A Cuca Recomenda: A Torre Acima do Véu

Karen, no Por Essas Páginas

Hoje a Cuca vem acompanhada de uma Cuquete nessa resenha. A Torre Acima do Véu, da Giz Editorial, foi lançado durante a Bienal do Livro de São Paulo desse ano e é claro que nós fomos lá no estande conferir, adquirir e tietar a queridíssima Roberta Spindler. A Cuca aqui já conhecia o trabalho dela desde Contos de Meigan e já tinha lido também o conto que originou o livro: A Torre Árabe. Portanto, sabendo do talento da Roberta, indiquei o livro para todas as meninas aqui no blog, mas só uma delas conseguiu ler em meio à super pilha, então essa resenha vem acompanhada da opinião da [email protected]. Ah, e as minhas opiniões estarão em verde. ‘Bora pra uma resenha dupla?

A_TORRE_ACIMA_DO_VEUQuando uma densa e venenosa névoa surge misteriosamente, pânico e morte tomam conta do planeta. Os poucos sobreviventes se refugiam no topo dos megaedifícios e arranha-céus das megalópoles. Acuados, vivem uma nova era de privações e sob o ataque constante de seres assustadores, chamados apenas de sombras. Suas vidas logo passaram a depender da proteção da Torre, aquela que controla os armamentos e a tecnologia que restaram. Cinquenta anos se passam, na megacidade Rio-Aires, Beca vive do resgate de recursos há muito abandonados nos andares inferiores, junto com seu pai e seu irmão. A profissão, perigosa por natureza, torna-se ainda mais letal quando ela participa de uma negociação traiçoeira e se vê cada vez mais envolvida em perigos e segredos que ameaçam muito mais do que sua vida ou a de sua família.” Fonte

Estava super empolgada quando comecei minha leitura de A Torre Acima do Véu, durante a Maratona Brasuca. O livro é uma distopia que fala sobre o que aconteceu com a humanidade após uma névoa misteriosa invadir o mundo e dizimar grande parte da população, transformando uma outra parte em seres sinistros chamados de sombras, que costumam raptar as pessoas, criando um clima tenso e de pavor no restante da civilização. Os sobreviventes abrigaram-se no topo de megaedifícios, acima do véu. Além disso, alguns humanos adquiram habilidades especiais devido à exposição à névoa, e Beca, a protagonista, é um desses humanos especiais; ela é uma saltadora, ou seja, tem uma facilidade acima da média para realizar grandes saltos, o que é bem útil no seu trabalho: resgate de recursos nos andares inferiores, saltando de prédios em prédios.

Gostei muito de toda essa ideia do véu e dos megaedifícios, um tipo de distopia bastante original, que ainda não tinha se visto por aí nesse mar de livros do gênero. (Quando vi a capa fiquei encanada de que fosse algo do tipo “Divergente”. Pra quem leu ou assistiu o filme vai entender o que estou dizendo. Mas não, foi bem diferente mesmo!) Já tinha gostado muito da ideia quando li o conto que originou o livro, e os primeiros capítulos são quase uma transcrição fiel desse texto. Para mim, que já tinha lido o conto antes, isso foi um pouco frustrante e diminuiu o ritmo da leitura, simplesmente pelo fato de que eu já tinha lido tudo aquilo antes, mas sei muito bem que é uma parte importante da história e que deve ser contada para os leitores que não tiveram esse contato prévio com o texto. (Realmente, como não li o conto eu precisava de todas as informações.)

A narração em terceira pessoa é intercalada com transmissões da Torre, que demonstram como o lugar tem uma influência nem sempre benigna na megacidade de Rio-Aires, por seu poder e por controlar a maioria dos suprimentos. O livro segue num clima tenso, de suspense e ação, enquanto Beca e sua família ficam na mira da Torre por causa de uma negociação que deu errado. Há ainda a desconfiança a respeito de Rato, um informante que guarda muitos outros segredos; esse foi um personagem cheio de potencial, o que mais me interessou, mas em algum ponto ele acabou se perdendo um pouco no livro. Já com Beca, a protagonista, não consegui criar nenhuma ligação, talvez pelo fato de que ela seja bastante arrogante, pretensiosa e seja descrita em grande parte do tempo como uma personagem praticamente sem falhas, quase perfeita, e que faz tudo do jeito certo. Isso me desagradou e atrapalhou bastante a minha leitura; apesar da ação e da trama transcorrer de maneira instigante, os personagens não me cativaram, o que fez com que eu não criasse conexões reais com eles durante o livro e não me importasse tanto quando deveria com seus destinos.

Não tive estes problemas de identificação não. Até porque não achei que Beca fosse perfeitinha demais, pelo menos não por trás da fachada dela. Fiquei com a impressão que a ideia era mesmo passar a fachada de durona e arrogante como defesa, mas que no fundo ela é apenas uma garota que teve que, literalmente, lutar por sua vida desde muito pequena e isso fez com que erguesse barreiras. Mas o personagem Rato poderia mesmo ser mais explorado. Senti falta de mais informações e mais foco nele.

Há algumas incoerências durante o texto e coisas mal explicadas que me pareceram pressa na hora de escrever o livro e, principalmente, uma falha da edição da Giz. Foram fatos, às vezes simples, que poderiam ter sido apanhados em uma edição um pouco mais crítica, mas que perturbam durante a leitura mais atenta. Por outro lado, não encontrei erros de revisão e a ambientação foi ótima, o leitor realmente se insere naquele cenário, uma humanidade destruída por uma catástrofe, a reunião de culturas brasileiras e argentinas, devido à ligação clara entre Rio de Janeiro e Buenos Aires na megacidade Rio-Aires. Também gostei bastante da capa, que deu o tom certo ao livro e tem tudo a ver com a história.

Bom, não posso falar com tanta propriedade quanto minha amiga escritora sobre pressa na hora de escrever ou falha de edição, mas também senti que algumas coisas foram mal explicadas ou mal amarradas. Isso me causou uma certa frustração. Sou curiosa demais e fico questionando as coisas! Mas a ambientação realmente me levou pra dentro deste mundo distópico da autora. Posso dizer que quando leio “viajo”, e neste caso até pude imaginar cheiros e texturas. As descrições são boas assim!

O livro termina com um certo gosto amargo e com várias assuntos pendentes, pedindo e, mais ainda, indicando que um segundo volume deve chegar por aí, ou até mais. Fiquei um pouco decepcionada, pois esperava um romance único, já que não houve nenhuma indicação, nem no livro, nem no marketing, nem ao menos no Skoob, de que essa seja uma série. Isso sempre me deixa frustrada porque gosto de saber quando estou iniciando uma. Digo o mesmo! Quero saber quando avaliar o final de um livro ou esperar pelo próximo. Quanto ao final meio amargo, eu gosto. A única coisa é que neste caso você fica mesmo na dúvida se vem uma continuação. Mesmo assim, se você curte distopias e uma trama recheada de ação, vale a pena arriscar-se sob o véu e tirar suas próprias conclusões.

Mesmo com os detalhes mal amarrados e a dúvida em relação ao final (se será ou não uma série), foi um livro que me prendeu bastante e que curti muito a leitura. Achei as partes de ação bastante dinâmicas me fazendo querer continuar e continuar até acabar! Acho mesmo que vale a pena conhecer o que há acima… e abaixo do véu também!

Ficha Técnica

Título: A Torre Acima do Véu
Autor: Roberta Spindler
Editora: Giz Editorial
Páginas: 272
Avaliação da Cuca: star3
Avaliação da Cuquete [email protected]: star4

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