Crônicas avulsas: VIII Encontro de Blogs de Letras

Marcelo Caldas, no …Marcelo Caldas…

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Para mim, a criatividade tem a ver, antes de qualquer coisa, com coragem – a disposição para correr riscos, experimentar coisas novas e compartilhar as experiências com os outros. E isso não só eu tenho de sobra, como todos os blogueiros e blogueiras que participam do Encontro de Blogs de Letras. Talvez por isso – encontro após encontro, lá estamos todos nós juntos, compartilhando do mesmo pão sagrado: literatura.

Sou fã de Jorge Luis Borges, mas discordo de uma frase linda sua que diz:

“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”.

Penso que Paraíso mesmo é você estar em um lugar onde as pessoas gostam das mesmas coisas que você, onde não existe “A” ou “B”, todos são iguais, sem competições mesquinhas e falsa humildade. Por isso que dá tão certo o encontro do Blogs de Letras, que foi criado pela Cássia Carrenho do (http://www.publishnews.com.br) e pelo Sérgio Pavarini do (http://www.pavablog.com). Ou seja, um espaço de perfeita comunhão em torno da literatura que é o nosso Paraíso.

Nesse último encontro tivemos um bate-papo extremamente rico com a Paula Carvalho e Débora Guterman, ambas editoras da Saraiva (que dispensa comentários). Depois fomos imersos na narrativa estonteante do Klester Cavalcanti sobre seu livro: “Dias de Inferno na Síria”. Aliás, o Klester já ganhou o prêmio Jabuti por 3 vezes, fora outros prêmios nacionais e internacionais. Um jornalista que faz a diferença em seu meio. Algo que me marcou muito foi que enquanto o Klester narrava tudo que passou na Síria em plena guerra (que até hoje perdura) um silêncio tomou conta do encontro, e todos os olhares e atenção estavam voltados para ele, que de forma muito corajosa nos narrou tudo que viveu na Síria. Quando sua narração acabou, me veio à mente de forma arrebatadora, um trecho do poema: Aos que virão depois de nós, do genial Bertolt Brecht:

“Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
quando a fome reinava.
Eu vim para o convívio dos homens no tempo
da revolta
e me revoltei ao lado deles.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.
Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
deitei-me entre os assassinos para dormir,
Fiz amor sem muita atenção
e não tive paciência com a natureza.
Assim se passou o tempo
que me foi dado viver sobre a terra.”

Comecei a ler seu livro hoje, e tive a honra de ter meu exemplar autografado por ele, já estou na página 50, devorando cada página dessa história realista, corajosa e tenebrosa de tudo que ele viveu na Síria – em plena guerra. Uma verdadeira lição de jornalismo.

Indo para casa depois de ouvir tudo que aconteceu na sede da Editora Saraiva, nesse dia de evento maravilhoso, senti um pouco do peso dessa frase do Erico Verissimo do seu livro autobiográfico – Solo de Clarineta:

“Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a idéia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”

Creio que todos os blogueiros e blogueiras continuarão ascendo suas lâmpadas, hoje e sempre. Pois a nossa paixão pelos livros é a alma de tudo o que fazemos; sem ela, não se fica aqui por muito tempo…

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