Resenha de “O Que Me Faz Pular”, de Naoki Higashida

Camila, no Leitora Compulsiva

o que me faz pular
Título: O Que Me Faz Pular

Autor(a): Naoki Higashida

Editora: Intrínseca

Ano: 2014

Páginas: 192

Tradução: Rogério Durst

Primeiro capítulo do livro

Sinopse no Skoob

***

 
 
Nos meses de abril e maio desse ano rolou mais uma edição da Turnê Intrínseca, um projeto da editora que percorre várias cidades do país para conversar com os leitores sobre os livros da Intrínseca. Uma das coisas mais bacanas desse projeto é que o pessoal da editora apresenta muitos dos livros que já foram ou ainda serão lançados, mas que eles já leram. Então falam como leitores e não apenas como funcionários da editora. Logo de cara eu já afirmo que esse não é o tipo de livro que eu leria normalmente. Se eu o encontrasse em uma livraria e lesse a sinopse, é praticamente certo que eu não compraria o livro. Mas a verdade é que, ao sentir a emoção da Heloísa ao falar sobre esse livro durante a Turnê, eu não resisti e imediatamente coloquei o livro na minha lista de desejados. Como eu ainda não podia comprar nada novo, recorri a uns pontos que eu tinha na FNAC e solicitei o livro, que custa até que barato!!

Assim que o livro chegou fiquei maravilhada com a capa. Infelizmente a imagem dela aqui pelo computador não reflete o quão linda ela é pessoalmente, com essas borboletas brilhando e tudo mais. Não é um livro muito grande e por isso dá para ler rapidinho, o que não significa que seja um livro fácil…

O livro foi escrito originalmente em japonês por um menino autista de 13 anos chamado Naoki Higashida, que se utilizou de formas não convencionais de comunicação para expressar tudo aquilo que ele sentia. Posteriormente o livro foi traduzido para o inglês por David Mitchell, que tem um filho com as mesmas condições de Naoki e se interessou muito pela história do garoto japonês.

Podemos dizer que o livro é dividido em duas partes. Na primeira delas encontramos uma espécie de manual do autista. Por meio de perguntas e respostas, Naoki nos ensina porque os autistas fazem certas coisas, do que eles gostam, do que não gostam e principalmente fala como os autistas se sentem em relação à própria condição.

Foi realmente emocionante encarar várias passagens desse livro…

Dêem só uma olhada em alguns trechos disponibilizados pela Intrínseca:

“Quando eu era pequeno, nem sabia que era uma criança com necessidades especiais. Como desco­bri? Com os outros me dizendo que eu era dife­rente de todo mundo, e que isso era um proble­ma. Pura verdade. Para mim, era muito difícil agir como uma pessoa normal. Até hoje eu não consigo ‘fazer’ uma conversa de verdade”.

“Crianças com autismo também crescem e se desen­volvem a cada dia, mas, mesmo assim, somos tra­tados como bebês para sempre. Imagino que seja porque parecemos nos comportar como se fôssemos mais novos do que somos, só que, toda vez que falam comigo como se eu ainda fosse uma criancinha, fico realmente incomodado. Não sei se as pessoas acham que vou entender melhor a linguagem tatibitate ou se acham que prefiro ser tratado dessa forma.(…) Cada vez que alguém me subestima, eu me sinto extremamente infeliz — como se não tivesse nenhuma chance de um futuro decente. Compaixão de verdade significa não pisar na au­toestima alheia. Pelo menos é assim que eu penso.”

“’Quantas vezes eu tenho que dizer isso?!’ Nós, pessoas com autismo, ouvimos isso o tempo todo. Eu sou constantemente repreendi­do por fazer as mesmas coisas de sempre. Pode parecer que fazemos por maldade ou por pirraça, mas, juro, não é o caso. Quando somos adverti­dos, nos sentimos mal por mais uma vez termos feito algo que já nos haviam avisado que era errado. Só que, quando aparece a oportunidade, já nos esquecemos do que aconteceu na última vez e somos levados a fazer tudo de novo.

Você gostaria de ser “normal”? “Em poucas palavras, aprendi que cada ser hu­mano, com ou sem deficiências, precisa se esforçar para fazer o melhor possível e, ao lutar para conse­guir a felicidade, ele a alcança. Veja bem, para nós o autismo é normal, então não temos como saber o que os outros chamam de ‘normal’. Porém, a par­tir do momento em que aprendemos a nos amar, não sei bem se faz diferença termos autismo ou não.”

Muitas das respostas dadas por Naoki são como um verdadeiro tapa na nossa cara! Nos julgamos tão normais e tão capazes… Por vezes nos sentimos melhores que os outros e agimos com superioridade… Julgamos os outros e apontamos defeitos das pessoas sem pensar em seus sentimentos. Achamos que sabemos o que é certo e errado. Condenamos aqueles que são diferentes de nós. E por quê? Será que não é possível conviver com as diferenças? Será que não podemos aprender mais sobre os outros?

Os autistas são grandes vítimas da ignorância das pessoas, que os tratam como retardados, como malucos, como incapazes! E o que Naoki nos mostra é que isso é a maior bobagem. Com apenas 13 anos ele foi capaz de se expressar de maneira brilhante, de mostrar ao mundo que o autista é perfeitamente normal, dentro de uma normalidade diferente!

E quem disse que um autista não pode ser um escritor?! A segunda parte do livro traz um lindo conto escrito por Naoki, mostrando que os autistas podem ter inúmeros talentos!

O livro é uma graça e vale a pena ser lido. É uma excelente indicação principalmente para quem convive com autistas, mas também para pessoas com sensibilidade e com vontade de entender como funciona um mundo diferente daquele que julgamos ser o normal!

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One thought on “Resenha de “O Que Me Faz Pular”, de Naoki Higashida

  • 11 de agosto de 2015 em 15:16
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    Acabei de ler. Agora, depois de 30 anos, sei o porquê de “tudo”. O que era uma forte desconfiança, hoje é certeza (só falta um papel chamado laudo rsrs). Graças à um menino que escreveu um livro aos 13 anos. Minha gratidão à Naoki Higashida, pela luz que é o livro “O que me faz pular”. Foi (e será) de grande ajuda para mim e para meu filho (ambos com síndrome de asperger – forma leve do autismo), principalmente se quem convive conosco lê-lo e permitir-se absorver o conteúdo, os ensinamentos.
    Quem quer bem, quem ama alguém com autismo e quer compreendê-lo, leia 😉

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