“Não ler é um erro grande’, diz dramaturgo romeno na Flica 2014

Matéia Visniec e Márcio Meirelles falam sobre literatura e teatro em emsa da Flica (Foto: Ruan Melo/G1 BA)
Matéia Visniec e Márcio Meirelles falam sobre literatura e teatro em emsa da Flica (Foto: Ruan Melo/G1 BA)

Matéi Visniec e diretor baiano discutiram sobre a literatura para o teatro.
Ele conta que descontentamento com ditadura romena o levou às artes.

Publicado no G1

“A literatura vai ajudar a entender os homens na sua complexidade. Não ler é um erro muito grande. É perder as respostas essenciais”. A frase acima integra uma série de posicionamentos referentes à valorização da cultura, discutida pelo dramaturgo e poeta romeno Matéi Visniec na tarde desta sexta-feira (31), durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que ocorre no município do recôncavo baiano.

O dramaturgo romeno participou da sexta mesa de debates do evento, que contou ainda com a presença do diretor teatral baiano Márcio Meireles. Sob a mediação do professor e também diretor teatral Djalma Thürler, os convidados dialogaram sobre o tema “Cortinas abertas: Do Palco aos Livros”.

O encontro entre Visniec e Meireles não foi proposto por acaso. “Já montei quatro peças dele em dois anos”, disse o diretor teatral baiano no início da mesa. “É muito interessante quando você pensa em um livro e ele vira teatro, sem perder as características de um romance”, disse Meireles, sobre as adaptações trazidas para Bahia das obras do dramaturgo romeno.

No encontro, Visniec lembrou como o descontentamento com o regime ditatorial romeno o movimentou para as artes. “Tinha uma festa para homenagear o ditador e os alunos tinham a obrigação de glorificar o presidente. [Em um dos eventos de escola], eu tive também que contar os primeiros versos [dedicados ao presidente] e eu tive um branco. Eu esqueci. Foi muito grave. Os professores desesperados. Tive um bloqueio. Foi uma forma de resistência, mas também não tinha consciência disso”, destacou.

Dando destaque ao combate ao período ditatorial na Romênia, Visniec argumentou que na época os motivos políticos de embate eram claros, em oposição aos dias atuais. “Eu criticava o regime. Era fácil naquela época porque o mal era visível. Os símbolos do regime totalitário estavam presente: o presidente, a esposa. O mal hoje não é tão visível. “Como fazer isso hoje? Como criticar a indústria da diversão?”, questionou.

Para o dramaturgo romeno, a grande produção audiovisual mundial, em geral, não convoca questões sobre a diversidade cultural. “A cultura entra em conflito com os interesses desse sistema invisível que quer comer o nosso tempo. A televisão é uma forma de manipulação incrível. A televisão deveria chegar numa casa depois da prosperidade, da água quente. A cultura não pode ser tratada como qualquer mercadoria. Se Deus existe, ele gosta da diversidade. Se Deus existe, ama a diversidade”, criticou.

Um ponto em comum entre Meireles e Visniec é justamente o questionamento político. Para o diretor baiano, o romeno traz questões que não são regionais, mas do mundo. “Esse é o teatro que precisa ser feito no século XXI. O teatro é realmente a transformação. É uma poesia que ele escreve que me leva a pensar isso”, afirma.

Apesar de sempre trazer questionamentos políticos nas suas obras, Visniec disse que esse não é objetivo da sua produção. “Eu falei muitas vezes de assuntos políticos, mas nunca esqueci que a peça é um ato artístico. Literatura não denuncia do mesmo jeito de um jornalista, historiador. O teatro pode falar de assuntos políticos, mas da sua maneira. O poder tem medo da boa literatura, porque lá tem tudo”, disse.

Para o dramaturgo romeno, o segredo para escrever uma boa peça de teatro está na poesia. “Tenho uma coisa que nunca esqueço de colocar nas minhas peças: o mistério da poesia. A poesia me dar muitas repostas e vejo que é uma linguagem universal”, destacou.

Programação
A Festa Literária Internacional de Cachoeira já recebeu na sua quarta edição Stella Caymmi e Marielson Carvalho; Wilson Gomes e Consuelo Dieguez; Carlos Henrique Schroeder e Kátia Borges; Carlos Andreazza e Valéria Pergentino; Gonçalo M. Tavares e Mariana Paiva.

O terceiro dia de evento terá ainda o filósofo lituano Leonidas Donskis e o poeta e crítico literário e cinematográfico Nelson Ascher, na mesa intitulada “A tolerância aos intolerantes”, às 19h. Na ocasião, eles debaterão o pensamento político de paz e a interferência dessas ideias na sociedade contemporânea, seja no Brasil, na Europa ou no restante do mundo.

Já a Fliquinha terá o lançamento do livro “A mãe do Timbó”, além de contação de história com autores quilombolas. Também vai haver um recital de poesia e um bate-papo com as autoras Debora Knittel e Érica Falcão. Às 14h30 será realizado uma oficina de desenho. Das 15h30 às 19h, os autores Heloisa Prieto e Fernando Munaretto conversarão com o público.

A programação musical começa às 22h, com o encontro das filarmônicas Lyra Ceciliana e Minerva Cachoeirana. Às 23h20 o grupo Do Samba Chula ao Samba Reggae se apresenta no evento. O trabalho deles consiste de música, poesia e dramaturgia, contando a história dos principais movimentos musicais da Bahia.Todas as mesas literárias da Flica são realizadas no claustro do Conjunto do Carmo, no centro da cidade.

Conjunto do Carmo em Cachoeira, Bahia (Foto: Lílian Marques/ G1)
Conjunto do Carmo em Cachoeira, Bahia (Foto: Lílian Marques/ G1)

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