Editora usa gibi literário para atrair leitor jovem

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Roberto Ito, na Folha de S.Paulo

Quando os alunos de uma escola no Brooklyn leram “Theseus and the Minotaur”, o mito grego recontado pelo cartunista francês Yvan Pommaux, gostaram da história de imediato, segundo seu professor, Daniel Tandarich.

E por que não? O livro, o primeiro gibi da Toon Graphics, é repleto de assassinatos tenebrosamente criativos, proezas de força sobre-humana, deuses malcomportados e feras sedentas de sangue.

De acordo com Tandarich, uma cena em que um touro enfurecido escorna um jovem cretense foi favorita especial dos alunos.

Mas o que “Theseus and the Minotaur” tem de melhor, pelo menos para esse público, é o fato de ser um gibi. “Não é preciso explicar a uma criança como ler um gibi”, disse Françoise Mouly, fundadora da Toon Graphics.

As crianças, segundo ela, “prestam atenção aos detalhes e estão acostumadas a processar informações para extrair o significado delas. É assim que elas encontram sentido no mundo. E os gibis são bons diagramas de como extrair significado da palavra impressa.”

A Toon Graphics é um selo da editora independente Raw Junior, fundada por Mouly em 1998. Ela abriu a Toon Graphics, que produz gibis para crianças de a partir de três anos de idade, em 2008.

Mouly disse que espera ampliar esse aprendizado para crianças mais velhas. Mas admite que a luta pela aceitação às vezes é árdua.

“Para se desenvolver como leitoras, as crianças precisam de muita experiência no processamento de palavras”, explicou Timothy Shanahan, professor emérito de educação urbana na Universidade do Illinois em Chicago.

“Se um jovem passa uma hora lendo um gibi e uma hora lendo um livro, provavelmente processa mais palavras quando lê um livro. Não é que os gibis sejam ruins —é o que eles podem substituir.”

Com tantas mídias competindo pela atenção de crianças, porém, professores e bibliotecários estão mais interessados em usar histórias em quadrinhos nas escolas.

“Antigamente os bibliotecários se enxergavam como guardiões a quem cabia selecionar os livros e levá-los às crianças”, comentou o crítico Leonard S. Marcus.

“Mas hoje o que se procura é simplesmente encontrar alguma coisa que a criança queira ler, na esperança de que, com o tempo, isso lhe abra o mundo da leitura”.

Este mês a Toon Graphics vai lançar “Casta Away on the Letter A”, a história de um adolescente que cai num poço e emerge num mundo fantástico. A história faz referências a “Robinson Crusoé” e à pintura “A Balsa da Medusa” (1918-19), de Théodore Géricault.

“Hansel & Gretel”, uma nova versão do conto dos irmãos Grimm “João e Maria” criada por Neil Gaiman e o ilustrador Lorenzo Mattotti, sairá em outubro.

Gaiman é aclamado por suas narrativas imaginativas baseadas em personagens fictícios clássicos que vão de Batman a Beowulf, passando por Sandman.

Para o escritor, não existe livro inapropriado para uma criança. “De tempos em tempos as pessoas dizem que as crianças não deveriam ler livros como ‘Capitão Cueca’ e ‘Goosebumps’. É bobagem.”

Os livros publicados por Mouly estão longe de ser pesos leves literários. Seus autores receberam alguns dos maiores prêmios, como o Eisner, do setor de HQs, os Newbery’s, da Associação Americana de Bibliotecas, e o Pulitzer.

Mouly aconselha pais e professores de potenciais leitores. “Não desconfiem de algo apenas porque eles adoram e não chamem os gibis de graphic novels”.

“Precisamos deixar esse eufemismo de lado”, ela opinou. “Falamos de um livro de 32 páginas, com 300 palavras. Não é preciso fingir que é um romance. É uma história em quadrinhos. Um gibi.”

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