Garota recebe doações de mil livros para sua biblioteca

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Raul Marques, no Diário Web

A pequena Kaciane Caroline Marques está provisoriamente sem o seu quarto, mas é por um motivo nobre. O cômodo está cheio de livros que ela ganhou na campanha que promove, por conta própria, para fomentar a leitura entre os moradores do Lealdade, bairro carente de Rio Preto. Em razão da iniciativa, a menina de 10 anos conquistou bolsa de estudos em uma escola particular. A história de Kaciane foi contada há uma semana em reportagem do Diário. Desde então, sua pacata vida teve uma revolução digna de roteiro de filme. Pelo menos 40 rio-pretenses se sensibilizaram e doaram juntos 1.000 livros, a maioria novo e em bom estado. Os títulos variam de literatura a Direito. Ao todo, 500 já estão com a garota. Falta buscar o restante.

Em razão do pouco espaço físico, os exemplares ocupam a cama, cômoda e corredores da casa. Com o quarto ‘interditado’, a jovem dormiu nos últimos dias na cama dos pais. Mas não reclama. Nem consegue esconder o sorriso. Recebeu ligações e mensagens do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Araraquara de interessados em colaborar. “Eu tinha esperança de que iria conseguir, mas não imaginava que seria tão rápido. Estou contente e ansiosa para começar.” Com a certeza de quem sabe o que quer, já definiu o nome: Biblioteca Formando Leitores. O nome sintetiza justamente o que busca com a louvável campanha.

A direção do London, um dos mais conceituados colégios de Rio Preto, ficou tocada com a história, entrou em contato com a família e resolveu fazer algo no campo educacional: ofereceu gratuitamente a ela uma bolsa de estudos em período integral, além do material didático, para estudar do sexto ano do fundamental até o terceiro do ensino médio. Como ainda vai cursar o quinto ano, Kaciane vai estudar a partir de 2016 no London – a instituição oferece do sexto ano para frente. A escola também se comprometeu a fornecer material de construção suficiente para erguer a sala de livros, com 16 metros quadrados, e doar prateleiras, livros e escrivaninha.

“Fiquei tocado com o exemplo. São pessoas assim que fazem a diferença no mundo, agora e no futuro. Ela tem forte dimensão humana. Não custa nada incentivar”, afirma Pedro Acquarone Neto, o Pedrinho, diretor do colégio London, escritor e professor. “Estou me sentindo muito feliz”, diz a menina. Para Pedrinho, quando se faz algo especial por alguém, a tendência é que ela repita o gesto, ou seja, é criado um círculo do bem, cujos resultados são em prol da sociedade. “Sempre que colaboro, peço para a pessoa que faça, no futuro, o mesmo por quem precisa. A família dela tem valores e uma forma digna de viver. Isso nos motivou bastante a ajudar.”

Ação que fará a diferença
Os pais de Kaciane pensam em que lugar vão erguer a biblioteca. Há um amplo espaço no fundo do quintal e um menor na parte da frente. Assim que a dúvida for resolvida com ajuda de uma profissional especialista, a intenção é começar a obra e realizar o desejo da filha. Se fossem depender dos próprios recursos financeiros, o projeto não sairia agora do papel. “Estou contente com tudo isso. Tem muita gente disposta a ajudá-la a realizar o sonho. Eu e minha esposa fazemos de tudo para ajudar nossos três filhos”, afirma o pai, Sílvio César Marques, 43 anos. Ele vende sacos de lixo nas ruas.

A doméstica Adriana Marques, 38 anos, enche os olhos de lágrimas ao falar das conquistas da filha Kaciane, que é apaixonada por leitura desde cedo, já leu 400 exemplares e quer ser escritora e jornalista quando crescer. O amor pelas letras começou quando pegou na biblioteca da escola ‘As Aventuras de Pedro, o Coelho’, de Beatrix Potter. Não parou mais de viajar com as histórias. A garota não quer criar uma biblioteca pensando somente em seu bem-estar, mas é movida por uma extraordinária vontade de proporcionar leitura e cultura para seus vizinhos.

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Livros são tratados com o maior zelo e carinho
Enquanto a construção da biblioteca não começa, Kaciane Caroline Marques cuida com todo zelo e carinho dos livros que já ganhou. A primeira iniciativa: pediu para a mãe limpar cuidadosamente cada exemplar que chegou. Depois, os títulos foram guardados na cama e cômoda e cobertos com um lençol.
“Para não sujar nenhum”, conta a garota. Também aproveita o tempo livre para fazer o que mais gosta: ler. É uma leitora compulsiva e, ao mesmo tempo, organizada. Mantém um diário para registrar tudo o que já ‘saboreou’.

No meio das doações, estava um exemplar de ‘Fazendo meu Filme’, de Paula Pimenta, que já ganhou sua atenção. Em termos matemáticos, está na leitura do livro de número 401. A menina começou a contar seu inovador projeto para as crianças da vizinhança – até para amealhar os primeiros seguidores. Os adultos aprovaram a iniciativa, que só vai contribuir para o crescimento dos moradores do Lealdade. Não pode ser diferente. O bairro, onde a família Marques mora há cinco meses, é carente de cultura. Um menino que mora na mesma rua que Kaciane disse que espera começar suas leituras em breve. Quem quiser falar com a família pode telefonar para o número 99155-3156 e combinar a doação de livros.

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