A culpa é dos marcadores marrons

Duds Saldanha, no Indiretas do Bem

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Vejam bem, vocês. Eu, no auge dos meus 21 anos, posso finalmente dizer que trabalho com todas as coisas que eu gosto – eu sou designer, eu sou ilustradora e existem pessoas na internet que realmente querem ler aquilo que eu escrevo. Eu, que sempre quis ser feliz acima de tudo, acima de qualquer dinheiro, posso dizer que estou cada vez mais perto de atingir esse objetivo.

“Mas nem sempre foi assim”, é assim que todas essas histórias de superação começam. “Eu nem sempre fui satisfeita com o modo como eu levava as coisas, com a garota que eu olhava no espelho, com minha falta de curvas, com a sobrancelha grande que eu tenho uma sincera preguiça de fazer”. Mas não é exatamente disso que esse texto se trata, então vocês estão com sorte.
O que me traz de volta a todo o lance de listar as coisas com as quais eu trabalho. Mais especificamente à ilustração.

Eu sempre fui uma criancinha sapeca que gostava de desenhar em tudo quanto era lugar, e ainda o faço – só que trocando as paredes e estrados da cama por caderninhos de verdade feitos pra isso –, mas um fato frequente tem me preocupado bastante: os marcadores marrons.

Vejam bem, eu tenho ascendência africana e espanhola – e de mais 800 outras regiões, aponta pesquisa do IBOPE –, então eu tenho a pele escura e o cabelo crespo. Demorou MUITO pra eu me acostumar com as minhas características físicas, parar de achar que era um defeito eu ter nascido com tal condição genética, que era um defeito eu ser do jeito que eu era. Doeu bastante, matei uns cachinhos, alisei umas pontinhas, tive uma fase louca-Avril-cabelo-roxo, mas aqui estou eu, me olhando no espelho e me achando uma rainha. Como consequência direta disso, aconteceu uma coisa linda: eu comecei a me desenhar mais. Meu cabelão cacheado, minhas sombrancelhas grossas e meus lábios ~fartos~ (eita, Giovana) foram inspiração pra muitos autorretratos que eu venho fazendo desde que trouxe o sexy de volta assumi os cachinhos de vez.

Eu sempre fui de desenhar e pintar com lápis de cor, e só esse ano, depois de influências de gente linda como o Vitor Martins, eu decidi me arriscar nos marcadores. Tenho feito muitas ilustrações usando diversas marcas dos bonitos, mas só recentemente eu levei um tapa na cara: não sei se existem marcadores marrons aptos a pintar a cara dos meus desenhos (!!!). Estou disposta a testar mais outras mil marcas, mas e se eu não achar?

Passei muito tempo da minha vida me achando errada no espelho, me achando errada na hora de tomar banho, tão errada que me desenhava usando o lápis rosado porque pintar de marrom ficava “feio” na minha cabeça, era errado. E quando eu finalmente acho que a cor da minha pele é a coisa mais maravilhosa eu simplesmente não consigo porque o mercado de marcadores não está preparado pra isso? Não existe um meio termo? Não existe um tom mais aguado? Não existe?

Continuarei testando quantos marcadores forem necessários, mas me incomoda que mais uma barreira tenha sido imposta de uma forma que talvez seja tão sem intenção.

Jamais deixarei de me desenhar, e até tenho meus truques pra poder usar os marcadores e canetinhas que já comprei (oi, papel kraft <3), mas fica aí um apelo: talvez as marcas nunca tenham pensado nisso, mas nós negrinhas também queremos pintar nossa cara como faríamos com um marcador rosado, certo?

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