Gregório de Matos, o Boca do Inferno, ganha novo fôlego nas livrarias do país

Poeta barroco ganha biografia escrita por Ana Miranda e edição de suas obras completas

Mauricio Meireles, em O Globo

RIO — Em sua época, ele era uma velha sogra mexeriqueira. Um grande canalha, cínico, que era desrespeitoso com as coisas sagradas. Que descambava em terríveis obscenidades. E ainda era um malcriado, um rabugento, um negligente. Parasita, foi acusado de “devorar cinicamente” o pão alheio. Chamaram-no de pessimista, dono de uma alma maligna — e sua fama de mau durou séculos. Depois, veio a glória. Gregório de Matos (1633?-1669?) virou herói, revolucionário, antropófago, sujeito preocupado com a fome do povo, entre outros predicados.

O Boca do Inferno, como o poeta barroco foi apelidado por conta de sua língua afiada, foi odiado e depois amado — e vários movimentos artísticos, do romantismo ao tropicalismo, se apropriaram de sua imagem. Agora, ele acaba de chegar às livrarias com novo fôlego. Em primeiro lugar, com “Musa praguejadora” (Record), biografia escrita por Ana Miranda — que mostra a grandeza literária do autor e as reviravoltas de sua vida. Em segundo, com uma nova edição de sua obra, organizada pelos pesquisadores João Adolfo Hansen e Marcello Moreira em “Gregório de Matos — Poemas atribuídos: Códice Asensio-Cunha” (Autêntica) — que, em cinco volumes, adiciona uma dose de ceticismo sobre o que se conhecia até aqui do poeta.

Gregório de Matos, o Boca do Inferno, ganha novo fôlego nas livrarias do país

ETIQUETA PARA AGRUPAR POEMAS

Ana Miranda volta a falar de Gregório de Matos 25 anos após ganhar o Prêmio Jabuti por “Boca do Inferno”, seu romance sobre ele. Dessa vez, ela teve acesso a uma bibliografia que não estava acessível à época de lançamento do livro. Diante das dificuldades de fontes sobre a vida do poeta — há mesmo quem tenha duvidado da sua existência como autor —, a escritora cearense diz estar ciente que se insere numa longa tradição de interpretação do Boca do Inferno.

— Sempre tive a consciência de que o meu Gregório de Matos é uma mistura de minhas compreensões e incompreensões, fantasias, de meu faro, de coisas mágicas, de minhas leituras, memórias, emoções, limitações, qualidades e defeitos, ou seja, sempre soube que ele, no romance e na biografia, é uma criação minha — diz Ana. — O biógrafo se torna o seu biografado e vice-versa. Mas, tenho a perfeita convicção de que sou a pessoa que melhor o conhece, como homem. Não é saber a data disso, ou daquilo, isso pouco importa para mim, mas saber o que ele sentia quando uma mulher o desprezava, os dilaceramentos de sua alma, a sua luta inútil contra os instintos e o próprio tempo, coisas assim.

Gregório de Matos é uma figura difícil de biografar, como prova a edição da Autêntica, acompanhada de um estudo de João Adolfo Hansen e Marcello Moreira. Primeiro, eles lembram que a obra do baiano surgiu em um momento no qual o conceito de autoria era diferente dos dias de hoje — e o nome do Boca do Inferno era usado para definir um gênero literário.

Dessa forma, muitos poemas atribuídos a ele foram escritos por outras pessoas. Além disso, suas poesias circulavam sobretudo pela tradição oral. No século XVII, havia uma cultura de escribas que costumavam reuni-las. A nova edição das obras “completas” é baseada no códice Asensio-Cunha, que pertenceu ao gramático Celso Cunha.

— O nome dele é uma etiqueta para agrupar poemas. Há poemas de Euzébio de Matos, seu irmão, que era padre, mas que são atribuídos a Gregório. Há textos inclusive de poetas portugueses — diz Hansen.

Por isso, o Boca do Inferno que conhecemos hoje foi uma invenção de sucessivos críticos e historiadores ao longo dos séculos, segundo o pesquisador. Nos códices, os poemas costumavam ser antecedidos por uma seção chamada “Vida”, com uma biografia dos poetas.

— Esses textos traziam uma série de anedotas sobre a vida do poeta, como se ela fosse um espelho do que vamos ver nos poemas. Mas essa biografia é uma ficção, um modelo inventado na Itália do século XV — afirma Hansen, destacando que essas biografias passaram a ser utilizadas como fontes factuais por historiadores. — Inventou-se uma fama de que ele era um rebelde, um proto-nacionalista. No tropicalismo, ele virou anarquista, riponga, vanguarda do proletário colonial. E não é nada disso.

“MACHO, BRANCO, LETRADO E CATÓLICO”

Na edição das obras completas, os pesquisadores apresentam um poeta mais conservador do que admiradores imaginavam. Gregório de Matos, dizem, falava de seu lugar de branco, católico e fidalgo — três pilares do sistema de dominação colonial, que ele não desafiava.

— O eu de seus poemas diz “sou macho, branco, fidalgo, letrado e católico”. Tudo que não é isso, que é negro ou índio, judeu ou ateu, é inferior. Os poetas satíricos muitas vezes criticam os abusos do poder, mas nunca o próprio poder. Não há nada de abolicionista ou revolucionário em Gregório de Matos. Sua poesia traz os valores do pensamento dominante da sociedade — diz Hansen.

Nem sua verve mais venenosa o salva do laço com o establishment colonial. O pesquisador lembra que a maledicência é uma herança da poesia latina, na qual os pecadores são criticados.

— Funcionava assim: nós odiamos o ministro que rouba. Desejamos sua morte. Como não temos poder de morte, usamos o insulto. E o melhor insulto é o que envolve a mãe do ministro — explica João Adolfo Hansen.

Para as capas dos livros, foram escolhidas ilustrações do italiano Ulisse Aldrovandi (1522-1605), conhecido por seus desenhos do gênero fantástico.

— Ele representa sempre seres duplos, com dois sexos. Também compõe monstros com pedaços de outros seres, com pernas de galinhas, um pênis na barriga. Os desenhos reproduzem a linguagem da sátira, que é feita de pedaços de várias coisas — diz Hansen.

Mesmo a fama de “tarado” que alguns atribuíram ao poeta não se sustentaria na realidade. A indecência, diz Hansen, não era pensada como vergonhosa e fazia parte de uma tradição poética mais antiga. Só era considerada errada quando usada fora daquele contexto. Assim, poemas que mesmo hoje seriam considerados politicamente incorretos, por fazerem piadas de tipos indefesos, eram publicados.

— Mas se a indecência fosse entendida como protestantismo ou judaísmo, ela era punida — diz Hansen. — A sociedade burguesa é muito idiota. Achamos que a palavra cão morde.

Esta é a primeira grande edição das obras do baiano desde a estabelecida por James Amado, há 50 anos, fruto da consulta a vários códices antigos. Na versão atual, os poemas estão organizados tal e qual estão no códice consultado — sem a preocupação filológica de Amado, de estabelecer o que seria um possível texto original do poeta.

Diferente do trabalho de Amado, a edição da Autêntica traz os poemas em ordem cronológica (“como forma de tratar a historicidade dos textos”, explica Hansen). A divisão do códice usado como base, em poesias sacras ou satíricas, entre outras, permanece. Como as obras completas editadas em 1964 hoje têm status de raridade, os dois pesquisadores quiseram preencher um espaço vazio.

— James Amado não tem essa visão. O Amado lê essa poesia como uma crônica da Bahia, como uma documentação. Nós lemos essa poesia como uma prática de letrados de produzirem ficção imitando modelos muito antigos, gregos e latinos — diz Hansen.

Como a edição da Autêntica saiu quase ao mesmo tempo que seu livro, Ana Miranda não teve tempo de conhecer o estudo dos dois. Mas ela destaca que sua biografia não é um tratado literário, nem uma investigação de autoria dos poemas.

— Há um estudioso português, Francisco Topa, que iniciou os estudos nesse sentido, mas por enquanto todos os que abordam o Gregório se fundamentam nos códices. Daí, todos os poemas me serviram, ou como biografia, ou como leitura dos costumes da época — diz a autora, lembrando que tudo que escreveu é fundamentado em documentos.

Ela acha difícil formar um juízo definitivo sobre o poeta, ou tachá-lo de conservador.

— Ele era, como todo homem do Barroco, dilacerado entre extremos. Uma figura de tal complexidade que não se pode reduzi-lo a uma só explicação, como obsceno, rebelde, herói ou conservador. São facetas que os poemas indicam, caso sejam de sua autoria. Mas o fato de ele ter perdido os cargos na Sé e depois ter sido desterrado para Angola demonstra que era um insurgente. Acima de tudo, qualquer juízo a seu respeito pode ser anulado por “insuficiência de instrução cabal”, como disse Antônio Houaiss, uma vez que ainda não se comprovou a autoria dos poemas.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *