Resenha ‘Linhas invisíveis’

Cristine Tellier, no Cafeína Literária

Linhas invisíveis

J. Pedro Baltasar

Há uma linha que nos une a todos. Paira sobre nós, suspensa e inocente.
Observa-nos… Estuda-nos.
Se puxada por uns, pode provocar a queda de outros. Porque de uma forma ou de outra, como num tabuleiro de xadrez, todas as nossas vidas se cruzam. Todos os nossos actos.
Há uma outra linha, porém, mais ténue e dissimulada, que marca a fronteira entre o bem e o mal.
Poderemos nós,… qualquer um de nós atravessá-la e, passar de pacato e inofensivo cidadão a… assassino implacável?
Que razões nos podem levar a fazê-lo?
O ódio e a vingança?
O sofrimento?
O amor?
É que… todos estamos ligados por…
… Linhas Invisíveis
(fonte: quarta capa do livro)

linhas invisiveis - capa

O assassinato do empresário Robert Brannagh é o primeiro de uma série de crimes que ocorrem em Eghan, Inglaterra. O chefe da polícia local encarrega da investigação Michael Burnett e Karen “Foxy” Brookes – dois investigadores que, mesmo se considerando concorrentes, acabam formando uma boa dupla. O assassino envia cartas às vítimas, dias antes de suas mortes, num papel timbrado com o desenho de uma coruja, cujo texto alude a jogadas de xadrez.

Essa é uma da linhas narrativas, que se passa em 2010. Há outra, que narra eventos ocorridos em 1979, época em que alguns dos personagens estavam em idade escolar. Apesar de a utilização de dois fios narrativos ser uma boa solução estrutural, neste caso peca pela aparente falta de planejamento. Além de as idas e vindas serem muito frequentes, interrompendo demais a ação e quebrando o ritmo de leitura, a ausência de um padrão e de, muitas vezes, uma identificação de qual período está sendo abordado causa confusão ao leitor. A fluidez da leitura fica bastante comprometida.

Outro problema é que, em vez de a linha narrativa do passado complementar a linha “atual” e dar consistência aos personagens, ela dá pistas e insumos ao leitor para que este descubra logo quem é o culpado pelos crimes. Em certo ponto do livro – faltando mais ou menos um terço – o autor faz com que a história deixe de ser impelida pela questão “quem fez?” e passe a ser impulsionada por outra, “por que fez?”. Contudo, ao invés do leitor descobrir junto com os personagens quem é o principal suspeito, para leitores habituados a romances policiais essa descoberta ocorre muito, muito antes. Não creio que tenha sido essa a intenção do autor. Pessoalmente, meu interesse decaiu exponencialmente a partir daí. Não apenas por já ter “matado a charada”, mas porque o autor não conseguiu segurar a bola ao passar do whodunit para o whydunit.

E neste ponto, chegamos a outra consideração a ser feita – o excesso de texto ou, em português popular, a “encheção de linguiça”. A trama em nada perderia se boa parte do texto tivesse sido removida. E isso é ainda mais perceptível na segunda metade do livro, depois que o principal suspeito é identificado. O autor quis enfatizar e detalhar demais os fatos do passado que culminaram nos assassinatos. Há trechos extensos explicando as motivações do criminoso, que poderiam ser resumidos a algumas linhas. Uma prosa mais enxuta teria sido bem mais adequada ao clima de suspense do livro. Some-se a isso a tendência do autor de subestimar o leitor, povoando as páginas com uma quantidade excessiva de notas de rodapé – a maioria delas desnecessária. Não há nada que atrapalhe mais o ritmo da leitura do que parar para ler uma nota. E em um livro de suspense, o interesse do autor deve ser de manter o leitor preso ao texto, sustentando a tensão. Tem-se a impressão, em vários trechos, de que ou o autor acha que o leitor é ignorante ou que esteve fora da Terra nas últimas décadas. Quem precisa de uma nota de rodapé explicando o que é uma Budweiser?

autor_jpedrobaltasar
J. Pedro Baltasar

A dupla de protagonistas funciona bem, com personagens bem construídos, mesmo sendo estereotipada e passando por situações muito comuns a esse modelo – parceiros contra a vontade, com personalidades díspares. O personagem melhor construído é o criminoso, mas como já dito o excesso de informações acaba por atrapalhar a fluidez da narrativa.

A trama é bem envolvente e desperta o interesse principalmente pelo uso que o criminoso faz do tabuleiro de xadrez. Já dizia Bobby Fisher – enxadrista norte-americano, gran mestre e campeão mundial: “Chess is life.”. Apesar de as “jogadas” utilizadas no livro não serem de fácil entendimento para leigos, não é preciso ser um expert para perceber que não há melhor metáfora para a vida do que um jogo de xadrez. Porém, o autor poderia ter feito um melhor uso da estretégia que se aplica ao xadrez ao estruturar a trama, evitando assim que as pistas ficassem óbvias demais no início.

Vale um Capuccino
★★★★

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