella é figura carimbada quando a educação está em debate. Tem colunas em importantes órgãos de imprensa e frequentemente está em programas de rádio e televisão. Na juventude experimentou a vida monástica em um convento da Ordem Carmelitana Descalça, mas abandonou a perspectiva de ser monge para seguir a carreira acadêmica. Estudou Filosofia e depois se dedicou à Educação. Partiu para o mestrado e em seguida para o doutorado. Nesse último nível, teve orientação de ninguém menos que Paulo Freire, considerado o Patrono da Pedagogia no Brasil.

No último dia 5 de agosto esteve em João Monlevade para ministrar palestra aos professores do município. Antes, porém, recebeu a equipe de DeFato para uma entrevista. O local não poderia ser mais adequado, uma biblioteca. Espaço para ideias e inspirações. E Cortella as tem em abundância. Confira:

O senhor sempre cita uma frase, de que “a vida é muito curta para ser pequena”. Qual o significado disso?
Essa frase é de um grande pensador britânico do século XIX e é curioso, porque algumas pessoas acham que essa frase é minha. Eu a cito, mas é de autoria do Benjamin Disraeli, que foi primeiro ministro da rainha Vitória. E o que ele quer dizer com essa frase é que nós já temos uma vida que não tem extensão muito grande, e apequená-la, isso é, torná-la banal, fútil, inútil ou superficial, é o que a gente não deve fazer. Por isso, uma vida com um propósito, uma vida com um sentido, com uma razão de ser é o que temos que procurar. Afinal de contas, a vida é um mistério estupendo e, acima de tudo, para nós é uma dádiva. Perdê-la com tolice, com superficialidade, com egoísmo, com desperdício de existência é uma forma de apequená-la. Esse é o sentido da frase.

O que apequena a vida da gente hoje?
Em grande medida duas coisas que são extremamente negativas: de um lado o individualismo exacerbado, isso é, a aceitação malévola de que a regra da vida é cada um por si e Deus por todos, ao invés de ser o que tem que ser que é um por todos e todos por um; e em segundo lugar uma “consulmolatria”, um desespero adorado pelo consumo no qual se confundi abundância com desperdício, com sobra inútil. Temos, portanto, a formação das gerações dentro dessas perspectivas. Há uma frase antiga de que o mundo que nós vamos deixar para os nossos filhos depende dos filhos que nós vamos deixar para o mundo. E há uma formação hoje dos jovens dentro dessa lógica de consumo. Não de uso das coisas, mas de um consumo desesperador, a tal ponto de que hoje, para uma parte das famílias, aliás para quase a totalidade, e para as crianças, sair de casa para passear é sinônimo de comprar alguma coisa. Isso é, se não comprou algo, parece que não saiu. Sendo que se deve sair para caminhar, para ver a lua juntos, para ver formiga trabalhar, para sentar na beira da grama. Ou seja, coisas que dão o sentido que não é um uso tolo das coisas que se tem. E é claro que as duas coisas se conectam, porque no mundo da empresa, no mundo da família, no mundo da cidade, quem admite essa ideia do individualismo tem como lema a ideia do fazemos qualquer negócio. E há negócios que não devem ser feitos. Aqueles que tornam a vida imunda, que tornam a tua trajetória banal e a tua existência indigna. Portanto, desse ponto de vista isso é marcante nos tempos atuais, mas não é invencível. Isso é só uma característica. Na história da humanidade, grandes momentos graves também puderam dar a luz a uma nova situação.

No doutorado, o senhor foi orientado por Paulo Freire, que propôs um método diferente para a pedagogia, com base no criticismo. Ele recebeu o título de “Patrono da Educação Brasileira”. O Brasil que dá essa consideração a Paulo Freire, segue seus preceitos?
Uma parte. Você tem uma parte de pessoas no país que utiliza a metodologia Paulo Freire. A gente precisa fazer uma distinção entre metodologia e método. Metodologia é tua concepção sobre educação, a sua filosofia sobre o trabalho pedagógico. Método é o procedimento, o caminho. Por exemplo, você tem o método Paulo Freire para alfabetização de adultos, que não tem serventia direta para as crianças, mas tem uma metodologia Paulo Freire que serve para a educação em geral. Que é a ideia de que a escola tem de estar conectada com a realidade do aluno, a percepção dialógica de convivência, a formação permanente de educadores escolares. Portanto, a filosofia de educação Paulo Freire, sua metodologia, ela se estende para várias áreas, em qualquer nível de ensino. Já o método, aquele com o qual ficou mais conhecido na aula Pedagogia do Oprimido, é mais específico para educação de jovens e adultos. Não é exclusivo, mas é o mais recomendado. Agora, o Brasil em relação ao método Paulo Freire, o Mova, que é o Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, existe pelo país afora, é apoiado por várias prefeituras, independentemente do partido. A metodologia ocupa com grande força parte do trabalho que fazemos. Lembrar que tudo isso é Paulo Freira já é mais rarefeito. Paulo Freire escreveu tudo isso há quase 50 anos, e produziu uma experiência concreta há meio século. No ano passado completamos exatamente 50 anos da experiência realizada em Angicos, no Rio Grande do Norte. Portanto, nesse meio século, nós lemos e discutimos tanto isso que Paulo Freire escreveu, que hoje a gente volta a ler Paulo Freire e acha ele óbvio. E a gente só o acha óbvio porque foi exatamente ele que disse aquilo que nós passamos os últimos 50 anos estudando em outros lugares. Por isso ele é menos reconhecido até no nosso país, mas tem uma presença mundial que é marcante. E ele é o patrono da educação brasileira tal como Caxias é do Exército, Tamandaré da Marinha.

Em recente entrevista a DeFato, o especialista em empreendedorismo Fernando Dolabela criticou o modelo educacional atual, por considerar que “mata a criatividade” dos alunos. Concorda?
Sim. Se você observa, nós temos uma grande disfunção, quase que um anacronismo dentro dessa atividade. Por exemplo, nossos alunos são do século XXI, nós docentes somos do século XX e uma parte das metodologias e organizações é do século XIX. Claro que há uma anacronia, uma perda de relação de tempo quanto a isso. Uma parcela do que a escola faz é ultrapassada, mas nem tudo. A gente não deve confundir na vida aquilo que é antigo com aquilo que é velho. Tem coisas na educação escolar que são antigas, mas não são velhas. A aula expositiva é antiga, mas não é velha. A atenção aos conteúdos é antiga, mas não é velha. A relação com a comunidade escolar é antiga, mas não é velha. O que é velho? É o autoritarismo, o desprezo à participação do docente e do discente na relação de gestão, a descaracterização da presença do aluno na capacidade de também ele gerar conhecimento, isso tudo é velho. Por isso, em mundo de mudanças, nós usamos cautela para não sermos mudancistas, isso é, acabarmos caindo em uma armadilha que é nos fixarmos de mais na novidade e deixar aquilo que é novo de lado. Tem muita coisa que é mera novidade. A novidade vem, produz uma certa mudança e vai embora. E tem coisas que são novas. Elas ficam no tempo. A obra de Guimarães Rosa é nova, o pensamento de Platão é novo, a música de Catulo da Paixão Cearense, a pintura de Aleijadinho. Isso não é novidade, persiste no tempo e não fica ultrapassado, mantém vitalidade. Por isso, Dolabela está correto ao levantar que uma parte daquilo que hoje é escola é, de fato, anacrônica, mas nem tudo.

Então, em que estágio estamos?
Temos de ter cautela para não supor que se possa desmontar tudo aquilo que se faz e se fez na área da educação e construir outra coisa. Educação lida com processo. E o processo se dá com pessoas no tempo. Por isso que se olharmos hoje a educação brasileira, não podemos ter uma visão catastrofista, que é de achar que as coisas não funcionam, e nem triunfalista, de achar que já resolvemos tudo. Nosso país, nos últimos trinta anos, começou a sair da indigência educacional. Nos dois governos do Fernando Henrique, nos dois do Lula e agora da Dilma nós começamos a sair da indigência. Saímos da UTI, mas continuamos na enfermaria. Ainda não tivemos alta e demoraremos um pouco para tê-la, mas nós estamos numa condição absolutamente superior ao que nós tínhamos em outros tempos. O que significa que a escola tem que se preparar para isso. Aliás, essa é a razão para a minha palestra aqui em Monlevade.

Pois é, o que é dito nessa palestra? O senhor aconselha professores?
Não. Não aconselho, eu trago reflexão. Eles são especialistas em algo que eu não sou, que é educação básica. Seria curioso que eu os aconselhasse, eu nunca alfabetizei uma criança, nunca ensinei fora do ensino superior. Eles é que podem me aconselhar em relação a isso. Eu posso, sim, trazê-los a refletir um pouco sobre a atitude docente, em relação à perspectiva avaliativa metodológica, à presença do conhecimento no nosso cotidiano, tudo aquilo que é minha área, como alguém do campo da filosofia e da educação. Por isso a intenção não é nem admoestá-los, não é chamar atenção deles negativamente e nem ensiná-los algo que eles já sabem melhor do que eu. Mas é não deixá-los tranquilos, supondo que as coisas só porque eles já sabem fazer desse modo seja o único jeito possível. Tem um viés que é incomodativo, mas no sentido pedagógico do tema. Provocar um pouco a reflexão de maneira que os educadores sejam capazes de fazer melhor aquilo que estão fazendo.

O que pensa do sistema de cotas?
Eu sou absolutamente favorável a sistema de cotas emergencialmente no campo da atividade escolar, no serviço público e em algumas das estruturas em que se passa por um sistema seletivo de duas maneiras: o processo seletivo por entrevista, que de maneira geral descarta aquele que não tem o padrão usual, isso na área privada; e na área pública a possibilidade de se retomar o fôlego que se perdeu com uma situação agravada com alguns séculos de escravatura. Portanto, é uma solução emergencial que não pode durar mais do que três décadas, e nosso país talvez adiante isso para duas. A nação norte-americana fez políticas afirmativas por três décadas e tem hoje um presidente que é afrodescendente. Jamais haveria uma Condoleezza Rice, ou um Colin Powell como general do exército se não fosse a política afirmativa. Obama nunca teria entrado em Harvard, por mais que ele seja capacitado. Quando alguém diz para mim assim: mas isso é um privilégio. Eu respondo: Não, isso é uma recuperação de uma injustiça por um período determinado. Quando alguns argumentam comigo que desejariam que tudo fosse na base da igualdade, minha pergunta é mais simples: Você é a favor de retirar as UTIs dos hospitais? Porque o argumento é o mesmo. Por que alguns são atendidos nos quartos de enfermaria e outros têm direito a uma UTI com boa aparelhagem. Ué, porque ele está em uma situação pior. Ótimo, isso é a cota. Aquele que está em uma situação desvalida durante um período recebe um atendimento prioritário. Assim que a gente conseguir equalizar e não houver mais necessidade de se colocar alguém em uma UTI, aí não haverá UTI para ninguém.

O senhor tem um livro de título “Política para não ser idiota”. Em época de eleição, como se enquadra esse termo “idiota”?
Há uma frase antiga, que está nesse livro, que diz que os ausentes nunca têm razão. Portanto, numa estrutura de diversidade, de confronto, colocar-se como neutro ou ausente é ser cúmplice da negatividade. As pessoas precisam entender que a democracia tem as eleições como um patrimônio e não um encargo. E muitas vezes a gente olha o período eleitoral como sendo um encargo. Eu preciso ouvir um programa, preciso ler, preciso assistir, preciso ir votar. Isso não é encargo, é patrimônio. É só você ter um movimento inverso, isso é, a ausência de democracia, para perceber o quanto isso é um patrimônio. Por outro lado, o cidadão tem responsabilidade em relação a essa questão. Afinal, é ele que faz a escolha. E se é ele que faz a escolha, ele que faça a escolha certa para não ser alvo de si mesmo.

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