Vamos jogar?

Ique Carvalho, no The Love Code

papaiblog

Trilha:
https://www.youtube.com/watch?v=_k5nh4oKK_k

A primeira Copa de que me lembro foi a de 90,
eu tinha 10 anos.
O Brasil foi desclassificado.
Meu pai desligou a TV,
pegou uma bola e disse:
“Vamos jogar?”
Claro! – eu respondi.
Foi a primeira vez,
que jogamos futebol juntos.
Naquela partida,
não teve vencedor ou perdedor.
Apenas, pai e filho,
curtindo um ao outro.
A Copa de 94 me marcou.
O Brasil foi campeão.
Meu pai desligou a TV,
pegou a minha mão e,
descemos dezesseis andares gritando:
“É TETRA!.”
Meu pai tirou a roupa e,
pulou na piscina de cueca.
Foi a única vez,
que vi meu pai quebrar uma regra.
Em 98, meu pai viajou.
No último jogo, ele ligou e disse:
“Ique, vá viver.”
Desliguei e fui pra rua.
Naquela final,
conheci a Júlia.
Uma garota meiga,
tímida e que
não entendia nada de Copa.
O jogo terminou.
O Brasil perdeu e,
começou a chover.
No meio daquela multidão,
eu e a Júlia saímos correndo,
de mãos dadas e,
dando risadas.
Quando paramos, nunca vou esquecer
aquele sorriso lindo,
que sem palavras, dizia:
“Fica comigo.”
Abracei-a pela cintura,
coloquei a mão na sua nuca,
a puxei e .. — alguns suspiros duram mais que um segundo –
… fechei os olhos e dei aquele beijo doce, sabe?
Muitos dizem,
que aquela foi a copa do Zidane.
Pra mim,
foi a copa da Júlia.
Em 2002, a copa da madrugada.
Eu e meu pai,
não morávamos na mesma cidade.
Ele era o meu despertador,
me ligava todos os dias,
antes dos jogos.
O Brasil foi campeão.
Sai pela rua,
de pijama, chinelo e,
cara amassada.
A minha namorada,
não parava de rir e dizer:
“Amor, você é uma piada.”
Então, 2014.
Sempre quis uma Copa no Brasil,
para ir ao estádio com meu pai,
meus amigos,
abraçar um desconhecido e gritar:
“VAI BRASIL!!”
Infelizmente,
há 1 ano, 7 meses e 4 dias,
o meu pai ficou doente.
Não pode mais falar,
nem andar.p>
Mas pode sorrir e,
sonhar.
E foi isso que fizemos nessa Copa.
Nas oitavas de final,
para homenagear e,
lembrar o tetra.
Eu e meu pai,
assistimos o jogo de cueca.
Nas quartas de final,
quando o jogo terminou,
ele escreveu no ipad:
“Ique, vá viver.”
Tirei ele da cama e,
o coloquei na cadeira de rodas.
Fomos pra rua.
Ficamos parados no passeio,
abraçando desconhecidos e,
meu pai mostrando o ipad escrito:
“VAI BRASIL!”
No final da noite,
quanto estávamos subindo,
meu pai escreveu:
“Obrigado meu filho,
por ainda me fazer sentir vivo.” – e uma lágrima caiu.
Às vezes, você não sabe.
Mas um simples gesto,
pode mudar a vida do outro.
Na semi final,
o Brasil foi desclassificado.
Desliguei a TV,
peguei uma bola e disse:
“Vamos jogar?”
Meu pai escreveu no ipad:
“Claro!”
Coloquei a bola na sua cabeça e,
gritei:
“TIRA DAVID LUIZ!” – ele abriu um sorriso.
E, olhando aquele sorriso,
pude aprender:
As maiores partidas,
vão deixar cicatrizes
impossíveis de esquecer.
Só não se esqueça de saber,
que nunca é tarde,
pra viver.

papai

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